Olá, querido doutor e doutora! A prevenção da infecção do sítio cirúrgico envolve um conjunto estruturado de medidas distribuídas no período pré, intra e pós-operatório, com foco na redução da carga microbiana e na otimização das condições do hospedeiro. A prática clínica exige integração entre avaliação individual do paciente, padronização institucional de processos e vigilância contínua dos resultados.
As medidas preventivas devem ser adaptadas ao tipo de procedimento, ao risco individual e às condições de cada serviço.
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O que é Prevenção de Infecção do sítio cirúrgico
A infecção do sítio cirúrgico é caracterizada pelo aparecimento de processos infecciosos relacionados diretamente ao procedimento operatório, manifestando se em um período determinado após a intervenção. Esse quadro pode acometer tecidos cutâneos superficiais, planos profundos, ou ainda órgãos e cavidades manipulados durante a cirurgia.
Clinicamente, envolve sinais inflamatórios locais, secreção purulenta, achados microbiológicos compatíveis ou alterações estruturais identificadas por métodos diagnósticos que confirmam o vínculo com o ato cirúrgico.
Classificação das infecções do sítio cirúrgico
Infecção incisional superficial
Corresponde ao acometimento de pele e tecido subcutâneo no local da incisão. Costuma apresentar eritema, aumento de dor, calor local e secreção purulenta limitada à superfície, mantendo preservadas as estruturas profundas.
Infecção incisional profunda
Envolve os planos mais internos, como fáscia e musculatura. Pode cursar com coleções profundas, deiscência parcial ou total da ferida, febre e sinais sistêmicos decorrentes do processo infeccioso. A palpação muitas vezes revela dor acentuada e induração extensa.
Infecção de órgão ou cavidade
Acomete órgãos internos ou cavidades corporais manipulados durante o procedimento. Manifesta se com abscessos intra-abdominais, secreções anormais em drenos, febre persistente e alterações significativas em exames de imagem, indicando envolvimento além da incisão cirúrgica.
Fatores de risco modificáveis e não modificáveis
Fatores de risco não modificáveis
Incluem características inerentes ao paciente ou ao procedimento. Idade avançada, comorbidades pré-existentes, imunossupressão, histórico de infecções prévias e tempo cirúrgico prolongado aumentam a probabilidade de desenvolvimento de infecção. Também se enquadram aqui o tipo de cirurgia, a classificação de contaminação da ferida e condições anatômicas que favoreçam retenção de secreções ou maior manipulação tecidual.
Fatores de risco modificáveis
Referem se a variáveis clínicas e operacionais que podem ser otimizadas no período pré, intra e pós-operatório. Dessa categoria fazem parte o controle glicêmico inadequado, a realização de tricotomia de forma incorreta, o uso de antibioticoprofilaxia fora do tempo recomendado, a hipotermia intraoperatória, a higiene inadequada da pele, o tabagismo e lapsos na técnica cirúrgica. Processos institucionais também influenciam, como fluxo de salas cirúrgicas, preparo inadequado de materiais e falhas em protocolos de antissepsia.
Medidas pré-operatórias de prevenção
Higiene e preparo da pele do paciente
O banho pré-operatório com solução adequada reduz a carga microbiana cutânea e favorece menor colonização no momento da incisão. A pele deve ser mantida limpa e seca até o deslocamento para o centro cirúrgico, evitando aplicações domiciliares de produtos que possam interferir na antissepsia.
Manejo de comorbidades e otimização clínica
O controle rigoroso da glicemia, a estabilização de doenças cardiovasculares, a suspensão adequada do tabagismo e a correção de estados nutricionais inadequados contribuem para melhor resposta cicatricial. Pacientes com infecções ativas devem ser avaliados para adiamento do procedimento quando possível.
Tricotomia adequada
Quando necessária, deve ser realizada imediatamente antes da cirurgia com aparador elétrico, reduzindo microlesões cutâneas associadas à depilação com lâmina. A ausência de tricotomia é preferível quando não houver interferência técnica.
Antibioticoprofilaxia
A seleção do antimicrobiano deve considerar o tipo de cirurgia e flora esperada, com administração dentro do intervalo recomendado para atingir concentrações plasmáticas eficazes no momento da incisão. Ajustes de dose são necessários em pacientes com maior peso corporal ou em cirurgias prolongadas.
Otimização nutricional e avaliação pré-anestésica
Pacientes com risco nutricional devem receber suporte específico para reduzir complicações infecciosas. A avaliação pré-anestésica identifica fatores como risco aumentado de aspiração, condições respiratórias e possíveis interações medicamentosas que podem impactar a recuperação pós-operatória.
Medidas intraoperatórias de prevenção
Antissepsia rigorosa da pele e manutenção de campo estéril
A preparação cutânea com soluções antissépticas adequadas reduz a carga microbiana antes da incisão. A equipe mantém higiene das mãos, paramentação correta e manipulação cuidadosa dos instrumentos, garantindo menor risco de contaminação do campo cirúrgico.
Controle da normotermia
A manutenção de temperatura corporal estável favorece perfusão tecidual e adequada função imunológica. Sistemas de aquecimento ativo e monitorização contínua da temperatura auxiliam na prevenção de hipotermia intraoperatória.
Manejo adequado da oxigenação e ventilação
A oferta adequada de oxigênio suplementar otimiza a atividade dos neutrófilos e favorece cicatrização. A ventilação controlada contribui para boa troca gasosa, prevenindo atelectasias e reduzindo complicações respiratórias.
Controle glicêmico intraoperatório
A manutenção da glicemia em faixa segura minimiza alterações de resposta imune. A monitorização frequente permite ajustes imediatos para evitar picos ou quedas glicêmicas que comprometam o processo de cicatrização.
Técnica cirúrgica apurada
A manipulação cuidadosa dos tecidos, a hemostasia precisa e a irrigação adequada reduzem o risco de coleções e sangramentos. O fechamento deve ser realizado com materiais apropriados, respeitando a anatomia e evitando tensão excessiva na ferida.
Uso adequado de materiais e manutenção do ambiente
A utilização de instrumentais esterilizados, controle do fluxo de portas e limitação de pessoas em sala diminuem a circulação de partículas. A troca estratégica de luvas após manipulação de áreas contaminadas reforça a segurança do procedimento.
Reposição volêmica e hemodinâmica equilibrada
A manutenção de perfusão tecidual adequada evita hipoperfusão e favorece transporte eficiente de mediadores de defesa. A estabilização hemodinâmica reduz complicações infecciosas associadas ao estresse fisiológico do ato operatório.
Reforço da antibioticoprofilaxia quando indicado
Em procedimentos prolongados ou com perdas sanguíneas expressivas, a redosagem intraoperatória mantém níveis séricos terapêuticos. A decisão deve considerar farmacocinética da droga e características da cirurgia.
Medidas pós-operatórias de prevenção
Cuidados adequados com curativos
A manutenção de um curativo limpo e oclusivo nas primeiras horas favorece proteção contra contaminação externa. A troca deve seguir técnica asséptica e ser realizada apenas quando houver saturação, deslocamento ou necessidade de inspeção clínica. A observação de exsudato anormal, odor ou hiperemia orienta reavaliação precoce.
Vigilância clínica sistemática
A avaliação frequente de dor, edema, temperatura local, secreções e sinais sistêmicos permite detecção precoce de infecção. Pacientes de maior risco devem ter monitorização intensificada, incluindo controle rigoroso de glicemia, suporte hemodinâmico adequado e acompanhamento evolutivo para identificação de alterações sutis.
Educação do paciente e da equipe
A orientação sobre higiene das mãos, cuidados domiciliares com a ferida, sinais de alerta e necessidade de retorno imediato reduz atrasos na identificação de complicações. A equipe deve seguir protocolos institucionais de manipulação da ferida, respeitando técnicas assépticas e registrando achados relevantes.
Controle de fatores clínicos associados
Manutenção de normotermia, estabilidade hemodinâmica, suporte nutricional, analgesia adequada e prevenção de retenção urinária ou constipação contribuem para um pós-operatório mais seguro. Pacientes diabéticos devem ter monitorização glicêmica contínua, evitando oscilações que prejudiquem a cicatrização.
Gestão do ambiente e de dispositivos
A utilização correta de drenos, sua retirada no momento oportuno e o manuseio com técnica limpa diminuem a entrada de patógenos. Materiais utilizados na ferida, como suturas e adesivos, devem ser avaliados para sinais de reação local ou contaminação.
Tratamento inicial quando há suspeita de infecção
Avaliação clínica imediata do paciente e da ferida
O primeiro passo é uma reavaliação sistemática do paciente, com registro de sinais locais da ferida cirúrgica (eritema, calor, dor, edema, secreção, deiscência) e de sinais sistêmicos como febre, taquicardia, hipotensão ou alteração do estado mental. Deve se definir se o quadro é compatível com infecção incisional superficial, infecção profunda ou infecção de órgão, ou cavidade, pois isso orienta a abordagem e a urgência de intervenção.
Coleta de material para exame microbiológico antes de antimicrobianos, sempre que possível
Na presença de secreção ou coleção, recomenda se coletar amostra para cultura e antibiograma antes do início da antibioticoterapia, quando a condição clínica permitir. Em casos de suspeita de abscesso profundo ou infecção de órgão cavidade, a coleta guiada por imagem ou durante reabordagem cirúrgica fornece material de maior qualidade para direcionar o tratamento.
Início de antibioticoterapia empírica baseada no risco e no tipo de cirurgia
Frente à suspeita consistente de infecção, especialmente com repercussão sistêmica, deve se iniciar antibioticoterapia empírica de amplo espectro, ajustada ao tipo de procedimento (por exemplo, cirurgias limpas x limpo contaminadas x contaminadas), flora local e perfil de resistência institucional. A conduta inclui revisão rápida das diretrizes locais, avaliação de alergias, função renal e necessidade de terapia venosa. O esquema é posteriormente ajustado conforme o resultado das culturas e a evolução clínica.
Drenagem de coleções e desbridamento quando indicados
Em infecções com coleção purulenta, deiscência com cavidade ou necrose tecidual, a drenagem e o desbridamento cirúrgico são medidas centrais. A abertura parcial ou total da ferida, com irrigação e remoção de tecido desvitalizado, reduz carga bacteriana e favorece cicatrização. Em infecções de órgão ou cavidade, pode ser necessária reabordagem cirúrgica ou drenagem guiada por imagem.
Suporte hemodinâmico e controle de comorbidades
Pacientes com sinais sistêmicos relevantes exigem avaliação para sepse e instituição de medidas de suporte, incluindo reposição volêmica, controle de pressão arterial, monitorização em ambiente adequado e manejo de disfunções orgânicas. O controle rigoroso da glicemia, suporte nutricional e correção de distúrbios eletrolíticos contribuem para melhor resposta ao tratamento.
Reavaliação seriada e documentação estruturada
A evolução da ferida e a resposta clínica ao tratamento devem ser reavaliadas diariamente, com registro fotográfico quando possível, descrição de características da secreção, extensão do eritema e condições de dor. A partir dessa vigilância, a equipe decide sobre ajuste de antibióticos, necessidade de novo desbridamento, mudança de curativo ou encaminhamento para níveis mais complexos de cuidado.
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Referências Bibliográficas
- EBSCO Information Services. Surgical Site Infection – Prevention. DynaMed. 2025. Disponível em: https://www.dynamed.com/prevention/surgical-site-infection-prevention.



