Resumo sobre Acidose metabólica: definição, diagnóstico e mais!
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Resumo sobre Acidose metabólica: definição, diagnóstico e mais!

E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Acidose Metabólica, um distúrbio do equilíbrio ácido-base caracterizado pela redução primária da concentração sérica de bicarbonato (HCO₃⁻), levando à diminuição do pH sanguíneo em decorrência do acúmulo de ácidos ou da perda excessiva de bicarbonato.

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Vamos nessa!

Definição de Acidose metabólica

A acidose metabólica é um distúrbio do equilíbrio ácido-base caracterizado por um processo patológico que promove o aumento da concentração de íons hidrogênio (H⁺) no organismo e a redução da concentração plasmática de bicarbonato (HCO₃⁻). Esse desequilíbrio ocorre quando há produção excessiva de ácidos, perda de bicarbonato ou redução da excreção renal de ácidos, comprometendo a manutenção do pH fisiológico.

Do ponto de vista fisiológico, o equilíbrio ácido-base é regulado principalmente pelo sistema tampão bicarbonato–dióxido de carbono, descrito pela equação de Henderson-Hasselbalch, na qual a relação entre a concentração de bicarbonato e a pressão parcial de dióxido de carbono (pCO₂) determina o pH sanguíneo. Na acidose metabólica, a redução da concentração de HCO₃⁻ desloca esse equilíbrio, favorecendo a diminuição do pH caso não haja compensação adequada.

É importante distinguir acidose metabólica de acidemia. Enquanto a acidose metabólica refere-se ao processo fisiopatológico responsável pela redução do bicarbonato e aumento dos íons H⁺, a acidemia corresponde ao achado laboratorial de pH arterial inferior a 7,35

Nem todos os pacientes com acidose metabólica apresentam acidemia, uma vez que o pH final depende da compensação respiratória e da presença concomitante de outros distúrbios ácido-base, podendo ser baixo, normal ou, ocasionalmente, elevado.

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Patogênese da acidose metabólica 

A acidose metabólica resulta de processos que promovem o aumento da carga ácida do organismo ou a redução da disponibilidade de bicarbonato (HCO₃⁻), comprometendo a manutenção do equilíbrio ácido-base. De forma geral, sua fisiopatologia envolve três mecanismos principais: aumento da produção de ácidos, perda de bicarbonato e diminuição da excreção renal de ácidos.

Além da classificação fisiopatológica, a acidose metabólica também pode ser categorizada de acordo com o ânion gap (AG) em:

  • Acidose metabólica com ânion gap elevado, caracterizada pelo acúmulo de ácidos não mensurados no plasma;
  • Acidose metabólica com ânion gap normal (hiperclorêmica), na qual a redução do bicarbonato é compensada pelo aumento da concentração de cloro.

Aumento da produção de ácidos

O aumento da produção ou do acúmulo de ácidos representa uma das principais causas de acidose metabólica com ânion gap elevado. Nessa situação, o excesso de íons hidrogênio é inicialmente tamponado pelo bicarbonato, levando à redução de sua concentração plasmática.

As principais condições associadas incluem:

  • Acidose láctica, decorrente do acúmulo de lactato em estados de hipoperfusão tecidual ou alterações metabólicas;
  • Cetoacidose, observada no diabetes mellitus descompensado, no alcoolismo e no jejum prolongado;
  • Intoxicações exógenas, como por metanol, etilenoglicol, dietilenoglicol, propilenoglicol, salicilatos, ingestão crônica de paracetamol (especialmente em pacientes desnutridos) e tolueno;
  • Acidose por ácido D-láctico, produzida pela fermentação de carboidratos por bactérias intestinais.

Perda de bicarbonato

A perda de bicarbonato reduz a principal base tamponante do organismo, favorecendo o desenvolvimento de acidose metabólica. Como a diminuição do HCO₃⁻ é compensada pela retenção de cloro, esse mecanismo geralmente resulta em acidose metabólica hiperclorêmica (ânion gap normal).

As principais causas são:

  • Diarreia grave, devido à perda significativa de bicarbonato pelas fezes;
  • Exposição da urina à mucosa gastrointestinal, como ocorre após derivações urinárias utilizando segmentos intestinais;
  • Acidose tubular renal proximal (tipo 2), caracterizada pela redução da reabsorção tubular de bicarbonato.

Em algumas condições, como a cetoacidose diabética, ocorre ainda perda urinária de ânions orgânicos (cetoácidos ou lactato) associados ao sódio ou potássio. Esses ânions representam “bicarbonato potencial”, pois seriam metabolizados posteriormente para regenerar bicarbonato. Sua eliminação urinária impede essa regeneração, fazendo com que, durante a recuperação clínica, a acidose inicialmente com ânion gap elevado evolua para uma acidose metabólica hiperclorêmica.

Diminuição da excreção renal de ácidos

Os rins desempenham papel fundamental na manutenção do equilíbrio ácido-base por meio da excreção diária da carga de ácidos não voláteis produzida pelo metabolismo. Quando essa capacidade está comprometida, ocorre retenção de íons hidrogênio e desenvolvimento de acidose metabólica.

Esse mecanismo pode ocorrer por dois processos principais:

  • Redução da taxa de filtração glomerular, como na doença renal crônica, em que a capacidade global de excreção de ácidos diminui proporcionalmente à perda da função renal;
  • Defeitos tubulares renais, especialmente na acidose tubular renal distal (tipo 1) e na acidose tubular renal tipo 4, nas quais há comprometimento da secreção tubular de íons hidrogênio, apesar da filtração glomerular inicialmente preservada.

Acidose por diluição

A acidose por diluição é uma forma de acidose metabólica decorrente da infusão rápida de grandes volumes de solução salina a 0,9%. Como essa solução não contém bicarbonato nem precursores metabolizáveis de bicarbonato (como lactato ou acetato), ocorre redução da concentração sérica de bicarbonato por efeito dilucional, geralmente acompanhada de hipercloremia. Em geral, essa acidose é de intensidade leve a moderada, embora a hipercloremia associada possa contribuir para disfunção renal aguda em alguns pacientes.

Diagnóstico da Acidose metabólica

O diagnóstico da acidose metabólica baseia-se na avaliação integrada do bicarbonato sérico (HCO₃⁻), do pH arterial e do contexto clínico do paciente, podendo ser complementado pela análise de outros eletrólitos e da compensação respiratória.

Redução da concentração de bicarbonato

O principal critério laboratorial para o diagnóstico de acidose metabólica é a redução da concentração sérica de bicarbonato, geralmente considerada inferior a 23 mEq/L, embora o valor de referência possa variar entre laboratórios.

Na maioria dos pacientes, a diminuição isolada do bicarbonato é suficiente para estabelecer o diagnóstico, desde que seja possível excluir, com base na avaliação clínica, outras condições capazes de reduzir o HCO₃⁻, como a alcalose respiratória crônica.

Avaliação do pH arterial

A acidemia é definida pela presença de pH arterial inferior a 7,35. Nos casos de acidose metabólica simples, observa-se simultaneamente:

  • Redução da concentração sérica de bicarbonato (HCO₃⁻);
  • Redução do pH arterial.

Entretanto, a presença de acidemia não é obrigatória para o diagnóstico de acidose metabólica, pois o pH pode ser influenciado por mecanismos compensatórios ou pela coexistência de outros distúrbios ácido-base.

Identificação de distúrbios ácido-base mistos

Quando a acidose metabólica ocorre em associação com outros distúrbios ácido-base, como acidose respiratória ou alcalose metabólica, a concentração de bicarbonato pode estar normal ou até elevada, dificultando o reconhecimento do distúrbio.

Nessas situações, o diagnóstico exige a interpretação conjunta de:

  • pH arterial;
  • Concentração sérica de bicarbonato;
  • Pressão parcial de dióxido de carbono (PaCO₂);
  • Demais eletrólitos séricos, especialmente para cálculo do ânion gap e avaliação da compensação esperada.

Assim, a acidose metabólica deve ser reconhecida quando o bicarbonato estiver inferior ao valor esperado para a condição clínica do paciente, mesmo que permaneça dentro da faixa considerada normal.

Um exemplo clássico é o paciente com acidose respiratória crônica, que apresenta retenção de CO₂ e aumento compensatório do bicarbonato. Caso desenvolva diarreia intensa, a perda fecal de bicarbonato reduz esse valor, caracterizando uma acidose metabólica associada, embora a concentração final de HCO₃⁻ possa permanecer dentro dos limites de normalidade.

Importância da avaliação evolutiva

A interpretação dos distúrbios ácido-base frequentemente é realizada com base em uma única amostra laboratorial. No entanto, quando disponíveis, resultados seriados devem ser comparados, pois a análise da evolução do bicarbonato, do pH e dos demais parâmetros fornece informações mais precisas do que um valor isolado.

A ausência de valores basais pode levar à interpretação incorreta dos exames, especialmente em pacientes com distúrbios ácido-base crônicos ou mistos. Dessa forma, a avaliação diagnóstica deve sempre integrar os achados laboratoriais, a evolução temporal e o contexto clínico.

Tratamento da acidose metabólica

O tratamento deve ser direcionado, prioritariamente, à correção da causa subjacente, uma vez que a acidose representa uma manifestação fisiopatológica de diferentes doenças e não uma condição isolada. A abordagem terapêutica baseia-se na identificação do mecanismo responsável pela acidose, na avaliação da gravidade do distúrbio e na monitorização da resposta ao tratamento.

A medida mais importante consiste em identificar e corrigir a etiologia da acidose metabólica. Entre as principais abordagens destacam-se:

  • Acidose láctica: restauração da perfusão tecidual, tratamento do choque, correção da hipóxia e manejo da condição desencadeante.
  • Cetoacidose diabética: reposição volêmica, insulinoterapia e correção dos distúrbios hidroeletrolíticos.
  • Perda gastrointestinal de bicarbonato: tratamento da diarreia ou de outras fontes de perda de bicarbonato, associado à reposição adequada de líquidos e eletrólitos.
  • Doença renal: tratamento da insuficiência renal e, quando indicado, terapia dialítica.
  • Intoxicações exógenas: interrupção da exposição ao agente tóxico e instituição do tratamento específico para cada intoxicação.

Em diversas situações, a correção da causa permite que os ânions orgânicos acumulados, como lactato e cetoácidos, sejam metabolizados novamente em bicarbonato, promovendo a resolução espontânea da acidose.

Correção dos distúrbios hidroeletrolíticos

A reposição volêmica constitui parte fundamental do tratamento em pacientes com hipovolemia. Entretanto, deve-se considerar que a administração de grandes volumes de solução salina a 0,9% pode induzir ou agravar uma acidose metabólica hiperclorêmica por diluição, devido à ausência de bicarbonato ou de ânions metabolizáveis em sua composição. Nesses casos, soluções cristaloides balanceadas podem representar uma alternativa mais adequada em pacientes selecionados.

Monitorização da resposta terapêutica

A avaliação da eficácia do tratamento deve incluir monitorização clínica e laboratorial seriada, com atenção para:

  • pH arterial ou venoso;
  • Concentração sérica de bicarbonato (HCO₃⁻);
  • Pressão parcial de dióxido de carbono (PaCO₂);
  • Eletrólitos séricos;
  • Ânion gap, preferencialmente corrigido para a concentração de albumina.

A redução progressiva do ânion gap e a recuperação da concentração de bicarbonato indicam melhora da acidose nas formas associadas ao acúmulo de ácidos orgânicos.

Avaliação da compensação respiratória

Durante o tratamento, é essencial verificar se a compensação respiratória permanece adequada. Na acidose metabólica simples, espera-se aumento da ventilação alveolar, com redução da PaCO₂, contribuindo para minimizar a queda do pH.

A adequação dessa resposta pode ser estimada pela fórmula de Winter:

PaCO₂ esperada = (1,5 × HCO₃⁻) + 8 (±2 mmHg)

Desvios em relação ao valor esperado sugerem a presença de um distúrbio ácido-base misto:

  • PaCO₂ superior ao esperado: indica acidose respiratória associada, geralmente por incapacidade de hiperventilar adequadamente.
  • PaCO₂ inferior ao esperado: sugere alcalose respiratória concomitante.

Em pacientes com cetoacidose diabética, a resolução do quadro frequentemente é acompanhada pela transição de uma acidose metabólica com ânion gap elevado para uma acidose metabólica hiperclorêmica, decorrente da perda urinária de cetoácidos (bicarbonato potencial) durante o tratamento. Essa alteração representa um fenômeno esperado da evolução terapêutica e não necessariamente indica falha no tratamento.

De forma semelhante, na acidose láctica, a restauração da perfusão tecidual permite a metabolização do lactato em bicarbonato, favorecendo a correção do distúrbio ácido-base.

Referências

Michael Emmett, MDHarold Szerlip, MD, MACP, FCCP, FASN, FNKF. Approach to the adult with metabolic acidosis. UpToDate, 2025. disponível em: UpToDate

Jung B, Martinez M, Claessens YE, Darmon M, Klouche K, Lautrette A, Levraut J, Maury E, Oberlin M, Terzi N, Viglino D, Yordanov Y, Claret PG, Bigé N; Société de Réanimation de Langue Française (SRLF); Société Française de Médecine d’Urgence (SFMU). Diagnosis and management of metabolic acidosis: guidelines from a French expert panel. Ann Intensive Care. 2019 Aug 15;9(1):92. doi: 10.1186/s13613-019-0563-2. PMID: 31418093; PMCID: PMC6695455.

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