Resumo sobre Cerebelite Aguda: definição, manifestações clínicas e mais!

Resumo sobre Cerebelite Aguda: definição, manifestações clínicas e mais!

E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Cerebelite Aguda, um processo inflamatório do cerebelo que pode ter origem infecciosa, pós infecciosa ou autoimune, levando a comprometimento súbito da coordenação motora. 

O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.

Vamos nessa!

Definição de Cerebelite Aguda

A cerebelite é uma inflamação aguda do cerebelo, geralmente associada a processos infecciosos ou imunomediados, que pode ocorrer por invasão direta de agentes no sistema nervoso central ou como resposta inflamatória pós infecciosa. 

Trata-se de uma entidade que integra o espectro das síndromes inflamatórias cerebelares, diferenciando-se das formas benignas autolimitadas por seu potencial de evolução mais grave e por apresentar alterações estruturais inflamatórias no parênquima cerebelar. O curso é variável, podendo ser autolimitado ou evoluir com complicações decorrentes do edema cerebelar.

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Etiologias da Cerebelite Aguda

As etiologias da cerebelite podem ser organizadas de forma didática em três grandes grupos: infecciosas, imunomediadas e indeterminadas.

Causas infecciosas

  • Virais
    • Vírus varicela zoster;
    • Vírus Epstein Barr;
    • Vírus influenza e parainfluenza;
    • Rotavírus;
    • Vírus da caxumba;
    • Herpes simples;
    • Vírus do Nilo Ocidental.

Esses agentes representam as causas mais frequentemente associadas à cerebelite, especialmente na população pediátrica. A inflamação pode resultar de invasão direta do sistema nervoso central ou ocorrer após a infecção sistêmica.

  • Bacterianas e outros agentes
    • Mycoplasma pneumoniae;
    • Streptococcus pneumoniae;
    • Salmonella typhi;
    • Borrelia burgdorferi;
    • Coxiella burnetii.

Nesses casos, a inflamação pode estar relacionada à infecção direta do sistema nervoso central ou a um processo inflamatório secundário à infecção.

  • Mecanismos imunomediados pós infecciosos: Em parte dos casos, a cerebelite parece decorrer de uma resposta imune desencadeada por infecção prévia, sem evidência de invasão direta do agente no tecido nervoso. Há descrições de produção de autoanticorpos, como antigangliosídeos e anticorpos contra estruturas neuronais, sugerindo participação de mecanismos autoimunes. Nesse contexto, a cerebelite pode compartilhar características fisiopatológicas com outras condições inflamatórias do sistema nervoso central.
  • Casos pós- vacinais: De forma mais rara, a cerebelite pode ocorrer após imunização, provavelmente por mecanismo imunomediado semelhante ao pós infeccioso.
  • Etiologia indeterminada: Apesar das múltiplas causas descritas, uma proporção significativa dos casos permanece sem agente identificado, mesmo após investigação laboratorial ampla. Isso reforça o caráter heterogêneo e multifatorial da cerebelite.

Fisiopatologia da Cerebelite Aguda

A fisiopatologia da cerebelite é complexa e pode envolver tanto a invasão direta do tecido cerebelar por agentes infecciosos quanto mecanismos imunomediados desencadeados após uma infecção sistêmica. Esses dois processos não são mutuamente exclusivos e podem coexistir em diferentes graus, o que explica a heterogeneidade clínica e radiológica observada na doença.

Nos casos relacionados à invasão infecciosa direta, há evidências de processo inflamatório predominante no córtex cerebelar e nas leptomeninges. Estudos anatomopatológicos descrevem infiltração por linfócitos, principalmente células T, além de monócitos e macrófagos, com acometimento mais evidente da camada molecular do córtex cerebelar e perda de células de Purkinje. 

Diferentemente de outras condições inflamatórias do sistema nervoso central, não se observa padrão típico de desmielinização difusa. O processo inflamatório resulta em edema cerebelar significativo, que pode gerar efeito de massa na fossa posterior, compressão do quarto ventrículo e comprometimento do fluxo liquórico.

Em outros casos, a fisiopatologia parece estar relacionada a um mecanismo imunomediado pós infeccioso. Nessa situação, a inflamação não decorre necessariamente da presença ativa do agente no sistema nervoso central, mas sim de uma resposta imune desencadeada por infecção prévia. 

Há relatos de produção de autoanticorpos, como antigangliosídeos e anticorpos dirigidos contra estruturas neuronais, sugerindo participação de fenômenos autoimunes. Esse mecanismo aproxima a cerebelite de outras síndromes inflamatórias pós infecciosas, embora as alterações estruturais no cerebelo possam ser mais marcantes.

Independentemente do mecanismo inicial, o elemento central da fisiopatologia é o edema inflamatório do parênquima cerebelar. Como o cerebelo está contido em um compartimento anatômico restrito na fossa posterior, mesmo aumento moderado de volume pode levar a compressão de estruturas adjacentes, justificando o potencial de evolução grave em alguns pacientes.

Manifestações clínicas da Cerebelite Aguda

A cerebelite apresenta espectro clínico amplo, variando de formas com predomínio de ataxia e cefaleia até quadros graves com hipertensão intracraniana e risco de complicações potencialmente fatais.

Sintomas iniciais mais frequentes

  • Cefaleia intensa;
  • Vômitos;
  • Ataxia de início agudo.

A ataxia é o sinal neurológico mais característico, podendo ser:

  • Truncal;
  • De marcha;
  • Associada a dismetria;
  • Acompanhada de disartria;
  • Associada a nistagmo;

Em muitos casos, a cefaleia é o sintoma predominante na apresentação inicial.

Manifestações relacionadas ao edema cerebelar e hipertensão intracraniana

Nos quadros mais graves, as manifestações refletem o efeito de massa na fossa posterior:

  • Sonolência;
  • Rebaixamento do nível de consciência;
  • Irritabilidade;
  • Convulsões;
  • Sinais de comprometimento do tronco encefálico;
  • Febre;
  • Rigidez de nuca.

Quando ocorre obstrução do fluxo liquórico, pode haver evolução para hidrocefalia e deterioração neurológica rápida.

Possíveis sequelas

Embora muitos pacientes apresentem recuperação completa, podem ocorrer:

  • Persistência de ataxia leve;
  • Tremor de intenção;
  • Disartria;
  • Alterações cognitivas sutis;
  • Dificuldades de memória, linguagem ou coordenação motora fina.

Diagnóstico da Cerebelite Aguda

Inicialmente, o diagnóstico é suspeitado diante de sintomas agudos de disfunção cerebelar associados ou não a sinais de hipertensão intracraniana. No entanto, a confirmação depende fundamentalmente da neuroimagem, sendo a ressonância magnética o exame de escolha. A tomografia computadorizada pode ser normal nas fases iniciais ou demonstrar apenas sinais inespecíficos de edema.

Na ressonância magnética, os achados mais descritos incluem:

  • Hipersinal em T2 e FLAIR no córtex cerebelar;
  • Edema difuso ou focal, podendo ser unilateral ou bilateral;
  • Realce leptomeníngeo ou pial após contraste;
  • Restrição à difusão em alguns casos;
  • Efeito de massa sobre o quarto ventrículo;
  • Sinais de hidrocefalia obstrutiva;
  • Posicionamento baixo das tonsilas cerebelares ou herniação.

Esses achados ajudam a diferenciar a cerebelite de outras causas de ataxia aguda, como tumores da fossa posterior, abscessos, intoxicações, doenças metabólicas, encefalite difusa e encefalomielite disseminada aguda.

A análise do líquor pode revelar pleocitose e elevação de proteínas, mas pode também ser normal. Em situações de suspeita de hipertensão intracraniana importante, a punção lombar pode ser contraindicada. Exames laboratoriais e sorológicos podem auxiliar na identificação de agente infeccioso, embora em muitos casos a etiologia permaneça indefinida.

Tratamento da Cerebelite Aguda

O tratamento da cerebelite aguda é individualizado e depende da gravidade clínica e da etiologia identificada ou suspeita. Pode ser organizado em três pilares principais: suporte clínico, controle do processo inflamatório e tratamento etiológico, além do manejo das complicações.

Medidas gerais e suporte

Todos os pacientes devem ser submetidos a monitorização neurológica rigorosa. Nos casos graves, com rebaixamento do nível de consciência, sinais de hipertensão intracraniana ou hidrocefalia, está indicada internação em unidade de terapia intensiva, podendo ser necessário suporte ventilatório e hemodinâmico.

Incluem-se ainda:

  • Controle sintomático com antieméticos;
  • Hidratação adequada;
  • Prevenção de aspiração;
  • Fisioterapia precoce.

Tratamento medicamentoso

O tratamento farmacológico combina, conforme o caso, terapia anti-inflamatória, antimicrobiana e imunomoduladora.

Corticosteróides

São amplamente utilizados nos quadros moderados a graves, especialmente quando há edema cerebelar ou hidrocefalia. Seu objetivo é reduzir o edema inflamatório e prevenir complicações estruturais.

Os esquemas mais descritos incluem:

  • Dexametasona em dose padrão;
  • Pulsoterapia com metilprednisolona por 3 a 5 dias;
  • Seguida de desmame gradual.

O uso precoce parece estar associado a melhor evolução clínica.

Antimicrobianos e antivirais

Devem ser iniciados empiricamente em casos graves até definição etiológica.

  • Macrolídeos como azitromicina são utilizados quando há suspeita de Mycoplasma pneumoniae;
  • Aciclovir é empregado na suspeita de herpesvírus;
  • Em contextos específicos, como infecção por SARS CoV 2, antivirais podem ser combinados com corticosteroides.

O tratamento é ajustado conforme resultados laboratoriais.

Imunoterapia

A imunoglobulina intravenosa é indicada em casos autoimunes, pós infecciosos ou refratários aos corticosteroides, especialmente quando há evidência de autoanticorpos.

Em formas autoimunes graves ou paraneoplásicas, podem ser considerados imunossupressores adicionais, como rituximabe ou plasmaférese.

Manejo das complicações

O controle da hipertensão intracraniana é fundamental nos quadros graves.

Podem ser utilizados:

  • Manitol;
  • Solução salina hipertônica.

Na presença de hidrocefalia aguda ou sinais de herniação, está indicada derivação ventricular externa. A descompressão cirúrgica da fossa posterior é reservada para situações extremas de herniação refratária.

Prognóstico e seguimento

O prognóstico é variável. Pacientes com hidrocefalia ou necessidade de intervenção neurocirúrgica apresentam maior risco de sequelas. Recomenda-se reabilitação neurológica e seguimento prolongado devido à possibilidade de déficits motores, cognitivos e ataxia residual.

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Referências

ORNREICH, L.; SHKALIM-ZEMER, V.; LEVINSKY, Y.; ABDALLAH, W.; GANELIN-COHEN, E.; STRAUSSBERG, R. Acute cerebellitis in children: a many-faceted disease. Journal of Child Neurology, v. 31, n. 7, p. 1-7, 2016. DOI: 10.1177/0883073816634860.

DESAI, J.; MITCHELL, W. G. Acute cerebellar ataxia, acute cerebellitis, and opsoclonus-myoclonus syndrome. Journal of Child Neurology, v. 27, n. 11, p. 1482-1488, 2012. DOI: 10.1177/0883073812450318.

SAWAISHI, Y.; TAKADA, G. Acute cerebellitis. The Cerebellum, v. 1, p. 223-228, 2002.

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