E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a colite segmentar associada à diverticulose, uma condição inflamatória que acomete segmentos do cólon portadores de divertículos, geralmente poupando o reto e áreas sem diverticulose.
O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.
Vamos nessa!
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Definição de Colite segmentar associada a diverticulose
A colite segmentar associada à diverticulose, também chamada de SCAD, é uma condição inflamatória caracterizada por inflamação crônica da mucosa em um segmento do cólon que apresenta divertículos, ocorrendo mais frequentemente no cólon sigmoide.
Trata-se de uma complicação da diverticulose, na qual há presença de divertículos, mas com inflamação restrita ao segmento colônico acometido, diferindo da diverticulite, que envolve inflamação do divertículo e dos tecidos adjacentes.
Do ponto de vista endoscópico e histológico, a SCAD pode variar desde alterações inflamatórias leves, com hemorragias submucosas, até um quadro de inflamação crônica ativa exuberante, podendo mimetizar doença inflamatória intestinal.
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Fisiopatologia da Colite segmentar associada a diverticulose
A fisiopatologia da colite segmentar associada à diverticulose ainda não está completamente esclarecida, mas diferentes mecanismos têm sido propostos para explicar o processo inflamatório localizado nos segmentos do cólon acometidos por divertículos.
Um dos mecanismos sugeridos é o prolapso da mucosa colônica. Acredita-se que a mucosa prolapsada fique mais exposta ao estresse mecânico e ao atrito intraluminal, o que favoreceria inflamação crônica da parede intestinal. Esse estímulo repetido poderia desencadear alterações estruturais e resposta inflamatória persistente.
Outro fator implicado é a estase fecal nos segmentos com diverticulose. O acúmulo de conteúdo fecal pode promover alterações na microbiota intestinal e na atividade enzimática bacteriana, contribuindo para um ambiente pró-inflamatório. Além disso, a estase pode aumentar a exposição da mucosa a antígenos intraluminais, favorecendo uma resposta inflamatória local.
Alterações na permeabilidade da mucosa intestinal também podem desempenhar papel relevante, permitindo maior interação entre antígenos luminais e o sistema imunológico da mucosa, perpetuando o processo inflamatório.
Por fim, a alteração da microcirculação local, com episódios de isquemia focal da mucosa, é outro mecanismo proposto. A redução do fluxo sanguíneo em áreas específicas do cólon pode levar a dano tecidual e inflamação, contribuindo para o padrão segmentar característico da doença.
Manifestações clínicas da Colite segmentar associada a diverticulose
As manifestações clínicas da colite segmentar associada à diverticulose costumam ser inespecíficas, o que pode dificultar o reconhecimento inicial da condição.
Os pacientes geralmente apresentam diarreia crônica, que pode ser persistente ou intermitente. Além disso, é comum a queixa de dor abdominal em cólica, predominando no quadrante inferior esquerdo, região onde a diverticulose é mais frequente, especialmente no sigmoide.
Em alguns casos, ocorre hematochezia intermitente, caracterizada pela eliminação de sangue vivo nas fezes. Aproximadamente um terço dos pacientes apresenta mais de um sintoma no momento do diagnóstico, combinando dor, alteração do hábito intestinal e sangramento retal.
Do ponto de vista laboratorial, o hemograma costuma ser normal, embora possa haver alterações nos casos com inflamação mais intensa. Marcadores inflamatórios fecais, como calprotectina ou lactoferrina fecal, podem estar elevados quando há inflamação intestinal significativa.
Nos exames de imagem, particularmente na tomografia computadorizada de abdome, pode-se observar espessamento da parede colônica no segmento acometido por diverticulose. Em alguns pacientes, também é possível identificar estriações da gordura pericólica, sugerindo inflamação local.
Diagnóstico da Colite segmentar associada a diverticulose
O diagnóstico da colite segmentar associada à diverticulose é realizado principalmente por meio de avaliação endoscópica com biópsia, geralmente durante investigação de diarreia crônica e dor abdominal.
A confirmação diagnóstica baseia-se na presença de inflamação limitada ao segmento do cólon que apresenta divertículos, associada a alterações inflamatórias crônicas na biópsia, com preservação do reto. Um ponto fundamental é que não é necessário antecedente de diverticulite para estabelecer o diagnóstico.
Achados endoscópicos
Na endoscopia, a inflamação acomete tipicamente a mucosa interdiverticular, sem envolvimento dos óstios diverticulares. A distribuição é característica, afetando principalmente o sigmoide e, eventualmente, o cólon descendente, com preservação do reto.
Os achados endoscópicos podem variar em intensidade e foram classificados em quatro subtipos:
- Tipo A, padrão de pregas crescentes: lesões arredondadas e avermelhadas, medindo entre 0,5 e 1,5 cm, localizadas no topo das pregas colônicas;
- Tipo B, padrão semelhante à retocolite ulcerativa leve a moderada: perda do padrão vascular submucoso, edema de mucosa, hiperemia e erosões difusas;
- Tipo C, padrão semelhante à doença de Crohn: presença de úlceras aftoides isoladas;
- Tipo D, padrão semelhante à retocolite ulcerativa grave: perda do padrão vascular, hiperemia intensa, ulcerações difusas e redução do calibre luminal.
Achados histológicos
A histologia demonstra inflamação crônica variável conforme o subtipo, sendo um achado marcante a normalidade das biópsias retais.
No tipo A, observa-se infiltração inflamatória por linfócitos e neutrófilos, sem alterações significativas da arquitetura glandular.
Nos tipos B e D, predominam alterações crônicas da lâmina própria, como plasmocitose basal, inflamação mista difusa, metaplasia de células de Paneth, distorção das criptas, criptite, abscessos crípticos e hemorragia críptica.
No tipo C, podem estar presentes inflamação transmural, fissuras, granulomas epitelioides e vasculite linfo-histiocitária.
Tratamento da Colite segmentar associada a diverticulose
- Tratamento inicial com antibióticos: a primeira abordagem terapêutica consiste na administração de ciprofloxacino 500 mg por via oral duas vezes ao dia associado a metronidazol 10 mg/kg por dia, dividido em duas ou três doses, durante 10 a 14 dias, com o objetivo de reduzir a inflamação possivelmente relacionada à alteração da flora intestinal e ao estase fecal.
- Adição de mesalazina nos casos sem resposta: em pacientes que não apresentam melhora adequada com antibióticos, recomenda-se introduzir mesalazina 800 mg por via oral três vezes ao dia por 7 a 10 dias; se a resposta for insuficiente após duas a quatro semanas, a dose pode ser aumentada para 1600 mg três vezes ao dia.
- Uso de corticosteroides nos casos refratários: quando há falha terapêutica com antibióticos e mesalazina, indica-se prednisona 40 mg ao dia por uma semana, seguida de redução gradual ao longo de aproximadamente seis semanas até a suspensão; a budesonida pode ser considerada como alternativa em situações selecionadas.
- Tratamento cirúrgico em casos graves ou dependentes de corticoide: a ressecção segmentar do cólon é reservada para pacientes com doença refratária ou dependente de esteroides, definida pela impossibilidade de reduzir a prednisona para menos de 10 mg por dia dentro de três meses sem recorrência, ou recaída em até três meses após a suspensão.
- Terapias imunomoduladoras ou biológicas: embora existam dados limitados, relatos sugerem que imunomoduladores e agentes biológicos, nos moldes utilizados na doença inflamatória intestinal, podem beneficiar pacientes com doença persistente apesar do tratamento convencional.
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Referências
John H Pemberton, MDAnne Peery, MD, MSCR. Segmental colitis associated with diverticulosis. UpToDate, 2025. Disponível em: UpToDate



