Resumo sobre Hipercalcemia Hipocalciúrica Familiar: definição, manifestações clínicas e mais!
Fonte: Freepik

Resumo sobre Hipercalcemia Hipocalciúrica Familiar: definição, manifestações clínicas e mais!

E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Hipercalcemia Hipocalciúrica Familiar, uma condição genética benigna caracterizada por elevação persistente do cálcio sérico associada à baixa excreção urinária de cálcio, geralmente decorrente de mutações no receptor sensor de cálcio. 

O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.

Vamos nessa!

Definição de Hipercalcemia Hipocalciúrica Familiar

A hipercalcemia hipocalciúrica familiar (HHF) é uma condição genética benigna, geralmente hereditária, causada por mutações no gene do receptor sensível ao cálcio (CaSR), que levam à redução da sensibilidade desse receptor aos níveis séricos de cálcio.

Como consequência, ocorre uma elevação leve e persistente do cálcio sérico, associada a baixa excreção urinária de cálcio (hipocalciúria), níveis de paratormônio (PTH) normais ou discretamente elevados e, frequentemente, hipermagnesemia.

O mecanismo central envolve uma alteração no “set point” do cálcio, fazendo com que as paratireoides necessitem de níveis mais altos de cálcio para suprimir a secreção de PTH, além de aumentar a reabsorção renal de cálcio.

Clinicamente, a HHF é, na maioria dos casos, assintomática e descoberta incidentalmente, podendo, raramente, cursar com sintomas inespecíficos como fadiga, constipação e poliúria. É importante destacar sua relevância diagnóstica por mimetizar o hiperparatireoidismo primário, embora tenha curso benigno e, em geral, não requeira tratamento específico.

Descubra como as bancas cobram na prática!

Conheça o Banco de Questões!

Etiologia da Hipercalcemia Hipocalciúrica Familiar

A etiologia está relacionada, principalmente, a alterações genéticas que reduzem a função do receptor sensível ao cálcio (CaSR), essencial para a regulação da homeostase do cálcio e da secreção de paratormônio (PTH).

Na maioria dos casos, a HHF tipo 1 decorre de uma mutação heterozigótica com perda de função no gene CASR, localizado no braço longo do cromossomo 3. Essa alteração diminui a sensibilidade do receptor ao cálcio sérico, levando a um “ajuste” inadequado do controle do PTH e, consequentemente, à hipercalcemia leve com hipocalciúria.

Em situações mais raras, mutações homozigóticas no CASR podem ocorrer, resultando em um quadro mais grave, com hiperparatireoidismo neonatal severo, associado a complicações como fraturas ósseas e falha no crescimento.

Outras formas menos comuns incluem:

  • HHF tipo 2: associada a mutações no gene GNA11;
  • HHF tipo 3: relacionada a mutações no gene AP2S1.

Além das causas genéticas, há descrições excepcionais de HHF adquirida, decorrente de autoanticorpos contra o CaSR, que reduzem sua atividade. Esse mecanismo deve ser considerado principalmente em pacientes com forte histórico pessoal ou familiar de doenças autoimunes.

Fisiopatologia da Hipercalcemia Hipocalciúrica Familiar

A fisiopatologia da hipercalcemia hipocalciúrica familiar está diretamente relacionada à disfunção do receptor sensível ao cálcio (CaSR), presente em diversos tecidos, especialmente nas paratireoides e nos rins, que são os principais responsáveis pelo controle da homeostase do cálcio.

Nas células principais das paratireoides, o CaSR regula a síntese e a liberação do paratormônio (PTH) de acordo com os níveis de cálcio ionizado. Em condições normais, a elevação do cálcio sérico inibe a secreção de PTH. No entanto, na HHF, mutações com perda de função no CaSR aumentam o “set point” de sensibilidade ao cálcio, tornando as paratireoides menos responsivas. 

Assim, são necessários níveis mais elevados de cálcio sérico para suprimir o PTH, o que resulta em níveis de PTH normais ou discretamente aumentados, mesmo na presença de hipercalcemia.

Nos rins, o CaSR está presente ao longo de todo o néfron e regula a reabsorção tubular de cálcio. Na HHF, a redução da atividade do receptor leva a um aumento da reabsorção tubular de cálcio e magnésio, independentemente da ação do PTH. Como consequência, ocorre hipocalciúria (baixa excreção urinária de cálcio), apesar da hipercalcemia.

Portanto, o quadro fisiopatológico da HHF resulta da combinação de:

  • Diminuição da sensibilidade das paratireoides ao cálcio → manutenção inadequada da secreção de PTH;
  • Aumento da reabsorção renal de cálcio e magnésio → hipocalciúria e níveis elevados ou normais de magnésio;

Esse conjunto de alterações leva ao fenótipo clássico da doença: hipercalcemia leve, hipocalciúria e PTH normal ou discretamente elevado.

Manifestações da Hipercalcemia Hipocalciúrica Familiar

As manifestações clínicas são, em sua maioria, ausentes ou leves, refletindo o caráter benigno da condição, especialmente na HHF tipo 1. A maior parte dos pacientes é assintomática, sendo o diagnóstico frequentemente feito de forma incidental em exames laboratoriais que evidenciam hipercalcemia leve.

Sintomas inespecíficos

Quando presentes, os sintomas costumam ser leves e pouco específicos, relacionados à hipercalcemia, incluindo:

  • Fadiga;
  • Fraqueza;
  • Constipação;
  • Poliúria;
  • Polidipsia;
  • Cefaleia.

Formas mais sintomáticas

Pacientes com HHF tipo 3 tendem a apresentar quadro mais exuberante, podendo cursar com:

  • Hipofosfatemia;
  • Osteomalácia em alguns casos.

Manifestações ósseas e complicações associadas

Embora, de modo geral, não haja aumento significativo do risco de fraturas na HHF tipo 1, podem ocorrer:

  • Fraturas ósseas;
  • Osteoporose;
  • Anormalidades ósseas intrauterinas descritas em algumas famílias;
  • Condrocalcinose.

Algumas manifestações menos comuns foram relatadas, embora sem relação causal bem estabelecida:

  • Pancreatite;
  • Síndrome nefrótica (especialmente em crianças).

Diagnóstico da Hipercalcemia Hipocalciúrica Familiar

O diagnóstico da hipercalcemia hipocalciúrica familiar pode ser desafiador, principalmente pela sobreposição clínica com o Hiperparatireoidismo primário, sendo essencial diferenciá-los para evitar condutas inadequadas.

Avaliação clínica inicial

O primeiro passo envolve uma anamnese detalhada, com ênfase em:

  • História familiar de hipercalcemia;
  • Presença de hipercalcemia desde idade jovem (especialmente < 40 anos);
  • Revisão de exames prévios para confirmar cronicidade;

Achados sugestivos de HHF incluem:

  • Hipercalcemia leve e persistente;
  • PTH normal ou discretamente elevado (inapropriadamente normal);
  • Ausência de sintomas típicos de hipercalcemia;
  • História familiar positiva ou falha prévia de cirurgia cervical (paratireoide).

Avaliação laboratorial

O principal exame para diferenciação é a excreção urinária de cálcio em 24 horas, que na HHF mostra:

  • Cálcio urinário baixo (< 200 mg/24h), mesmo na presença de hipercalcemia.

Outro parâmetro fundamental é a razão entre depuração de cálcio e creatinina:

  • Relação Ca/Cr < 0,01 → fortemente sugestiva de HHF (80–90% dos casos);
  • Valores entre 0,01 e 0,02 → zona cinzenta;
  • Importante: cerca de 10% dos casos de PHPT também podem apresentar valores baixos.

Testes genéticos

A análise genética é recomendada em casos duvidosos, especialmente quando:

  • Relação Ca/Cr ≤ 0,02;
  • Ausência de história familiar clara;

Vale lembrar que mutações de novo ocorrem em cerca de 15% dos casos, portanto a ausência de história familiar não exclui o diagnóstico.

Exclusão de causas secundárias de hipocalciúria

Antes de interpretar a calciúria, é fundamental excluir condições que podem reduzir falsamente o cálcio urinário, como:

  • Deficiência de vitamina D;
  • Baixa ingestão de cálcio;
  • Doença renal;
  • Uso de diuréticos tiazídicos ou lítio.
  • Magnésio sérico: geralmente normal-alto ou levemente elevado na HHF (ao contrário do PHPT, onde tende a ser baixo).

Tratamento da Hipercalcemia Hipocalciúrica Familiar

O tratamento é, na maioria dos casos, conservador, devido ao caráter benigno e à baixa probabilidade de complicações.

Conduta principal

A base do manejo consiste em:

  • Educação do paciente e familiares;
  • Reassurance (tranquilização) quanto à natureza benigna da doença;

Essa abordagem é suficiente para a grande maioria dos pacientes, que permanecem assintomáticos ao longo da vida.

Tratamento em casos selecionados

Em situações raras, quando há manifestações atípicas ou complicações, podem ser consideradas intervenções adicionais:

  • Paratireoidectomia subtotal:
    • Indicada excepcionalmente;
    • Reservada para casos mais graves ou com difícil controle clínico.

Terapia medicamentosa

O receptor sensível ao cálcio (CaSR) é um alvo terapêutico potencial em pacientes sintomáticos:

  • Calcimiméticos (ex.: cinacalcete):
    • Atuam estimulando o CaSR;
    • Podem reduzir os níveis de cálcio sérico;
    • Uso descrito tanto em adultos quanto em crianças.
  • Bifosfonatos:
    • Podem ser utilizados para controle da hipercalcemia;
    • Necessitam, em geral, de administração repetida, devido ao caráter crônico da doença. 

Veja também!

Referências

Nava Suarez CC, Anastasopoulou C, Kathuria P. Familial Hypocalciuric Hypercalcemia. [Updated 2024 Jul 2]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK459190/

Você pode gostar também