E aí, doc! Vamos explorar mais um sinal semiológico clássico? Hoje o foco é o Sinal de Cullen, uma condição caracterizada por uma equimose periumbilical aquela coloração azulada ou arroxeada que surge na região ao redor do umbigo.
Estamos aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a refinar seu olhar clínico, promovendo uma prática cada vez mais segura e eficaz para seus pacientes.
Vamos nessa!
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Definição do Sinal de Cullen
O sinal de Cullen é caracterizado pelo surgimento de edema superficial e equimose (manchas arroxeadas ou azuladas) no tecido adiposo subcutâneo da região periumbilical. Também conhecido como equimose periumbilical, esse fenômeno visual é um indicador de que há um sangramento ou processo inflamatório grave ocorrendo no espaço intra-abdominal ou retroperitoneal.
Embora seja frequentemente associado à pancreatite aguda grave, o sinal de Cullen pode surgir em diversas outras condições médicas que envolvem hemorragias internas. Sua identificação no exame físico é um sinal de alerta crítico para o médico, pois a presença dessa marca está relacionada a um prognóstico mais reservado e a um aumento significativo no risco de mortalidade do paciente.
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Etiologia do Sinal de Cullen
O sinal de Cullen possui uma etiologia multifatorial, geralmente associado a quadros hemorrágicos ou inflamatórios agudos no abdome ou retroperitônio. Seu surgimento é o resultado final do deslocamento de fluidos através de planos anatômicos específicos até atingir o tecido subcutâneo periumbilical. As principais causas e fatores associados incluem:
- Condições pancreáticas: a pancreatite aguda grave, especialmente a forma necrosante e hemorrágica, é a causa mais prevalente, onde enzimas digestivas liberadas provocam necrose vascular.
- Emergências ginecológicas e obstétricas: a ruptura de gravidez ectópica que motivou a descrição original do sinal e o aumento ovariano maciço.
- Eventos vasculares e traumáticos: ruptura de aneurisma da aorta abdominal ou da artéria ilíaca interna, além de traumas abdominais e ruptura espontânea do baço.
- Patologias gastrointestinais e hepáticas: perfuração de úlcera duodenal, ruptura do ducto biliar comum, carcinoma hepatocelular, linfoma hepático e abscessos amebianos.
- Fatores iatrogênicos: Complicações de procedimentos médicos, como biópsias hepáticas percutâneas ou intervenções radiológicas e angiográficas.
- Neoplasias metastáticas: Casos de câncer de tireoide e de esôfago com disseminação metastática para a região abdominal.
Em conjunto, essas condições provocam o rastreamento do fluido hemorrágico através dos ligamentos gastro-hepático e falciforme. Por indicar patologias internas severas, a presença deste sinal clínico é um marcador crítico que exige investigação e manejo médico imediatos.
Manifestações clínicas do Sinal de Cullen
A manifestação clínica mais característica do sinal de Cullen é o surgimento de uma equimose periumbilical, que se apresenta como um edema superficial acompanhado de manchas azuladas ou arroxeadas ao redor do umbigo. Curiosamente, esse achado não costuma ser imediato, levando geralmente de dois a três dias e em alguns casos até uma semana para se tornar visível após o início dos sintomas da patologia subjacente.
A coloração da mancha não é estática e reflete o estágio de degradação da hemoglobina no tecido subcutâneo. Inicialmente, ela pode exibir um tom preto-azulado ou ardósia, evoluindo gradualmente para matizes de verde, amarelo ou castanho antes de desaparecer completamente da pele conforme o sangue extravasado é reabsorvido.

O que a mancha revela sobre o quadro?
Embora a mancha em si seja apenas um reflexo visual e não cause dor local desproporcional, ela funciona como um marcador crítico de gravidade para patologias como a pancreatite aguda, onde sua presença está associada a uma taxa de mortalidade de até 37%.
É comum que o sinal venha acompanhado de sintomas sistêmicos severos, como dor abdominal intensa, náuseas e vômitos, que são reflexos diretos do processo inflamatório ou hemorrágico interno.
Sinais associados e frequência
Em cerca de 1% a 3% dos casos de pancreatite aguda, o sinal de Cullen pode coexistir com o Sinal de Grey Turner, que é a equimose localizada nos flancos.
Essa combinação é um alerta vermelho para o clínico, indicando a possibilidade de necrose pancreática e sangramento retroperitoneal ou intra-abdominal extenso, o que exige uma intervenção diagnóstica e terapêutica imediata.
Diagnóstico do Sinal de Cullen
O diagnóstico do sinal de Cullen exige um elevado grau de suspeição clínica, especialmente em pacientes que apresentam quadros de dor abdominal súbita e o surgimento de manchas periumbilicais características. Como essa manifestação costuma ser tardia, aparecendo geralmente entre dois a três dias após o início dos sintomas, o médico deve realizar reavaliações constantes do exame físico para não ignorar esse importante marcador de gravidade.
Embora a identificação visual seja o ponto de partida, a confirmação diagnóstica e a busca pela causa base dependem fundamentalmente da tomografia computadorizada. A TC é considerada o padrão-ouro porque permite rastrear o trajeto exato do fluido hemorrágico ou inflamatório pelos ligamentos abdominais, ajudando a diferenciar se a origem é uma pancreatite aguda, uma ruptura de aneurisma ou uma emergência ginecológica.
É essencial que o clínico saiba diferenciar o sinal de Cullen de outras condições que mimetizam manchas na região umbilical, como hematomas por aplicação de heparina, celulites ou o nódulo de Sister Mary Joseph, que indica metástase de tumores intra-abdominais. Por estar associado a uma taxa de mortalidade de até 37% em casos de pancreatite, sua presença deve acelerar imediatamente a investigação e o suporte intensivo ao paciente.
Tratamento do Sinal de Cullen
O tratamento do sinal de Cullen não é direcionado à mancha na pele em si, mas sim à gravíssima condição subjacente que a provocou. Como este ele funciona como um alerta para patologias internas severas, o manejo deve ser imediato e focado em estabilizar o paciente e tratar a fonte do sangramento ou da inflamação.
No caso da pancreatite aguda, que é a causa mais comum associada ao sinal, a abordagem costuma ser intensiva e multidisciplinar. O foco inicial baseia-se na reposição volêmica vigorosa com fluidos intravenosos, controle rigoroso da dor com analgésicos, uso de antieméticos e suporte nutricional, que pode incluir a nutrição parenteral em casos de maior gravidade.
Dependendo da etiologia identificada pelos exames de imagem, intervenções específicas tornam-se vitais para a sobrevivência do paciente. Isso pode incluir desde a realização de uma CPRE (colangiopancreatografia retrógrada endoscópica) para desobstrução biliar e inserção de stents até procedimentos cirúrgicos para o manejo de complicações, como a marsupialização de pseudocistos pancreáticos.
Dado que a presença deste sinal está associada a uma taxa de mortalidade de 37% em quadros de pancreatite, o objetivo primordial do tratamento é interromper a progressão da falência de órgãos e prevenir infecções secundárias, como abscessos e necroses. Com o sucesso do manejo da doença de base, a coloração periumbilical tende a desaparecer gradualmente conforme o organismo reabsorve o sangue extravasado.
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Referências
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BOSMANN, M.; SCHREINER, O.; GALLE, P. R. Coexistence of Cullen’s and Grey Turner’s Signs in Acute Pancreatitis. The American Journal of Medicine, [S. l.], v. 122, n. 4, p. 333-334, abr. 2009.


