E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Síndrome de Lemmel, uma condição rara caracterizada por obstrução biliar causada por um divertículo duodenal periampular na ausência de cálculos biliares.
O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.
Vamos nessa!
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Definição de Síndrome de Lemmel
A síndrome de Lemmel é uma condição clínica rara caracterizada pela ocorrência de icterícia obstrutiva na ausência de cálculos biliares ou tumores, causada pela presença de um divertículo duodenal periampular.
Nessa síndrome, o divertículo localizado próximo à ampola de Vater pode provocar compressão extrínseca do ducto biliar comum e/ou do ducto pancreático, levando à dilatação dessas estruturas e consequente obstrução biliar.
Como resultado, os pacientes podem apresentar manifestações como icterícia, dor abdominal, colangite ou pancreatite, decorrentes da estase biliar e da dificuldade de drenagem das secreções pancreatobiliares.
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Etiologias da Síndrome de Lemmel
A etiologia da síndrome de Lemmel está relacionada principalmente à presença de um divertículo duodenal periampular (DDP), localizado na segunda porção do duodeno, próximo à ampola de Vater. Esse divertículo, geralmente adquirido e mais comum em indivíduos idosos, pode provocar obstrução do sistema biliar na ausência de cálculos ou tumores, sendo o principal mecanismo responsável pela síndrome.
Diversos fatores fisiopatológicos associados ao divertículo periampular podem contribuir para o desenvolvimento da obstrução biliar. Um dos mecanismos mais importantes é a compressão extrínseca do ducto biliar comum pelo próprio divertículo distendido. Além disso, a presença do divertículo pode levar a alterações funcionais da ampola de Vater e disfunção do esfíncter de Oddi, prejudicando o fluxo normal da bile e favorecendo estase biliar.
Outro mecanismo etiológico descrito envolve processos inflamatórios locais, como diverticulite, que podem causar edema e compressão das estruturas biliares adjacentes. Em alguns casos, o divertículo pode conter enterólitos, bezoares ou impactação de resíduos alimentares, que aumentam seu volume e intensificam a compressão sobre os ductos biliares ou pancreáticos.
Fisiopatologia da Síndrome de Lemmel
A fisiopatologia da síndrome de Lemmel está relacionada principalmente aos efeitos mecânicos e funcionais provocados por um divertículo duodenal periampular, localizado próximo à ampola de Vater, sobre o sistema biliar e pancreático. Esse divertículo pode interferir na drenagem normal da bile e das secreções pancreáticas, resultando em obstrução biliar mesmo na ausência de cálculos ou neoplasias.
Um dos principais mecanismos fisiopatológicos é a compressão extrínseca do ducto biliar comum pelo divertículo duodenal, especialmente quando ele se encontra distendido por conteúdo alimentar, gás ou enterólitos. Essa compressão pode dificultar o fluxo normal da bile em direção ao duodeno, levando à estase biliar e consequente dilatação das vias biliares proximais.
Outro mecanismo importante envolve alterações funcionais da ampola de Vater e do esfíncter de Oddi. A presença do divertículo pode modificar a anatomia local ou causar disfunção esfincteriana, prejudicando a drenagem biliar e pancreática. Essa alteração favorece o aumento da pressão intraductal e contribui para o desenvolvimento de obstrução biliar.
Processos inflamatórios locais, como diverticulite ou irritação da mucosa ao redor do divertículo, também podem desempenhar papel na fisiopatologia. A inflamação pode provocar edema e fibrose nas estruturas adjacentes, intensificando a compressão sobre o ducto biliar comum ou sobre o ducto pancreático.
Como consequência desses mecanismos, ocorre dificuldade no escoamento da bile, podendo resultar em manifestações como icterícia obstrutiva, colangite ou pancreatite. Assim, a síndrome de Lemmel decorre da interação entre fatores mecânicos, funcionais e inflamatórios associados ao divertículo duodenal periampular, culminando na obstrução das vias biliares.
Manifestações clínicas da Síndrome de Lemmel
As manifestações clínicas da síndrome de Lemmel estão relacionadas principalmente à obstrução do fluxo biliar provocada por um divertículo duodenal periampular. A apresentação clínica pode variar desde casos assintomáticos até quadros de complicações biliares ou pancreáticas.
Pacientes assintomáticos
Em muitos casos, os divertículos duodenais são achados incidentais em exames de imagem ou durante procedimentos endoscópicos. Nesses pacientes, não há manifestações clínicas evidentes.
Sintomas relacionados à obstrução biliar
Quando o divertículo provoca compressão do ducto biliar comum, podem surgir manifestações típicas de colestase, como:
- Icterícia obstrutiva;
- Colúria;
- Acolia fecal;
- Prurido.
Esses sinais resultam da dificuldade de drenagem da bile para o duodeno.
Dor abdominal
A dor abdominal é um sintoma frequente e geralmente ocorre no epigástrio ou no quadrante superior direito do abdome. A intensidade pode variar e, em alguns casos, a dor pode estar associada à alimentação.
Sintomas gastrointestinais associados
Alguns pacientes também podem apresentar sintomas inespecíficos, como:
- Náuseas;
- Vômitos;
- Distensão abdominal;
- Desconforto pós-prandial.
Esses sintomas podem estar relacionados à alteração da motilidade duodenal ou à inflamação local.
Complicações
A estase biliar causada pela obstrução pode levar a complicações, como:
- Colangite, caracterizada por febre, dor abdominal e icterícia (tríade de Charcot)
- Pancreatite aguda, devido à proximidade do divertículo com o ducto pancreático
Diagnóstico da Síndrome de Lemmel
O diagnóstico baseia-se na combinação de achados clínicos, laboratoriais e, principalmente, de exames de imagem, sendo essencial demonstrar a presença de um divertículo duodenal periampular associado à dilatação das vias biliares na ausência de cálculos ou tumores.
Suspeita clínica
A suspeita diagnóstica deve surgir em pacientes que apresentam icterícia obstrutiva ou sintomas biliares, especialmente quando exames iniciais não identificam colelitíase ou neoplasias como causa da obstrução. A condição ocorre com maior frequência em indivíduos idosos, nos quais divertículos duodenais são mais comuns.
Exames laboratoriais
Os exames laboratoriais geralmente demonstram alterações compatíveis com colestase, incluindo:
- Elevação da bilirrubina, principalmente da fração direta;
- Aumento da fosfatase alcalina;
- Elevação da gama-glutamil transferase (GGT);
- Em alguns casos, aumento de transaminases.
Quando há complicações, como colangite ou pancreatite, também podem ocorrer leucocitose e elevação das enzimas pancreáticas.
Métodos de imagem
Os exames de imagem desempenham papel fundamental no diagnóstico.
Ultrassonografia abdominal
Geralmente é o exame inicial, podendo demonstrar dilatação das vias biliares. Entretanto, sua capacidade de identificar o divertículo duodenal é limitada.
Tomografia computadorizada (TC)
A tomografia computadorizada é um método importante para identificar o divertículo duodenal periampular, além de avaliar a dilatação do ducto biliar comum e excluir outras causas de obstrução, como tumores pancreáticos ou cálculos.

Colangiopancreatografia por ressonância magnética (CPRM)
A CPRM permite uma avaliação detalhada da anatomia biliar e pancreática, podendo demonstrar a compressão extrínseca do ducto biliar comum pelo divertículo duodenal.
Colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (CPRE)
A CPRE é considerada um exame importante tanto para diagnóstico quanto para tratamento. Ela possibilita a visualização da ampola de Vater, a confirmação da presença do divertículo periampular e a avaliação direta da obstrução biliar.

Diagnóstico diferencial
Durante a investigação, é fundamental excluir outras causas de icterícia obstrutiva, como:
- Colelitíase ou coledocolitíase;
- Neoplasias do pâncreas ou da via biliar;
- Estenoses biliares;
- Pancreatite.
Tratamento da Síndrome de Lemmel
O tratamento depende principalmente da gravidade dos sintomas e da presença de complicações, tendo como objetivo principal aliviar a obstrução biliar causada pelo divertículo duodenal periampular.
Manejo conservador
Em pacientes assintomáticos ou com sintomas leves, pode ser adotado um manejo conservador, com observação clínica e tratamento de suporte. Esse acompanhamento é indicado principalmente quando o divertículo é um achado incidental e não há sinais de obstrução biliar significativa.
Tratamento endoscópico
O tratamento endoscópico é frequentemente considerado a primeira abordagem em pacientes sintomáticos. A colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (CPRE) pode ser utilizada para aliviar a obstrução biliar por meio de intervenções como:
- Esfincterotomia endoscópica;
- Colocação de stent biliar;
- Limpeza do ducto biliar, quando há detritos ou conteúdo impactado.
Essas medidas ajudam a restaurar o fluxo biliar e reduzir os sintomas.
Tratamento cirúrgico
A intervenção cirúrgica pode ser necessária quando o tratamento endoscópico não é eficaz ou quando ocorrem complicações recorrentes. As opções cirúrgicas incluem:
- Diverticulectomia, que consiste na remoção do divertículo duodenal
- Procedimentos para descompressão biliar, quando indicado
No entanto, a cirurgia é geralmente reservada para casos selecionados, devido à complexidade anatômica da região periampular e ao risco de complicações.
Tratamento das complicações
Quando há complicações associadas, estas devem ser tratadas de forma específica:
- Colangite: antibioticoterapia e drenagem biliar.
- Pancreatite: manejo clínico de suporte, incluindo hidratação e controle da dor.
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Referências
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