Resumo sobre Urticária Colinérgica Parte 1: definição, manifestações clínicas e mais!
Fonte: FUKUNAGA, Atsushi et al. Cholinergic Urticaria: Subtype Classification and Clinical Approach. American Journal of Clinical Dermatology, v. 24, p. 41–54, 2023.

Resumo sobre Urticária Colinérgica Parte 1: definição, manifestações clínicas e mais!

E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Urticária Colinérgica, uma forma específica de urticária induzida por estímulos que elevam a temperatura corporal, como exercício físico, estresse emocional, banhos quentes ou ambientes aquecidos. 

O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.

Vamos nessa!

Definição de Urticária Colinérgica

A urticária colinérgica é um subtipo de urticária crônica induzida caracterizado por uma resposta de hipersensibilidade desencadeada pelo aumento da temperatura corporal e pela ativação do sistema sudoríparo. 

Trata-se de uma condição em que o organismo reage de forma anormal aos estímulos que provocam sudorese, envolvendo mecanismos mediados por acetilcolina e pela interação entre glândulas sudoríparas, fibras nervosas e mastócitos na pele.

Embora seja agrupada dentro das urticárias físicas, ela se destaca por apresentar um funcionamento fisiopatológico mais complexo, relacionado a múltiplos fatores, como sensibilidade a componentes do próprio suor, alterações na dinâmica da sudorese, participação de mediadores colinérgicos e possíveis distúrbios na barreira cutânea. 

Por isso, a urticária colinérgica é compreendida atualmente como um espectro de subtipos que compartilham o mesmo estímulo desencadeante, mas que têm mecanismos distintos na sua origem.

Essa condição é definida, portanto, como uma desregulação da resposta cutânea frente ao aquecimento corporal, na qual o processo fisiológico de produção de suor torna-se um gatilho para ativação imune, liberação de mediadores e formação das lesões características. 

Fisiopatologia da Urticária Colinérgica

A fisiopatologia da urticária colinérgica é multifatorial e envolve interação entre sudorese, sistema nervoso colinérgico, barreira cutânea e ativação imunológica. Não existe um único mecanismo capaz de explicar todos os casos; por isso, a condição é entendida como um conjunto de processos distintos que variam conforme o subtipo.

Papel da Acetilcolina (ACh)

A acetilcolina é o neurotransmissor liberado pelas fibras nervosas simpáticas responsáveis pela sudorese. Quando a temperatura corporal aumenta, a ACh é liberada para estimular as glândulas écrinas.

Em alguns pacientes, esse processo gera reações anormais:

  • ACh estimula mastócitos próximos aos ductos sudoríparos.
  • Esses mastócitos podem expressar receptores colinérgicos (como o receptor M3).
  • Quando ativados, liberam mediadores inflamatórios, como histamina.

Esse mecanismo explica por que a urticária aparece rapidamente após aumento térmico.

Hipersensibilidade ao próprio suor

Em parte dos pacientes, o suor contém proteínas que atuam como alérgenos, desencadeando uma reação de hipersensibilidade imediata.

Esse processo envolve:

  • Penetração do suor para a derme (por microvazamentos);
  • Reconhecimento dessas proteínas por IgE específica;
  • Degranulação de mastócitos, liberando histamina e outros mediadores.

Uma das proteínas com maior papel reconhecido é produzida por leveduras da microbiota da pele, que se misturam ao suor.

Em determinados subtipos, existe a presença de fatores no próprio soro do indivíduo capazes de ativar mastócitos independentemente do suor.

Essa ativação:

  • Amplifica a reação cutânea ao aumento térmico;
  • Justifica padrões específicos, como lesões alinhadas aos folículos pilosos.

Alterações na sudorese (Hipohidrose e Anidrose)

Em alguns pacientes, ocorre uma redução importante na capacidade de suar.

Nesses casos, a fisiopatologia é diferente:

  • redução da expressão dos receptores colinérgicos M3 nas glândulas sudoríparas;
  • A ACh liberada não consegue estimular adequadamente o suor;
  • A ACh acumula-se na pele, passando a atuar sobre mastócitos vizinhos;
  • Isso provoca desgranulação e surgimento das lesões.

Além disso, podem ocorrer:

  • inflamação ao redor das glândulas sudoríparas;
  • falha na degradação de ACh;
  • interferências na transmissão colinérgica.

Oclusão dos ductos sudoríparos

Outro mecanismo possível é a obstrução dos ductos sudoríparos.

Essa obstrução:

  • impede que o suor alcance a superfície;
  • aumenta a pressão dentro do ducto;
  • facilita o extravasamento de suor para a derme;
  • potencializa a sensibilização e a ativação de mastócitos;

Esse mecanismo está muito associado a formas com hipoidrose.

Participação Imunológica e Inflamatória

A ativação repetida dos mastócitos gera:

  • liberação de histamina;
  • liberação de leucotrienos;
  • participação de basófilos;
  • infiltração de linfócitos em subtipos mais graves.

Esses mediadores contribuem para a formação das pápulas, vermelhidão e sensação dolorosa.

Subtipos de Urticária Colinérgica

A urticária colinérgica não é uma condição única, mas um conjunto de apresentações distintas que compartilham o mesmo gatilho fisiológico: o aumento da temperatura corporal e a sudorese. Cada subtipo possui mecanismos e características próprias.

Subtipo por alergia ao suor (Conventional Sweat Allergy-Type)

Esse subtipo ocorre quando o indivíduo desenvolve uma resposta de hipersensibilidade imediata aos componentes do próprio suor. Proteínas presentes na secreção sudorípara atuam como alérgenos e desencadeiam ativação de mastócitos e liberação de mediadores, como histamina. 

É um dos subtipos mais comuns e está frequentemente associado a sensibilização a proteínas de microrganismos presentes na pele. Costuma apresentar reação cutânea quando o suor entra em contato com a derme, o que pode acontecer quando há microvazamentos pelos ductos sudoríparos.

Subtipo folicular (Follicular-Type)

Nesse subtipo, as lesões seguem o padrão dos folículos pilosos, sugerindo participação de mastócitos localizados ao redor dos folículos. Diferentemente do tipo por alergia ao suor, aqui não há sensibilidade ao suor, mas sim um envolvimento de fatores séricos autólogos capazes de ativar mastócitos. O estímulo colinérgico e o aumento térmico parecem atuar diretamente ou de forma indireta sobre essas células, produzindo pápulas alinhadas ao padrão folicular.

Subtipo com angioedema palpebral (CholU-PA)

Esse subtipo se caracteriza pela associação entre a urticária colinérgica e episódios de angioedema, especialmente nas pálpebras. Há forte ligação com alergia ao próprio suor, e a região palpebral costuma ser particularmente vulnerável devido à maior permeabilidade da barreira cutânea e à tendência à formação de eczema. O suor tende a infiltrar-se com mais facilidade nesses locais, facilitando a sensibilização e desencadeando reações mais intensas, que podem incluir anafilaxia em uma parcela dos pacientes.

Subtipo com anidrose ou hipoidrose adquirida (CholU-Anhd)

Esse subtipo ocorre quando há redução importante da capacidade de suar, que pode variar de diminuição parcial até ausência quase completa de sudorese. Nesses casos, alterações nos receptores colinérgicos das glândulas écrinas reduzem a resposta sudorípara. 

A acetilcolina liberada acaba acumulando-se ao redor dos mastócitos, levando à ativação dessas células mesmo sem a produção adequada de suor. Alterações como poro-oclusão, infiltração inflamatória ao redor das glândulas sudoríparas e falha na transmissão colinérgica também podem estar presentes.

Esse subtipo costuma ser mais grave, frequentemente acompanhado de sensação dolorosa e piora em ambientes frios, onde a diferença de temperatura dificulta ainda mais a regulação térmica.

Fig. 1 — Diversidade do quadro clínico da urticária colinérgica (CholU). a) Aparência típica da CholU: pápulas puntiformes, altamente pruriginosas e avermelhadas que surgem após a sudorese. b) Urticária colinérgica com angioedema palpebral (CholU-PA): angioedema associado à urticária colinérgica. c) CholU do tipo folicular: lesões da CholU alinhadas aos folículos pilosos. d) Erupção puntiforme semelhante a “pele arrepiada”, com halo eritematoso ao redor. Fonte: FUKUNAGA, Atsushi et al. Cholinergic Urticaria: Subtype Classification and Clinical Approach. American Journal of Clinical Dermatology, v. 24, p. 41–54, 2023.

Esse texto continuará em sua Parte 2, para ficar mais fácil de entender esse assunto longo e importante que é a urticária colinérgica.

Veja também!

Referências

John P Dice, MDErika Gonzalez-Reyes, MD. Physical (inducible) urticaria. UpToDate, 2025. Disponível em: UpToDate

FUKUNAGA, Atsushi et al. Cholinergic Urticaria: Subtype Classification and Clinical Approach. American Journal of Clinical Dermatology, v. 24, p. 41–54, 2023. DOI: 10.1007/s40257-022-00728-6.

Você pode gostar também