O baixo desempenho de cursos de Medicina no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) já começa a produzir efeitos concretos para as instituições de ensino superior. Levantamento inédito realizado pela equipe de jornalismo do Estratégia MED mostra que faculdades que receberam notas 1 e 2 – as mais baixas – podem deixar de arrecadar ao menos R$ 314,6 milhões em 2026, em decorrência da suspensão ou da redução de vagas autorizadas pelo Ministério da Educação.
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Sanções após desempenho no Enamed
Cursos de Medicina que obtiveram desempenho insuficiente no Enamed 2025 foram submetidos a sanções regulatórias que afetam diretamente a oferta de vagas. Entre as medidas aplicadas estão a instauração de processos de supervisão em cursos de graduação em Medicina e, em casos mais graves, a adoção de medidas cautelares.
Entre as penalidades mais severas, estão:
- suspensão imediata de ingresso de novos estudantes (bloqueio total de vagas);
- suspensão do aumento de vagas;
- redução do número de vagas autorizadas anuais;
- suspensão de contratos do Fies;
- suspensão de benefícios regulatórios;
- suspensão da participação em outros programas federais de acesso ao ensino.
No que diz respeito à redução do número de vagas autorizadas, os percentuais variam entre 25% e 50%, a depender do desempenho da instituição. As penalidades permanecem válidas até a próxima edição do exame (Enamed 2026), quando as instituições poderão reverter o cenário caso apresentem melhora no desempenho.
Vale ressaltar que as sanções referem-se a cursos ou unidades específicas e não necessariamente à totalidade das ofertas da instituição.
Confira quais cursos entram na supervisão do MEC e quais foram suas penalidades em: MEC instaura supervisão em IES de Medicina com base no Enamed 2025
Suspensão e corte de vagas
Para o presente levantamento, foram consideradas as sanções que envolvem o bloqueio total ou parcial de vagas – penalidade que atingiu 50 das 93 instituições classificadas com desempenho insuficiente no Enamed, conforme portarias divulgadas pelo Ministério da Educação (MEC) em março de 2026.
Já nas 43 instituições que também obtiveram avaliação insatisfatória, mas não sofreram impacto direto sobre as vagas ofertadas, os atos normativos limitam-se à instauração de procedimento preparatório e à notificação para apresentação de manifestação inicial no prazo de até 30 dias, sem a imposição, neste momento, de medidas cautelares como suspensão de vagas ou de contratos do Fies.
Na prática, as sanções relacionadas às vagas assumem dois principais formatos. Nos casos mais graves, há suspensão total do ingresso de novos alunos, o que impede temporariamente a formação de novas turmas. Em outros casos, ocorre a redução parcial das vagas autorizadas, realizada nos percentuais de 25% ou 50%.
Ao todo, o levantamento identificou que os cursos penalizados contavam com 6.735 vagas autorizadas para 2026. Com as sanções, haverá a perda de mais de 2,5 mil vagas anuais em cursos de Medicina afetados pelas medidas.
Ou seja, as sanções não atingem apenas as instituições; elas reduzem, de forma imediata, a entrada de novos estudantes de Medicina no país. A medida também pode impactar diretamente o número de novos médicos formados nos próximos anos.
De acordo com dados da Demografia Médica 2025, em 2024, existiam 48.491 vagas anuais de Medicina autorizadas. Com a suspensão de 2.531 vagas em decorrência dos resultados do Enamed, esse total é reduzido em cerca de 5,22%.
Saiba mais em: Demografia Médica 2025: como está o cenário da graduação em Medicina no Brasil
Prejuízo milionário: quanto as instituições deixam de faturar em 2026 com vagas suspensas
Entre as instituições impactadas, há predominância quase absoluta de faculdades privadas: 49 das 50 afetadas por sanções relacionadas às vagas. Apenas uma instituição pública aparece na lista: a Universidade Federal do Pará, que, por não cobrar mensalidade, não apresenta prejuízo financeiro direto no levantamento.
Os valores médios iniciais das mensalidades nos cursos analisados variam significativamente, partindo de cerca de R$ 6.100 e podendo ultrapassar R$ 14 mil mensais. Como grande parte das instituições privadas depende das mensalidades como principal fonte de receita, a redução ou suspensão de novas matrículas tem efeito imediato sobre o faturamento.
Com base no número de vagas suspensas ou reduzidas e nos valores das mensalidades, o levantamento estima um impacto financeiro de ao menos R$ 314.623.858,68 para as instituições penalizadas apenas em 2026.
O cálculo considera a perda anual de receita com novos alunos que deixaram de ingressar após as sanções, tomando como base o valor médio inicial das mensalidades ao longo de 12 meses.
A maior parte das instituições afetadas concentra-se em prejuízos abaixo de R$ 10 milhões, enquanto os impactos mais elevados atingem um número reduzido de cursos.
Observação: A Faculdade Estácio de Canindé tinha 66 vagas autorizadas e perdeu 16 vagas com a redução de 25%. No entanto, não foi incluída neste gráfico nem no cálculo do prejuízo estimado por ausência de dados públicos confiáveis sobre a mensalidade inicial.
Metodologia
O levantamento considerou dados de vagas autorizadas disponíveis no Cadastro e-MEC, do Ministério da Educação, além de informações públicas sobre mensalidades obtidas nos sites das próprias instituições e em levantamentos setoriais, como os realizados pela Veja e pelo site Escolas Médicas do Brasil.
O cálculo do prejuízo considera a ocupação integral das vagas autorizadas. Embora cursos de Medicina apresentem, em geral, alta demanda, o número efetivo de matrículas pode variar entre as instituições. Assim, os valores estimados representam o potencial máximo de perda de arrecadação.
Sendo assim, o cálculo do prejuízo estimado levou em conta o número de vagas suspensas ou reduzidas, multiplicado pelo valor médio inicial da mensalidade e pelo período de 12 meses.
Como nem todas as instituições divulgam os valores de forma pública, os números representam estimativas com base nas informações disponíveis.
Maiores prejuízos
Algumas instituições concentram perdas mais expressivas, seja pelo alto número de vagas afetadas, seja pelo valor elevado das mensalidades.
Entre os destaques está a Universidade Santo Amaro (Interlagos), que tinha 504 vagas autorizadas pelo MEC, mas que, com a sanção, perde 25% desse total – o equivalente a 126 vagas. Com a mensalidade inicial em torno de R$ 12.906, segundo o site da instituição, a perda de arrecadação anual ultrapassa R$ 19,5 milhões.
Outro caso relevante é o do Centro Universitário Uninorte, com prejuízo estimado em R$ 17,8 milhões. O curso de Medicina da instituição tem mensalidade média inicial de R$ 12.400, de acordo com levantamento da Veja. O MEC autoriza anualmente 120 vagas, mas a instituição recebeu nota 1 no Enamed e foi penalizada com a suspensão imediata do ingresso de novos estudantes, além da suspensão de aumento de vagas.
O curso de Medicina da Universidade Estácio de Sá, no campus de Angra dos Reis, também foi um dos mais mal avaliados no Enamed 2025, com perda total das 89 vagas autorizadas pelo MEC. Com isso, a instituição deixa de arrecadar cerca de R$ 14,5 milhões com as mensalidades em 2026.
Já o prejuízo da Faculdade São Leopoldo Mandic (Araras) é estimado em R$ 12,6 milhões. O alto valor da mensalidade – de R$ 13.800, segundo levantamento da Veja –, aliado à perda de 76 das 153 vagas autorizadas, contribui para que a instituição figure entre as mais impactadas em termos de arrecadação.
Confira abaixo as 20 instituições com os maiores prejuízos anuais em decorrência do bloqueio de vagas:
| INSTITUIÇÃO | MENSALIDADE INICIAL APROX. | VAGAS BLOQUEADAS | PREJUÍZO ANUAL |
|---|---|---|---|
| UNIVERSIDADE SANTO AMARO – São Paulo (Interlagos) | R$ 12.906,00 | 126 | R$ 19.513.872,00 |
| CENTRO UNIVERSITÁRIO UNINORTE | R$ 12.400,00 | 120 | R$ 17.856.000,00 |
| UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ | R$ 13.600,00 | 89 | R$ 14.524.800,00 |
| FACULDADE SÃO LEOPOLDO MANDIC DE ARARAS | R$ 13.800,00 | 76 | R$ 12.668.400,00 |
| CENTRO UNIVERSITÁRIO ALFREDO NASSER | R$ 10.000,00 | 100 | R$ 12.000.000,00 |
| UNIVERSIDADE BRASIL | R$ 8.900,00 | 102 | R$ 10.947.000,00 |
| FACULDADE ESTÁCIO DE JARAGUÁ DO SUL | R$ 11.000,00 | 75 | R$ 9.900.000,00 |
| UNIÃO DAS FACULDADES DOS GRANDES LAGOS | R$ 7.900,00 | 100 | R$ 9.480.000,00 |
| CENTRO UNIVERSITÁRIO DAS AMÉRICAS | R$ 11.500,00 | 65 | R$ 8.970.000,00 |
| FACULDADE DE MEDICINA NOVA ESPERANÇA | R$ 12.700,00 | 55 | R$ 8.382.000,00 |
| FACULDADE DE MEDICINA DE OLINDA | R$ 9.300,00 | 75 | R$ 8.370.000,00 |
| CENTRO UNIVERSITÁRIO MAURÍCIO DE NASSAU | R$ 10.276,04 | 67 | R$ 8.261.936,16 |
| FACULDADE ZARNS – ITUMBIARA | R$ 11.000,00 | 60 | R$ 7.920.000,00 |
| AFYA UNIVERSIDADE UNIGRANRIO – Duque de Caxias | R$ 13.122,99 | 49 | R$ 7.795.056,06 |
| UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI – São Paulo | R$ 12.979,00 | 48 | R$ 7.592.715,00 |
| FACULDADE DA SAÚDE E ECOLOGIA HUMANA | R$ 12.400,00 | 50 | R$ 7.440.000,00 |
| FACULDADE METROPOLITANA | R$ 6.100,00 | 100 | R$ 7.320.000,00 |
| CENTRO UNIVERSITÁRIO CEUNI – FAMETRO | R$ 8.000,00 | 75 | R$ 7.200.000,00 |
| AFYA FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DE JABOATÃO DOS GUARARAPES | R$ 11.267,01 | 50 | R$ 6.760.206,00 |
| CENTRO UNIVERSITÁRIO ESTÁCIO DO PANTANAL | R$ 11.000,00 | 50 | R$ 6.600.000,00 |
Apesar do impacto financeiro expressivo, as penalidades não são definitivas. As instituições poderão recuperar suas vagas caso apresentem melhora no desempenho nas próximas edições do Enamed. Nesse sentido, o exame passa a funcionar não apenas como instrumento de avaliação, mas também como mecanismo de indução à qualidade na formação médica.
De acordo com as Portarias SERES/MEC nº 72, 73, 74, 75 e 76, de 16 de março de 2026, as instituições notificadas ainda podem apresentar recurso contra as medidas cautelares impostas no prazo de até 30 dias.
Apuração com colaboração de Arion Wolff
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