A divulgação do conceito das instituições no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) na última segunda-feira (19) provocou uma série de manifestações por parte de estudantes de Medicina em todo o país. Enquanto os resultados evidenciam quais cursos alcançaram melhor desempenho, alunos de instituições mal avaliadas afirmam estar sendo diretamente prejudicados por falhas estruturais que, segundo eles, vêm sendo denunciadas há anos sem resposta efetiva das gestões acadêmicas.
Nas redes sociais e em notas públicas, estudantes relatam frustração, insegurança e sensação de injustiça ao verem seus cursos receberem conceitos baixos, apesar do alto investimento financeiro e do esforço individual ao longo da graduação. A maioria das instituições com desempenho insatisfatório é privada, com mensalidades elevadas, o que, na avaliação dos alunos, torna ainda mais grave a discrepância entre o valor cobrado e a qualidade da formação oferecida.
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O ponto de vista dos alunos
Para os estudantes, o resultado do Enamed não pode ser analisado apenas como um indicador institucional, mas como um reflexo direto das condições de ensino às quais foram submetidos ao longo do curso. Eles alegam prejuízos acadêmicos, financeiros e profissionais, uma vez que o desempenho da instituição impacta a reputação do diploma, a inserção no mercado de trabalho e a confiança na própria formação.
Entre as principais queixas estão a superlotação dos campos de estágio, a ampliação do número de vagas sem a correspondente expansão da infraestrutura, a insuficiência do corpo docente e a falta de treinamento adequado para as exigências da prática médica. Estudantes afirmam que tentativas de diálogo com reitorias e coordenações, por meio de reuniões e ofícios formais, não foram atendidas ou resultaram em respostas consideradas genéricas e ineficazes.
No geral, as manifestações destacam que os alunos não se opõem aos processos de avaliação. Pelo contrário, defendem a importância de exames como o Enamed, mas reivindicam transparência, diálogo e responsabilidade institucional. Para eles, o exame expôs problemas estruturais que precisam ser enfrentados pelas instituições, sob pena de comprometer não apenas a trajetória acadêmica dos estudantes, mas também a qualidade da assistência médica oferecida à população.
Confira mais sobre os resultados do Conceito Enade 2025 em Medicina em: Mais de 30% dos cursos de Medicina recebem nota insatisfatória no Enamed; confira o ranking
Mensalidades altas x desempenho baixo
O sentimento de injustiça é potencializado pelo alto custo da graduação. Dos 24 cursos que receberam conceito 1 no Enamed, 22 são de instituições privadas, com mensalidades que chegam a R$ 13.600. Um levantamento divulgado pela revista VEJA mostra que, mesmo com valores elevados, os alunos relatam deficiências estruturais e pedagógicas recorrentes.
Confira a seguir a relação de mensalidades iniciais aproximadas, com base em dados públicos disponíveis para consulta. Os valores podem variar conforme semestre, política de descontos e reajustes anuais.
| UF | Instituição | Sigla | Município do curso | Mensalidade inicial (aprox.) |
|---|---|---|---|---|
| AC | Centro Universitário Uninorte | – | Rio Branco | R$ 12.400 |
| AM | Universidade Nilton Lins | UNINILTONLINS | Manaus | R$ 7.100 |
| AM | Centro Universitário CEUNI – Fametro | CEUNI-FAMETRO | Manaus | R$ 8.000 |
| GO | Centro Universitário de Goiatuba | UNICERRADO | Goiatuba | R$ 7.000 |
| GO | Centro Universitário Alfredo Nasser | UNIFAN | Aparecida de Goiânia | R$ 10.000 |
| GO | Universidade de Rio Verde | FESURV | Goianésia | R$ 6.000 |
| GO | Universidade de Rio Verde | FESURV | Formosa | R$ 6.000 |
| GO | Faculdade Zarns | – | Itumbiara | R$ 11.000 |
| MG | Centro Universitário Presidente Antônio Carlos | UNIPAC | Juiz de Fora | R$ 10.400 |
| MG | Faculdade da Saúde e Ecologia Humana | FASEH | Vespasiano | R$ 12.400 |
| MT | Centro Universitário Estácio do Pantanal | Unipantanal | Cáceres | R$ 11.000 |
| PA | Universidade Federal do Pará | UFPA | Altamira | Gratuita |
| RJ | Universidade Estácio de Sá | UNESA | Angra dos Reis | R$ 13.600 |
| RO | Faculdade Metropolitana | UNNESA | Porto Velho | R$ 6.100 |
| SC | Universidade do Contestado | UNC | Mafra | R$ 9.900 |
| SC | Faculdade Estácio de Jaraguá do Sul | Estácio Jaraguá | Jaraguá do Sul | R$ 11.000 |
| SP | Universidade Brasil | UB | Fernandópolis | R$ 8.900 |
| SP | Universidade de Mogi das Cruzes | UMC | Mogi das Cruzes | R$ 8.200 |
| SP | União das Faculdades dos Grandes Lagos | UNILAGO | São José do Rio Preto | R$ 7.900 |
| SP | Centro Universitário de Adamantina | FAI | Adamantina | R$ 9.100 |
| SP | Centro Universitário das Américas | CAM | São Paulo | R$ 11.500 |
| SP | Faculdades de Dracena | – | Dracena | R$ 7.300 |
| SP | Faculdade Municipal Prof. Franco Montoro | FMPFM | Mogi Guaçu | Gratuita |
| SP | Faculdade São Leopoldo Mandic de Araras | SLMANDIC-Araras | Araras | R$ 13.800 |
Reivindicações recorrentes
Mesmo com as altas mensalidades, os estudantes apontam problemas estruturais persistentes, entre eles:
- Falta de campos de estágio adequados;
- Superlotação de cenários de prática;
- Aumento de vagas sem ampliação proporcional da estrutura;
- Corpo docente insuficiente para a demanda; e
- Falta de diálogo com reitoria e coordenação dos cursos.
Segundo os alunos, essas questões vêm sendo denunciadas há anos, sem que medidas efetivas tenham sido adotadas.
Relatos e notas de repúdio
Em nota, o Centro Acadêmico de Medicina da Universidade Santo Amaro (Unisa) afirmou que os apontamentos feitos ao longo dos anos foram “continuamente ignorados”, o que teria contribuído para o cenário atual. Segundo os estudantes, reivindicações relacionadas à qualidade do ensino, aos aumentos desproporcionais de mensalidade e à expansão desenfreada de vagas vêm sendo feitas reiteradamente, sem retorno institucional. O grupo exige um posicionamento oficial da instituição e a apresentação de medidas concretas para a melhoria da formação acadêmica.
Situação semelhante foi relatada por alunos do curso de Medicina da Universidade Cidade de São Paulo (UNICID), que obteve conceito 2 no Enamed 2025. Em carta à reitoria e à coordenação, o Centro Acadêmico questiona a discrepância entre o resultado do exame e a nota máxima obtida pela instituição em avaliações do MEC no mesmo ano (nota 5). Os estudantes demonstram preocupação com possíveis penalidades à universidade e com os impactos diretos em sua formação e futuro profissional, além de cobrarem esclarecimentos urgentes para restabelecer a confiança no curso.
Já na Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), estudantes atribuíram o conceito 3 a um erro administrativo no processo de inscrição para o Enamed. De acordo com o Centro Acadêmico Barão de Passos, representante estudantil, alunos não concluintes foram indevidamente cadastrados para realizar a prova, o que teria comprometido o resultado final. De acordo com o Centro, levantamentos internos indicariam que, caso apenas os concluintes tivessem participado do exame, o desempenho do curso seria significativamente superior. Os estudantes ressaltam que não tiveram responsabilidade sobre o ocorrido e defendem que o resultado divulgado não reflete o desempenho real da turma.
Impactos para os concluintes
Os principais impactados pelos baixos conceitos atribuídos no Enamed são os alunos concluintes, que estão prestes a ingressar no mercado de trabalho e temem sofrer consequências diretas do desempenho institucional. Estudantes relatam insegurança quanto à valorização do diploma, dificuldades em processos seletivos e receio de que a avaliação comprometa oportunidades futuras, como o ingresso em programas de residência médica.
Isso porque o conceito Enade da instituição formadora é utilizado como critério de pontuação em diversas análises curriculares em processos seletivos de residência, o que pode colocar os egressos de cursos mal avaliados em desvantagem, independentemente do desempenho individual ao longo da graduação.
Além desses impactos imediatos, o resultado do Enamed 2025 acendeu um debate com possíveis desdobramentos ainda mais profundos na carreira dos futuros médicos. Com base nos dados do exame, cerca de 13 mil estudantes que não atingiram a nota mínima exigida foram identificados em instituições com conceitos insatisfatórios, o que levantou questionamentos sobre a proficiência desses formandos para o exercício da Medicina.
Diante desse cenário, o Conselho Federal de Medicina (CFM) estuda uma proposta de resolução que pode impedir a emissão do registro profissional desses estudantes, mesmo após a conclusão do curso. Na prática, a medida poderia barrar o exercício da profissão por egressos considerados não proficientes na avaliação. Segundo a entidade, o objetivo seria proteger a população de riscos à saúde e estimular maior rigor na formação médica.
Saiba mais em: CFM pretende barrar registro de 13 mil estudantes de Medicina reprovados em exame nacional
A iniciativa, no entanto, enfrenta debate jurídico. A legislação vigente garante o registro profissional a quem conclui um curso de Medicina reconhecido pelo Ministério da Educação, e especialistas avaliam que uma eventual resolução do CFM pode ser questionada judicialmente. Ainda, o MEC ressaltou que o Enamed não possui caráter punitivo individual. Segundo a pasta, eventuais sanções decorrentes dos resultados da avaliação devem ser aplicadas às instituições de ensino, e não diretamente aos estudantes.
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