A divulgação dos gabaritos definitivos do Enamed e do Revalida, no último dia 12 de dezembro, reacendeu o debate sobre isonomia e coerência nos processos avaliativos conduzidos pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Três questões idênticas, aplicadas no mesmo dia e elaboradas pelo mesmo órgão, receberam tratamentos distintos nos dois exames: enquanto foram anuladas no Enamed, permaneceram válidas no Revalida, gerando questionamentos entre os candidatos.
Candidatos que prestaram a primeira etapa do Revalida 2025.2 relatam insegurança e suposta sensação de injustiça após a divulgação do gabarito definitivo, sobretudo diante do impacto direto que a manutenção dessas questões pode ter sobre a aprovação no exame.
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Entenda o ocorrido
Embora o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) e o Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos (Revalida) sejam provas distintas, aplicadas no mesmo dia, ambas apresentaram algumas questões em comum na edição 2025 – Enamed e 2025/2 – Revalida. Entre esses itens coincidentes, três questões foram identificadas com problemas durante o período de recursos e acabaram anuladas pelo Inep — decisão que, no entanto, foi aplicada apenas ao Enamed.
No Revalida, apesar de se tratarem das mesmas questões e de os problemas também terem sido apontados, os itens foram mantidos válidos, conforme o gabarito definitivo divulgado na última sexta-feira (12). Confira:
As provas foram aplicadas no mesmo dia, em 19 de outubro de 2025, e são de responsabilidade do mesmo órgão. As questões em comum abordavam os seguintes temas: distúrbio ácido-básico (questão 2), abaulamento progressivo (questão 10) e quimioprofilaxia (questão 40). Veja abaixo a reprodução dos itens:
Questão 2 | Caderno 1 – Enamed

Questão 2 | Caderno 1 – Revalida

Questão 10 | Caderno 1 – Enamed

Questão 10 | Caderno 1 – Revalida

Questão 40 | Caderno 1 – Enamed

Questão 40 | Caderno 1 – Revalida

Ou seja, mesmo apresentando problemas de formulação, os itens foram cancelados apenas no Enamed. No Revalida, apesar de os textos serem idênticos, as três questões continuaram sendo consideradas válidas, o que motivou críticas por parte dos candidatos, que alegam suposta violação ao princípio da isonomia.
Ao todo, 10 questões foram anuladas no Enamed e seis no Revalida. Parte dos itens anulados não era comum aos dois exames, uma vez que as provas também continham parte das questões distintas.
Justificativa do Inep
Em nota oficial divulgada após a publicação dos gabaritos definitivos, o Inep informou que algumas alterações, de fato, ocorreram apenas nos gabaritos do Enamed.
Segundo o instituto, a anulação da questão 10 no Enamed ocorreu em razão de uma diferença na redação do enunciado entre os cadernos de prova (01 e 02 do Enamed). De acordo com a nota, a expressão “palpação na região inguinal direita” teria sido erroneamente substituída por “palpação em fossa ilíaca direita” no caderno tipo 2, o que motivou o cancelamento do item para não prejudicar os candidados do Enamed.
Contudo, nos cadernos de prova do Revalida, o item foi escrito de maneira correta. Confira como aparece a redação do enunciado nos diferentes cadernos. Lembrando que a questão 10 do caderno 1 é igual a questão 60 do caderno 2, em ambos os exames:
Ainda conforme o Inep, as questões 2 e 40 do caderno 1 também foram anuladas no Enamed “por motivo de ajuste estatístico à forma de cálculo dos resultados do exame”. Na mesma nota, o órgão esclarece que esses itens, embora correspondentes às mesmas questões aplicadas no Revalida, foram mantidos válidos nesse exame.
O instituto argumenta que, apesar de os dois exames apresentarem questões em comum, os testes utilizam modelos distintos de correção. Enquanto o Enamed adota métodos estatísticos específicos para o cálculo dos resultados, o Revalida utiliza outro modelo, o que, segundo o Inep, justificaria a diferença de tratamento dos itens anulados.
O Estratégia MED também entrou em contato com o Inep em busca de esclarecimentos sobre os critérios adotados e sobre a possibilidade de extensão da anulação das questões ao Revalida. Até o fechamento desta matéria, não houve retorno.
Atualizações e atuação política
A repercussão do caso chegou ao Congresso Nacional. O senador Alan Rick (União-AC) afirmou, por meio das redes sociais, que tem recebido mensagens de candidatos do Revalida relatando a situação e que acionou formalmente o Inep para solicitar tratamento isonômico.
Segundo o parlamentar, foi encaminhado ofício ao presidente do instituto pedindo a extensão da anulação das questões ao Revalida 2025.2, além da revisão dos resultados. Também foi solicitada uma reunião com a equipe técnica do órgão para tratar do tema.
Atualização – questão sobre quimioprofilaxia da malária
Em resposta a um pedido de acesso à informação feito por uma candidata do Revalida, o Ministério da Saúde afirmou que não recomenda o uso rotineiro de quimioprofilaxia contra a malária no Brasil, inclusive para profissionais que atuam em áreas endêmicas, como a região amazônica. O esclarecimento foi prestado pela Coordenação-Geral de Eliminação da Malária, vinculada à Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente.
Segundo o órgão, o país conta com uma rede estruturada de diagnóstico e tratamento da malária, especialmente na Amazônia, com oferta gratuita de testes e medicamentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A diretriz é que, diante de suspeita clínica, o atendimento ocorra nos serviços de saúde locais, com confirmação diagnóstica e início oportuno do tratamento, quando indicado.
O Ministério destaca ainda que a quimioprofilaxia é indicada apenas em situações muito específicas, após avaliação criteriosa do risco de transmissão, sobretudo no contexto de viajantes internacionais. No cenário brasileiro, essa estratégia não é recomendada, inclusive porque há predomínio de infecções por Plasmodium vivax, espécie para a qual a eficácia da quimioprofilaxia é considerada baixa, conforme evidências científicas.
“No caso dos profissionais do Programa Mais Médicos, não há indicação de quimioprofilaxia, pois, diante da suspeita de malária, esses profissionais podem procurar os serviços de saúde locais para realização do diagnóstico, seja por meio do Teste de Diagnóstico Rápido (TDR) ou do exame de gota espessa, caso confirmada a infecção por Plasmodium, iniciar o tratamento adequado”
Coordenador-Geral de Eliminação da Malária, via Solicitação de Acesso à Informação
Como medidas preventivas, o órgão orienta o uso de repelentes, roupas que cubram a maior parte do corpo e mosquiteiros impregnados com inseticidas de longa duração, além da consideração das áreas específicas de transmissão em cada município. As diretrizes oficiais estão descritas no Guia de Tratamento da Malária no Brasil, publicado pelo Ministério da Saúde. Com base nessa resposta oficial, a interpretação é de que a orientação apresentada na questão 40 do caderno 1 não procede, o que reforçaria o pedido de anulação do item no Revalida.
Impacto prático no Revalida
A nota de corte da primeira etapa do Revalida INEP 2025.2 foi fixada em 61 pontos. Nesse contexto, a manutenção de três questões com problemas de formulação pode estar impedindo candidatos de atingirem a pontuação mínima necessária para aprovação.
Em avaliações como o Revalida, a anulação de questões gera pontuação para todos os participantes. Assim, a decisão de manter os itens válidos pode impactar diretamente o desempenho final, influenciando resultados de aprovação ou reprovação de um número significativo de candidatos.
Diante do cenário, candidatos já avaliam a adoção de medidas judiciais cabíveis.
Apesar da repercussão crescente, do questionamento público e da mobilização política, o Inep ainda não se manifestou diretamente sobre a possibilidade de revisão da decisão ou de aplicação de critérios isonômicos entre os dois exames. O silêncio do órgão reforça a insatisfação dos candidatos e amplia a pressão por esclarecimentos e eventual retificação.
Para acompanhar possíveis mudanças em primeira mão, continue acompanhando o Portal de Notícias do Estratégia MED. Aqui, você encontrará informações atualizadas sobre residências, carreira médica e muito mais.



