Um estudo conduzido pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), publicado no fim de janeiro na revista BMC Medical Education, analisou a trajetória de 110 mil médicos formados entre 2018 e 2022 e identificou diferenças no acesso à residência médica conforme a modalidade de ingresso na graduação. A pesquisa é resultado do pós-doutorado da pesquisadora Paola Mosquera, sob orientação do professor Mario Scheffer.
A pesquisa acompanhou esses profissionais até 2024, utilizando diferentes bases de dados educacionais e administrativas, com o objetivo de avaliar a influência de políticas de inclusão — como cotas raciais e sociais em instituições públicas e apoio financeiro estudantil em instituições privadas — na continuidade da formação médica.
Os resultados indicam que médicos formados por meio de cotas em universidades públicas apresentaram probabilidade 27% menor de ingressar em programas de residência médica, em comparação com aqueles que não utilizaram essa modalidade de acesso.
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Ações afirmativas ampliaram diversidade entre estudantes de Medicina
Segundo os dados, as políticas de inclusão tiveram impacto significativo na composição social e racial dos cursos de medicina, especialmente nas instituições públicas. De acordo com o estudo, entre os formados nessas instituições, 28,1% ingressaram por meio de cotas. Entre eles:
- 49,8% se autodeclararam pardos;
- 12,1% se autodeclararam pretos;
- 35,6% se autodeclararam brancos;
- 95,3% cursaram o ensino médio integralmente em escolas públicas.
Entre os não cotistas, os estudantes brancos representaram aproximadamente dois terços do total, indicando menor diversidade nesse grupo.
Apoio financeiro entre estudantes de faculdades privadas
Nas instituições privadas, responsáveis pela formação da maior parte dos médicos no país — cerca de 70% do total —, 44,5% dos estudantes receberam algum tipo de apoio financeiro durante a graduação, como bolsas do Programa Universidade para Todos (Prouni) ou financiamento estudantil pelo Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies).
Esse grupo também apresentou maior diversidade racial e social em comparação aos estudantes que não receberam esse tipo de suporte.
Mais da metade dos médicos ingressou na residência após a graduação
Considerando todos os egressos avaliados entre 2018 e 2022, independentemente da forma de ingresso na graduação, 55,7% conseguiram acessar programas de residência médica. Porém, quando analisados os dados por tipo de instituição e modalidade de acesso, foram observadas diferenças.
Entre os médicos formados em universidades públicas, 62,8% ingressaram na residência. No entanto, entre os cotistas dessas instituições, a taxa foi menor, de 52,8%.
Já nas instituições privadas, o cenário foi diferente: 55% dos médicos que receberam algum tipo de apoio financeiro durante a graduação ingressaram na residência. Entre aqueles que não tiveram esse suporte, o percentual foi de 50,5%.
O estudo destaca ainda que a base de dados utilizada permite identificar apenas se o médico ingressou ou não na residência, sem informações sobre quantos prestaram os processos seletivos e não obtiveram aprovação.
MFC recebeu mais médicos formados por cotas ou outras políticas de inclusão
A análise também identificou diferenças na escolha das especialidades médicas. Embora áreas como Clínica Médica, Cirurgia Geral, Pediatria e Ginecologia e Obstetrícia estejam entre as mais frequentes em todos os grupos, a Medicina de Família e Comunidade (MFC) apresentou maior participação entre médicos beneficiados por políticas de inclusão.
Entre os egressos de universidades públicas que ingressaram em programas de residência em Medicina de Família e Comunidade, 15,3% eram cotistas, enquanto 9,7% não utilizaram essa modalidade de acesso na graduação.
Já entre os formados em instituições privadas, 8,2% dos médicos que receberam apoio financeiro durante a graduação escolheram essa especialidade, em comparação com 6,9% entre aqueles que não tiveram suporte financeiro.
Esta reportagem foi elaborada com base em informações divulgadas pela Folha de S.Paulo.
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