Um documento oficial do Ministério da Saúde, emitido em 22 de janeiro de 2026, contradiz o gabarito do Revalida Inep 2025/2 em uma questão sobre malária. O item abordava qual seria o medicamento adequado para proteger uma médica que atuaria em uma região endêmica da Amazônia. No entanto, diretrizes do próprio Ministério afirmam que não há indicação de quimioprofilaxia nesse contexto.
A questão sobre quimioprofilaxia da malária corresponde ao item 40 do Caderno 1 do Revalida. Confira abaixo:

Quem realizou a prova precisou identificar o método preventivo medicamentoso mais adequado para a profissional, considerando sua atuação em área endêmica. As alternativas listavam diferentes fármacos, exigindo que o candidato selecionasse a quimioprofilaxia correta. Segundo o gabarito oficial, a resposta correta seria a doxiciclina (B).
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Ministério da Saúde afirma que não recomenda quimioprofilaxia no Brasil
Apesar de o gabarito indicar a doxiciclina como resposta correta, o Ministério da Saúde já se manifestou ao menos duas vezes afirmando que não recomenda o uso rotineiro de quimioprofilaxia contra a malária no Brasil, inclusive para profissionais que atuam em áreas endêmicas.
A primeira manifestação ocorreu em dezembro de 2025, em resposta a um pedido de acesso à informação feito por uma candidata do Revalida. O esclarecimento foi prestado pela Coordenação-Geral de Eliminação da Malária, vinculada à Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente.
Segundo o órgão, o país possui uma rede estruturada de diagnóstico e tratamento da malária, especialmente na região amazônica, com oferta gratuita de testes e medicamentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A orientação é que, diante de suspeita clínica, o profissional procure os serviços locais para confirmação diagnóstica e início oportuno do tratamento, quando indicado.
O Ministério destacou ainda que a quimioprofilaxia é reservada para situações muito específicas, sobretudo relacionadas a viajantes internacionais, e não é recomendada no contexto nacional. Entre os motivos apontados está o predomínio de infecções por Plasmodium vivax no Brasil, espécie para a qual a eficácia da quimioprofilaxia é considerada baixa.
“No caso dos profissionais do Programa Mais Médicos, não há indicação de quimioprofilaxia, pois, diante da suspeita de malária, esses profissionais podem procurar os serviços de saúde locais para realização do diagnóstico, seja por meio do Teste de Diagnóstico Rápido (TDR) ou do exame de gota espessa, caso confirmada a infecção por Plasmodium, iniciar o tratamento adequado”
Coordenador-Geral de Eliminação da Malária, via Solicitação de Acesso à Informação
Como medidas preventivas, o órgão orienta o uso de repelentes, roupas que cubram a maior parte do corpo e mosquiteiros impregnados com inseticidas, além da consideração do perfil epidemiológico de cada localidade. As recomendações constam no Guia de Tratamento da Malária no Brasil, publicado pelo Ministério da Saúde.
Novo documento reforça ausência de recomendação
Posteriormente, em 20 de janeiro de 2026, o Ministério voltou a se posicionar sobre o tema em resposta a uma solicitação feita por outra candidata do Revalida via plataforma Fala.Br. Confira abaixo as duas perguntas feitas pela candidata na sua solicitação e as respectivas justificativas da pasta:
“Há recomendação de quimioprofilaxia da malária para moradores ou profissionais de saúde atuantes em áreas endêmicas no Brasil, em especial na Região Amazônica?”
A resposta foi a seguinte:
“Não há recomendação de quimioprofilaxia para moradores ou profissionais de saúde residentes ou atuantes na região amazônica e demais regiões do território nacional. O Brasil, especialmente na região amazônica, conta com uma rede descentralizada de serviços de diagnóstico e tratamento da malária, que assegura, de forma gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a realização do exame diagnóstico oportuno e a dispensação do tratamento nos casos confirmados.”
Na segunda pergunta, o Ministério reafirmou o mesmo posicionamento:
“Em quais situações específicas a quimioprofilaxia da malária é indicada no contexto nacional, considerando o perfil epidemiológico brasileiro?”
As respostas foram enviadas em documento protocolado pela Coordenação-Geral da Eliminação da Malária, da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente.
Resposta da pasta:
“Não há indicação de quimioprofilaxia da malária para moradores ou profissionais de saúde no contexto nacional.
No Brasil, há predomínio de casos causados por Plasmodium vivax, espécie para a qual a eficácia da quimioprofilaxia é considerada baixa. Considerando a malária por Plasmodium falciparum, a profilaxia pode não assegurar a proteção ou cura do paciente, além de favorecer o surgimento de resistência aos antimaláricos utilizados. Dessa forma, considerando a ampla cobertura da rede de diagnóstico e tratamento da malária no país, não se recomenda a quimioprofilaxia para viajantes em território nacional.”
Com base nessas respostas, candidatos e professores defendem que a orientação apresentada na questão 40 não está alinhada às diretrizes oficiais brasileiras, o que reforça os pedidos de anulação do item no Revalida.
Questão anulada no Enamed, mas mantida no Revalida
A questão da malária também esteve presente no Enamed 2025, mas foi anulada apenas neste exame e mantida válida no Revalida.
Segundo nota do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a anulação ocorreu “por motivo de ajuste estatístico à forma de cálculo dos resultados do exame”. O Instituto também esclareceu que, embora o item tenha sido aplicado em ambos os exames, ele foi mantido válido no Revalida devido a diferenças metodológicas nos modelos de correção.
De acordo com o órgão, o Enamed utiliza métodos estatísticos específicos para o cálculo dos resultados, enquanto o Revalida adota outro modelo, o que justificaria a diferença no tratamento das questões anuladas.
Estratégia MED se reuniu com o Inep e apresentou questionamentos
O Inep realizou, em janeiro de 2026, uma reunião extraordinária com representantes do Estratégia MED após mobilização de candidatos que apontaram possíveis inconsistências na correção e na anulação de questões do exame.
O encontro ocorreu na sede do Inep, em Brasília (DF), e contou com a presença de coordenadores das áreas médica, estatística, avaliação e comunicação institucional. Para representar os candidatos, participaram as professoras Thamyres Areia e Bárbara D’Alegria, do Estratégia MED.
Durante a reunião, foram apresentados pareceres técnicos elaborados pelos professores do Estratégia MED. Os representantes do Inep ouviram os argumentos, registraram formalmente os pontos apresentados e informaram que as questões seriam submetidas à análise interna, conforme os protocolos do Instituto.
Saiba mais sobre: Após mobilização de candidatos, Inep se reúne com Estratégia MED para tratar de questões do Revalida
Também esteve presente na reunião o advogado Marcos Paulo Balestter, responsável por protocolar um ofício via Fala.Br solicitando esclarecimentos adicionais, após ausência de respostas. No dia 10 de fevereiro, o Inep solicitou mais prazo para resposta e, em 20 de fevereiro, encaminhou o seguinte posicionamento:
Prezado(a) Senhor(a).
Em atendimento ao pedido de acesso a informação registrado […], segue resposta elaborada pela unidade técnica responsável
“Considerando a complexidade do tema tratado e a necessidade de verificação e consolidação das informações junto às áreas envolvidas, informamos que a ata da reunião será disponibilizada até o dia 27 de fevereiro de 2026. […]”
Questão da malária foi a que gerou maior reação durante reunião
Entre todos os itens discutidos, a questão sobre quimioprofilaxia da malária foi a que gerou maior reação por parte dos representantes do Inep, segundo relato das professoras presentes.
Durante o encontro, foi apresentado o documento oficial do Ministério da Saúde afirmando que não há recomendação de quimioprofilaxia no Brasil. De acordo com as professoras, a informação não era de conhecimento prévio dos avaliadores, que solicitaram o envio do material completo para análise da comissão técnica médica.
Apesar disso, o Inep reforçou que não haveria posicionamento individualizado durante a reunião e que todas as questões passariam por avaliação interna.
Entenda o caso
O Enamed 2025 e o Revalida 2025/2 foram aplicados no mesmo dia, 19 de outubro de 2025, e incluíram algumas questões idênticas. Entre esses itens, três questões acabaram anuladas no Enamed, mas foram mantidas no Revalida, apesar de tratarem do mesmo conteúdo. Os temas foram:
- distúrbio ácido-básico (questão 2)
- abaulamento progressivo (questão 10)
- quimioprofilaxia da malária (questão 40)
A manutenção dessas questões no Revalida, especialmente a relacionada à malária, passou a ser alvo de questionamentos por parte dos candidatos, após a divulgação de documentos oficiais do Ministério da Saúde afirmando que não há recomendação de quimioprofilaxia no contexto apresentado no exame.
Saiba mais em: Inep anula questões no Enamed, mas mantém itens idênticos válidos no Revalida; entenda o caso
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