R+ Clínica Médica: Atualização no Manejo de Embolia Pulmonar – Guideline AHA/ACC 2026 – Parte 2
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R+ Clínica Médica: Atualização no Manejo de Embolia Pulmonar – Guideline AHA/ACC 2026 – Parte 2

E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Atualização no Manejo da Embolia Pulmonar segundo o Guideline AHA/ACC 2026. Na primeira parte, discutimos a definição e a estratificação de risco; agora, avançamos para os pontos centrais da prática clínica: diagnóstico e tratamento.

A embolia pulmonar segue como uma das principais emergências cardiovasculares, e o reconhecimento precoce aliado a uma abordagem baseada em evidências é fundamental para reduzir mortalidade e complicações.

O Estratégia MED está aqui para descomplicar as atualizações mais recentes e ajudar você a aplicar, na prática clínica, as recomendações atuais das principais diretrizes internacionais.

Vamos nessa!

Diagnóstico da Embolia Pulmonar

O diagnóstico da embolia pulmonar deve ser estruturado e sequencial, combinando avaliação clínica inicial, estimativa de probabilidade pré teste, testes laboratoriais, métodos de imagem e, quando indicado, investigação de trombose venosa profunda associada.

A diretriz enfatiza que nenhuma ferramenta isolada é suficiente em todos os cenários; a integração dos achados é fundamental.

A embolia pulmonar pode se manifestar de forma ampla, desde casos assintomáticos até choque e parada cardíaca. Por isso, o primeiro passo é a suspeita clínica baseada em sintomas, sinais vitais e fatores de risco.

Além da suspeita clínica, a avaliação hemodinâmica imediata é essencial. Pacientes com hipotensão ou sinais de choque exigem abordagem diagnóstica e terapêutica simultânea, pois o risco é elevado.

Probabilidade clínica pré teste

A diretriz reconhece a importância de estimar a probabilidade clínica antes da realização de exames laboratoriais ou de imagem. Essa etapa orienta o uso racional dos testes e reduz exames desnecessários.

Ferramentas clínicas estruturadas podem ser utilizadas para classificar o paciente em baixa, intermediária ou alta probabilidade pré teste. Entre as ferramentas mencionadas na diretriz estão:

Wells score;
Revised Geneva score;

Simplified Revised Geneva score.

Esses escores organizam variáveis clínicas objetivas e definem a sequência da investigação diagnóstica, especialmente o uso de D dímero e exames de imagem.

Em pacientes com probabilidade clínica baixa, a diretriz também menciona a possibilidade de aplicar o PERC, um conjunto de critérios que, quando todos negativos, pode evitar exames adicionais.

D dímero

O D dímero é útil principalmente em pacientes com baixa ou intermediária probabilidade clínica. Um resultado negativo, nesse contexto, pode excluir embolia pulmonar sem necessidade de exames de imagem adicionais.

A diretriz também descreve estratégias para otimizar seu uso:

  • D dímero ajustado pela idade, que reduz a necessidade de tomografia mantendo segurança diagnóstica;
  • Algoritmo YEARS, que combina variáveis clínicas com valores de D dímero para racionalizar a indicação de imagem

Entretanto, o D dímero não deve ser utilizado para excluir embolia pulmonar em pacientes com alta probabilidade clínica ou instabilidade hemodinâmica. Nesses casos, deve-se prosseguir diretamente para exame de imagem.

Angiotomografia computadorizada de artérias pulmonares

A angiotomografia pulmonar é o principal exame diagnóstico para confirmação da embolia pulmonar. Ela apresenta alta sensibilidade e especificidade para detectar trombos nas artérias pulmonares. Uma angiotomografia tecnicamente adequada e normal é considerada segura para excluir o diagnóstico.

Além de confirmar a presença do trombo, a tomografia fornece informações prognósticas importantes, como:

  • Relação ventrículo direito ventrículo esquerdo aumentada;
  • Dilatação ventricular direita;
  • Avaliação da carga trombótica;
  • Identificação de trombo central, inclusive em sela.

Esses achados auxiliam também na estratificação de risco.

Cintilografia pulmonar

A cintilografia ventilação perfusão pode ser utilizada quando a tomografia não é possível ou está contraindicada. Ela é especialmente útil em pacientes com contraindicação ao contraste iodado ou impossibilidade técnica de realizar angiotomografia. A diretriz também menciona o uso de VQ SPECT como alternativa diagnóstica válida.

Ultrassonografia venosa de membros inferiores

A presença de trombose venosa profunda associada reforça o diagnóstico de doença tromboembólica venosa. 

Em pacientes com suspeita clínica de embolia pulmonar, a identificação de trombose venosa profunda pode contribuir para o diagnóstico, especialmente quando a imagem pulmonar é inconclusiva ou não pode ser realizada. Além disso, a presença de trombose associada tem implicações prognósticas.

Ecocardiografia

A ecocardiografia não é o exame padrão para confirmar embolia pulmonar em pacientes estáveis, mas tem papel importante em situações específicas.

Em pacientes hemodinamicamente instáveis, a presença de sinais de disfunção de ventrículo direito pode apoiar o diagnóstico quando a tomografia não pode ser realizada imediatamente.

Além disso, a ecocardiografia fornece informações fundamentais para estratificação de risco, avaliando parâmetros como:

  • Dilatação ventricular direita;
  • Relação ventrículo direito ventrículo esquerdo;
  • Redução da função sistólica do ventrículo direito;
  • TAPSE reduzido;
  • Evidências indiretas de hipertensão pulmonar.

Avaliação de complicações e diagnóstico diferencial

A diretriz ressalta a importância de diferenciar embolia pulmonar aguda de outras condições e de identificar possíveis complicações ou sequelas. A tomografia pode identificar alterações estruturais persistentes associadas a comprometimento pós embolia. Achados como retração arterial pulmonar, dilatação de artérias brônquicas e hipertrofia ventricular direita podem estar presentes em quadros de doença tromboembólica crônica.

Essa abordagem estruturada permite confirmar ou excluir o diagnóstico de forma segura e, ao mesmo tempo, já fornece elementos essenciais para a estratificação de risco e definição da conduta terapêutica.

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Tratamento da Embolia Pulmonar

O tratamento da embolia pulmonar é orientado por dois pilares centrais:

  • Estabilidade hemodinâmica;
  • Categoria clínica AHA/ACC de A a E.

A diretriz enfatiza que a conduta deve ser guiada pela estratificação de risco e não apenas pela presença do trombo na imagem.

Anticoagulação: base do tratamento

A anticoagulação é o tratamento fundamental da embolia pulmonar aguda e deve ser iniciada assim que o diagnóstico for confirmado. Em pacientes com alta probabilidade clínica, pode ser iniciada antes da confirmação por imagem, desde que o risco de sangramento seja aceitável.

Seus objetivos são:

  • Impedir progressão do trombo;
  • Prevenir recorrência;
  • Reduzir mortalidade.

Para pacientes elegíveis a anticoagulação oral, os anticoagulantes orais diretos (DOACs) são recomendados como opção preferencial em relação aos antagonistas da vitamina K, por apresentarem eficácia na prevenção de recorrência e menor risco de sangramento maior.

Quando é necessária anticoagulação inicial parenteral, a diretriz recomenda heparina de baixo peso molecular em vez de heparina não fracionada. Essa recomendação também é reforçada no texto de suporte, que destaca DOACs como preferidos no tratamento de longo prazo e LMWH na fase inicial parenteral.

Monitorização e ajustes

Em pacientes com doença renal crônica grave em uso de heparina de baixo peso molecular, pode ser razoável monitorar anti Xa para guiar ajuste de dose e reduzir risco de sangramento.

Entretanto, na maioria dos pacientes em uso de LMWH baseada em peso, não se recomenda monitorização rotineira de anti Xa.

A diretriz orienta ainda que a dosagem específica dos medicamentos deve ser confirmada em bula e individualizada conforme perfil clínico. 

Tratamento baseado na classificação

A Diretriz 2026 AHA/ACC propõe que o tratamento da embolia pulmonar seja diretamente orientado pela nova classificação clínica AHA/ACC, que organiza os pacientes em cinco categorias progressivas de risco, de A a E. 

Essa abordagem permite alinhar a conduta terapêutica ao grau de comprometimento hemodinâmico e ao risco de deterioração clínica, garantindo maior precisão na tomada de decisão.

CategoriaPerfil ClínicoConduta RecomendadaObservações
AAssintomáticoAnticoagulaçãoPode receber alta do pronto atendimento se não houver outras indicações clínicas para internação
BSintomático de baixo riscoAnticoagulaçãoGeralmente elegível para alta hospitalar precoce com manejo ambulatorial estruturado
CSintomático com biomarcadores elevados e/ou disfunção de ventrículo direitoHospitalização + AnticoagulaçãoMonitorização para possível deterioração hemodinâmica. Trombólise não indicada rotineiramente
DFalência cardiopulmonar incipienteInternação com monitorização intensiva + AnticoagulaçãoAvaliação precoce para terapias avançadas devido ao risco de progressão para instabilidade
EFalência cardiopulmonar com hipotensão persistente ou choqueSuporte hemodinâmico imediato + Anticoagulação + Trombólise sistêmica (se não houver contraindicação)Considerar terapias avançadas. Grupo de maior risco de mortalidade

Terapias Avançadas e Medidas Complementares

EstratégiaIndicação PrincipalObjetivo
Trombólise sistêmicaPrincipalmente Categoria E ou deterioração clínicaRápida redução da carga trombótica e reversão da instabilidade
Terapias dirigidas por cateterCategorias D e E ou contraindicação relativa à trombólise sistêmicaReperfusão com menor exposição sistêmica ao fibrinolítico
Trombectomia mecânicaAlto risco ou falha de trombóliseRemoção direta do trombo
Embolectomia cirúrgicaCasos selecionados de alto risco ou contraindicação à trombóliseRemoção cirúrgica do trombo
ECMOInstabilidade grave ou colapso circulatórioSuporte circulatório temporário
Pulmonary Embolism Response Team (PERT)Especialmente Categorias C a EAvaliação multidisciplinar para otimizar decisões e selecionar terapias avançadas
Suporte hemodinâmicoPacientes instáveisReposição volêmica cautelosa, vasopressores, oxigenoterapia, suporte ventilatório quando indicado
Filtro de veia cava inferiorContraindicação absoluta à anticoagulaçãoPrevenir embolização recorrente. Não indicado rotineiramente se anticoagulação adequada

Cuidados Pós Agudos e Seguimento

O manejo da embolia pulmonar não termina na fase aguda. A diretriz enfatiza que o seguimento estruturado é parte essencial do cuidado, pois uma parcela significativa dos pacientes pode apresentar sintomas persistentes, limitação funcional ou complicações tardias.

O objetivo do acompanhamento é:

  • Avaliar resposta ao tratamento;
  • Identificar recorrência;
  • Detectar complicações crônicas;
  • Ajustar anticoagulação;
  • Investigar comprometimento funcional persistente.

Pacientes com sintomas persistentes após embolia pulmonar

A diretriz reconhece que alguns pacientes permanecem sintomáticos após o evento agudo, mesmo com tratamento adequado.

Sintomas comuns incluem:

  • Dispneia persistente;
  • Intolerância ao exercício;
  • Fadiga;
  • Limitação funcional.

Esses pacientes devem ser reavaliados de forma estruturada para investigar possíveis causas, incluindo comprometimento vascular residual ou evolução para doença tromboembólica crônica.

Avaliação para comprometimento pós-embolia

A diretriz descreve o conceito de comprometimento pós-embolia, que pode incluir alterações estruturais e funcionais persistentes.

A investigação pode envolver:

  • Ecocardiografia para avaliar função ventricular direita;
  • Tomografia para identificar alterações estruturais residuais;
  • Avaliação funcional cardiopulmonar quando indicado.

Achados como retração de artérias pulmonares, dilatação arterial, hipertrofia ventricular direita e outras alterações estruturais podem sugerir doença tromboembólica crônica.

Doença tromboembólica pulmonar crônica

Pacientes com sintomas persistentes e alterações estruturais podem evoluir para doença tromboembólica pulmonar crônica.

A diretriz destaca a importância de reconhecer precocemente esse quadro, pois ele pode exigir abordagem especializada e encaminhamento para centros de referência.

A identificação envolve integração entre:

  • Sintomas persistentes;
  • Achados de imagem;
  • Evidências de sobrecarga ventricular direita.

Duração da anticoagulação

O seguimento inclui reavaliação periódica da necessidade de manutenção da anticoagulação.

A decisão depende de:

  • Fatores de risco transitórios ou persistentes;
  • Risco de recorrência;
  • Risco de sangramento;
  • Perfil clínico individual.

A diretriz reforça que a decisão deve ser individualizada.

Reabilitação e retorno funcional

Em pacientes com limitação funcional, pode ser necessária abordagem multidisciplinar para recuperação da capacidade funcional. O acompanhamento deve incluir avaliação clínica periódica, orientações quanto a atividade física e monitoramento de sintomas.

Papel do seguimento estruturado

A diretriz reforça que pacientes com maior risco inicial, especialmente aqueles nas Categorias C, D e E, merecem seguimento mais atento. Além disso, qualquer paciente com sintomas persistentes deve ser reavaliado sistematicamente para excluir complicações tardias.

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Referências

WRITING COMMITTEE MEMBERS; CREAGER, M. A.; BARNES, G. D.; GIRI, J.; MUKHERJEE, D.; JONES, W. S.; BURNETT, A. E.; CARMAN, T.; CASANEGRA, A. I.; CASTELLUCCI, L. A.; CLARK, S. M.; CUSHMAN, M.; DE WIT, K.; EAVES, J. M.; FANG, M. C.; GOLDBERG, J. B.; HENKIN, S.; JOHNSTON-COX, H.; KADAVATH, S.; KADIAN-DODOV, D.; KEELING, W. B.; KLEIN, A. J. P.; LI, J.; MCDANIEL, M. C.; MOORES, L. K.; PIAZZA, G.; PRENGER, K. S.; PUGLIESE, S. C.; RANADE, M.; ROSOVSKY, R. P.; RUSSO, F.; SECEMSKY, E. A.; SISTA, A. K.; TEFERA, L.; WEINBERG, I.; WESTAFER, L. M.; YOUNG, M. N. 2026 AHA/ACC/ACCP/ACEP/CHEST/SCAI/SHM/SIR/SVM/SVN Guideline for the Evaluation and Management of Acute Pulmonary Embolism in Adults: A Report of the American College of Cardiology/American Heart Association Joint Committee on Clinical Practice Guidelines. Circulation, 19 fev. 2026. Ahead of print. DOI: 10.1161/CIR.0000000000001415. PMID: 41712677.

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