E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é os Critérios de Roma V, um conjunto de critérios diagnósticos utilizado para classificar e diagnosticar os distúrbios da interação intestino-cérebro, com base em sintomas gastrointestinais, sua frequência e duração, auxiliando na identificação e diferenciação de condições funcionais do trato gastrointestinal.
O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.
Vamos nessa!
Atualização dos Critérios de Roma V
O Roma V trouxe uma atualização importante na abordagem das antigas “desordens esofágicas funcionais”, que passaram a ser denominadas desordens esofágicas da interação cérebro-intestino (E-DGBI).
Em relação ao Roma IV, a principal evolução está na integração de critérios diagnósticos atualizados, incorporando o Consenso de Lyon 2.0 para a exclusão de Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) e a Chicago Classification v4.0 para a exclusão de distúrbios motores esofágicos.
Além disso, mantém-se o critério temporal de sintomas presentes por pelo menos 3 meses, com início pelo menos 6 meses antes do diagnóstico, reforçando o caráter crônico e não transitório dessas condições.
O Roma V também reforça a necessidade de uma avaliação diagnóstica mais criteriosa antes de classificar um paciente como portador de uma desordem da interação cérebro-intestino (DGBI). A proposta é reduzir o risco de atribuir sintomas a um distúrbio funcional sem antes excluir adequadamente outras doenças que podem apresentar manifestações semelhantes.
Dessa forma, o diagnóstico deve ser estabelecido após a exclusão de doenças estruturais, Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) significativa, distúrbios motores esofágicos maiores e esofagite eosinofílica (EoE), utilizando, quando indicado, endoscopia, pHmetria/impedância, manometria esofágica e biópsias. Vale destacar que a motilidade esofágica ineficaz (MEI), isoladamente, não exclui uma desordem esofágica da interação cérebro-intestino (E-DGBI).
Esofagite eosinofílica: um importante diagnóstico diferencial
Outro ponto reforçado pelo Roma V é o papel da esofagite eosinofílica (EoE) como diagnóstico diferencial. Trata-se de uma doença crônica, imune e inflamatória do esôfago, que pode apresentar sintomas semelhantes aos das E-DGBI, especialmente disfagia e dor torácica relacionada à alimentação.
Por isso, a EoE deve ser ativamente excluída, com realização de biópsias esofágicas quando indicadas. A ausência de uma investigação adequada pode levar à classificação equivocada de uma doença orgânica como uma desordem funcional.
Desordens intestinais: mudanças importantes no Roma V
As atualizações do Roma V não se restringem às desordens esofágicas. Os distúrbios intestinais da interação cérebro-intestino também passaram por mudanças relevantes, especialmente nos critérios da Síndrome do Intestino Irritável (SII).
No Roma IV, publicado em 2016, houve redução importante da prevalência diagnosticada de SII em comparação ao Roma III, principalmente pela elevação do limiar de frequência da dor abdominal e pela retirada do termo “desconforto”. O Roma V revisita esses pontos e promove mudanças importantes na definição da síndrome.
Entre os principais distúrbios intestinais contemplados estão:
- Síndrome do Intestino Irritável (SII);
- Constipação crônica;
- Diarreia funcional;
- Distensão abdominal funcional;
- Distúrbio intestinal não classificado;
- Constipação induzida por opioides.
Síndrome do Intestino Irritável (SII)
Uma das mudanças mais marcantes do Roma V é a reintrodução do desconforto abdominal como parte do critério diagnóstico.
- Roma IV: considerava a dor abdominal como sintoma central.
- Roma V: passa a considerar dor e/ou desconforto abdominal.
Essa mudança reconhece que alguns pacientes apresentam desconforto abdominal significativo sem necessariamente caracterizá-lo como dor.
Redução do limiar de frequência
Outra alteração importante é a redução da frequência mínima necessária para caracterizar o sintoma:
- Roma IV: ≥ 1 dia por semana;
- Roma V: ≥ 3 dias por mês, em média, nos últimos 3 meses.
Essa mudança retoma parcialmente o limiar utilizado no Roma III e aumenta a sensibilidade dos critérios diagnósticos. Dados do RFGES (The Rome Foundation Global Epidemiology Study) contribuíram para demonstrar que a elevação desse limiar foi um dos principais fatores relacionados à redução da prevalência de SII observada com o Roma IV.
Dor ou desconforto deve ser recorrente, mas não contínuo
O Roma V acrescenta que a dor ou o desconforto abdominal deve ser recorrente e não contínuo.
Essa característica ajuda a diferenciar a SII da síndrome da dor abdominal de mediação central (centrally mediated abdominal pain syndrome), anteriormente denominada dor abdominal funcional, na qual a dor tende a ser constante e pouco relacionada à defecação.
Relação com o ciclo menstrual
O Roma V também acrescenta um critério de apoio (supportive): a dor ou o desconforto abdominal não deve estar relacionado exclusivamente à menstruação.
O objetivo é evitar que sintomas predominantemente relacionados ao ciclo menstrual sejam interpretados como manifestação de SII.
Classificação mantida
Os quatro subtipos de SII permanecem no Roma V, sendo definidos de acordo com a predominância do hábito intestinal, utilizando a Escala de Bristol.
A classificação deve considerar apenas os dias em que as fezes apresentam consistência anormal, mantendo a lógica utilizada no Roma IV.
Desordens gastroduodenais
O Roma V manteve a arquitetura geral das desordens gastroduodenais, incluindo a dispepsia funcional (DF), subdividida em síndrome do desconforto pós-prandial (PDS) e síndrome da dor epigástrica (EPS), além das desordens de náusea e vômito, dos distúrbios de eructação e da síndrome de ruminação.
Para as provas de residência médica, vale concentrar a atenção nas principais mudanças relacionadas à dispepsia funcional, especialmente na redefinição da sobreposição entre PDS e EPS.
Dispepsia funcional: redefinição da sobreposição PDS–EPS
Uma das principais mudanças do Roma V está na forma de classificar a dor ou queimação epigástrica associada às refeições.
- Roma IV: a dor epigástrica podia ocorrer após as refeições ou independentemente delas, favorecendo uma importante sobreposição entre EPS e PDS.
- Roma V: quando a dor ou queimação epigástrica ocorre no período pós-prandial associada a sintomas de PDS, como plenitude pós-prandial ou saciedade precoce, o quadro passa a ser classificado como PDS, e não como EPS.
- Os sintomas desencadeados ou agravados pelas refeições devem ocorrer em até 2 horas após a ingestão.
- Na ausência de sintomas de PDS, o EPS pode ser subdividido, de forma provisória e voltada à pesquisa, em apresentações relacionadas ou não relacionadas às refeições.
Roma V para Pediatria
O Roma V também trouxe mudanças importantes para as desordens da interação cérebro-intestino (DGBI) em Pediatria, com ajustes nos critérios de diversas condições já conhecidas e a introdução de novas entidades. Entre as principais atualizações estão mudanças na disquezia do lactente, na diarreia funcional, na antiga cólica do lactente, além de modificações nos critérios de síndrome do intestino irritável (SII) e constipação funcional.
Síndrome do Intestino Irritável na Pediatria
Os critérios para SII pediátrica também foram atualizados. No Roma V, o diagnóstico exige:
- Dor abdominal ≥ 4 dias por mês, durante pelo menos 2 meses;
- Dor associada a pelo menos um dos seguintes:
- relação com a evacuação;
- alteração na frequência das fezes;
- alteração na forma das fezes;
- A dor abdominal deve ser o sintoma predominante;
- Os sintomas não devem ser totalmente explicados por outra condição médica;
- A dor não deve ocorrer exclusivamente durante a menstruação.
O Roma V recomenda idade mínima de 6 anos para o diagnóstico de SII pediátrica, uma vez que não há estudos suficientes estabelecendo os critérios para crianças menores.
Outra mudança relevante envolve a SII com constipação (SII-C). Diferentemente da abordagem anterior, não é obrigatório tratar inicialmente a constipação funcional antes de estabelecer o diagnóstico de SII-C, pois o comitê considerou insuficientemente definidos o tipo, a dose e a duração do tratamento da constipação, assim como a magnitude da melhora da dor necessária para confirmar essa estratégia.
Também foi acrescentada como situação de exclusão a ocorrência de dor exclusivamente durante a menstruação, evitando que casos de dismenorreia, acompanhados de alterações do hábito intestinal, sejam classificados incorretamente como SII.
Constipação Funcional
No Roma V, a constipação funcional deve apresentar pelo menos 2 dos seguintes critérios no último mês:
- ≤ 2 evacuações por semana, em média;
- Pelo menos 1 episódio de incontinência fecal por semana em crianças com controle esfincteriano;
- História de postura retentiva, esforço ou retenção voluntária inadequada das fezes;
- História de evacuações dolorosas ou fezes endurecidas, definidas como:
- Bristol tipos 1 ou 2, ou
- Escala de Bruxelas tipos 1, 2 ou 3 em bebês e crianças pequenas;
- Presença de grande massa fecal no reto;
- História de fezes de grande diâmetro.
Além disso:
- Os sintomas não podem ser totalmente explicados por outra condição médica;
- A criança não deve preencher critérios para SII;
- Os critérios devem estar presentes por pelo menos 1 mês antes do diagnóstico.
Entre as mudanças, foi retirada a exigência de que determinados sintomas ocorressem pelo menos uma vez por semana, passando-se a considerar sua ocorrência no último mês, já que alguns achados, como uma grande massa fecal retal, podem não estar presentes semanalmente.
Também foi eliminada a divisão dos critérios por idade e passou-se a utilizar explicitamente a Escala de Bristol ou a Escala de Bruxelas para caracterizar a consistência das fezes.
Disquezia do Lactente
Na disquezia do lactente, o Roma V mantém a faixa etária de menores de 9 meses e exige:
- Episódios recorrentes de esforço para evacuar por pelo menos 10 minutos, com esforço visível antes da passagem, bem-sucedida ou não, de fezes moles;
- Após avaliação adequada, o quadro não pode ser totalmente explicado por outra condição médica.
Como critério de apoio, o Roma V acrescenta que o esforço frequentemente pode ser acompanhado de gritos, choro ou vermelhidão intensa da face.
Diarreia Funcional
A diarreia funcional também sofreu mudanças importantes, principalmente pela ampliação da faixa etária e pela diferenciação dos critérios conforme a idade.
Devem estar presentes:
- Média de ≥ 4 evacuações indolores por dia em crianças menores de 4 anos ou > 2 evacuações por dia em crianças com 4 anos ou mais;
- Pelo menos 25% das fezes não formadas, utilizando a Escala de Bristol ou a Escala de Bruxelas conforme a faixa etária;
- Início entre 6 meses e 18 anos de idade;
- Não preencher critérios para constipação funcional, SII com predominância de diarreia ou incontinência fecal não retentiva;
- Após avaliação adequada, a diarreia não pode ser totalmente explicada por outra condição médica;
- Critérios presentes por pelo menos 2 meses antes do diagnóstico.
Uma mudança importante é justamente a expansão da faixa etária até 18 anos, além da utilização das escalas de consistência das fezes para tornar a definição mais objetiva.
Infant Distress Syndrome
O Roma V substituiu o termo “cólica do lactente” por Infant Distress Syndrome, uma mudança que procura evitar a ideia de que o choro excessivo necessariamente tenha origem no cólon ou seja causado por dor intestinal.
Os critérios incluem:
- Início dos sintomas antes dos 5 meses de idade;
- Períodos recorrentes e prolongados de choro e irritabilidade, relatados pelos cuidadores, sem causa evidente e que não podem ser prevenidos ou solucionados por eles;
- Após avaliação adequada, os sintomas não podem ser totalmente explicados por outra condição médica.
Para pesquisa clínica, acrescenta-se pelo menos um dos seguintes:
- Choro > 3 horas/dia em crianças de até 6 semanas ou > 2,5 horas/dia em crianças mais velhas, por pelo menos 3 dias por semana;
- O choro causa impacto grave na vida diária ou no bem-estar de pelo menos um dos cuidadores.
O Roma V modificou essa abordagem porque o limite de 3 horas de choro diário era considerado arbitrário. Alguns bebês podem apresentar períodos menores de choro, mas ainda assim provocar impacto significativo sobre os cuidadores.
Também foi retirada a exigência anterior de que os sintomas obrigatoriamente cessassem antes dos 5 meses, bem como a necessidade de ausência de falha de crescimento, febre ou doença como requisito diagnóstico.
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Referências
Rome V: Disorders of Gut–Brain Interaction. Edited by Jan Tack, MD, PhD; Lin Chang, MD; and Douglas A. Drossman, MD.
Rosen R, Borrelli O, Faure C, Karrento K, Krishnan U, Nurko S, Rommel N, Silverman A, van Wijk M, Benninga M. Rome V Pediatric Upper Gastrointestinal Disorders of Gut-Brain Interaction. Gastroenterology. 2026 May;170(6):1347-1366. doi: 10.1053/j.gastro.2026.01.039. Epub 2026 Feb 17. PMID: 41713704; PMCID: PMC13202739.



