Ansiedade e depressão na pandemia: como crianças e adolescentes foram afetados?

Ansiedade e depressão na pandemia: como crianças e adolescentes foram afetados?

Quer saber mais sobre como a pandemia tem afetado psicologicamente as crianças e adolescentes? O Estratégia MED separou as principais informações sobre o assunto para você. Vamos lá!

Uma meta-análise realizada pelo JAMA Pediatrics avaliou o resultado psicopatológico da pandemia na população de crianças e adolescentes. Sabidamente, a atual pandemia de COVID-19 já trouxe e trará diversas consequências no âmbito da saúde da comunidade, seja por hábitos que serão adotados, práticas que serão oficializadas ou por efeitos psicossociais nas pessoas.

No decorrer da intensificação dos protocolos adotados por conta da crise sanitária, muitos estudos avaliaram mudanças na saúde mental de médicos, profissionais da área da saúde e de crianças, grupos que sofreram consequências importantes no bem-estar psicossocial. Outro fator importante, principalmente nas crianças e adolescentes, foi a pausa das aulas presenciais que, além do impacto negativo no desenvolvimento de habilidades sociais, trouxe implicações no rendimento e aproveitamento escolar.

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Contexto pré-pandemia

Muitos grandes estudos realizados na última década, antes da atual pandemia do COVID-19, demonstraram a importância dos valores estatísticos a respeito da prevalência de transtornos mentais em crianças e adolescentes. O grupo dos transtornos ansiosos, especialmente o de transtorno de ansiedade generalizada, alcançava números de quase 12% nessa faixa populacional, enquanto a prevalência de sintomas depressivos assumia a prevalência de 13%.

Se os dados já eram alarmantes, o contexto da crise de saúde pública global na pandemia do novo coronavírus acabou por potencializar a recorrência de tais transtornos. Muitos fatores contribuíram para isso e afetaram as crianças e adolescentes com impacto significativo, gerando sofrimento psicológico, alguns deles foram:

  • Mudanças na vida cotidiana, principalmente por conta da forma abrupta que ocorreram. Importante mencionar que as crianças e adolescentes já formavam um grupo vulnerável e com menor capacidade adaptativa a alterações bruscas;
  • Isolamento social intenso;
  • Perda de datas comemorativas significantes, especialmente relacionadas à vida acadêmica;
  • Limitação das relações interpessoais;
  • Instabilidade gerada pelo período;
  • Medo disseminado; e
  • Estresse familiar.

Alguns estudos longitudinais de grande porte foram realizados e, apesar de todos mostrarem aumento da prevalência de sintomas depressivos e ansiosos nas crianças e adolescentes, o valor do aumento analisado foi variado. O aumento no índice para os sintomas depressivos variou entre 2,2% e 63,8%, enquanto para sintomas ansiosos, entre 1,8% e 49,5%.

Como a ansiedade e depressão podem se manifestar nesse público?

Dentro desse grupo etário em foco, a manifestação clínica de sintomas ansiosos e/ou depressivos pode ser bastante heterogênea e assumir diferentes padrões de apresentação, o que acontecia mesmo antes da pandemia.

Os principais sinais de ansiedade generalizada em crianças e adolescentes são:

  • Medo que, no contexto da pandemia, não necessariamente possui um alvo desencadeador específico. Isso é agravado em tal faixa etária por conta da dificuldade de abstração e entendimento do que é um vírus, por exemplo;
  • Mudanças na excitação, com grande destaque para hiperexcitação;
  • Preocupação desproporcional e incontrolável;
  • Incerteza;
  • Alterações autogeradas de caráter brusco na rotina; e
  • Preocupação sobre a saúde da família e amigos durante a pandemia.

De forma semelhante, os principais sintomas depressivos observados nas crianças e adolescentes são:

Distribuição da prevalência de ansiedade e depressão na pandemia

Mesmo os números gerais já sendo relevantes para apontar o impacto da pandemia da saúde mental das crianças e adolescentes, é importante salientar a variação do impacto baseado no sexo e na idade mais específica. Dois grupos merecem destaque por apresentarem maior risco de desenvolverem ou de sofrerem potencialização de transtornos com caráter internalizantes, são eles: sexo feminino e crianças mais velhas. Isso é confirmado pelo fato que estudos com maior proporção de meninas e/ou de crianças mais velhas apresentaram taxas ainda mais altas de prevalência dos sintomas ansiosos e depressivos.

Resultados do estudo

O artigo publicado pelo JAMA analisou 29 artigos publicados sobre o assunto e a meta-análise trouxe importantes resultados. No total, 80.879 crianças e adolescentes participaram do estudo, com idades que variaram entre 4,1 e 17,6 anos com média de idade de 13 anos. A distribuição geográfica dos estudos analisados também contribui com a relevância internacional da meta-análise.

Um dos dados mais interessantes retratados demonstrou que a prevalência dos sintomas depressivos aumentou com o passar do ano, assim, conforme os meses da pandemia foram passando, a taxa de sintomas depressivos e ansiosos em tal faixa etária aumentou. Além disso, com um intervalo de confiança de 95%, comprovou-se maior impacto nas crianças mais velhas e na população do sexo feminino.

Outro dado analisado foi o aumento da prevalência de sintomas ansiosos em países europeus quando comparado com o aumento observado nos países do leste asiático, com intervalo de confiança de 95%.

Discussão dos resultados

A meta-análise conduzida demonstrou prevalência de 25,2% de sintomas depressivos e de 20,5% para sintomas ansiosos na população estudada (os dados anteriores eram próximos de 12,9% para depressão e de 11,6% para ansiedade). Dessa forma, em todo o mundo, 1 em cada 5 crianças ou adolescentes apresenta clínica de algum sintoma ansioso e 1 em cada 4 demonstra sintomas depressivos, importante ressaltar que tal dado colhido durante a pandemia demonstra índice consideravelmente maior do que os dados anteriormente vigentes. Quando comparados, os dados mostram que as prevalências de tais transtornos mentais dobraram nas crianças e adolescentes nesse período, reforçando a hipótese do impacto negativo que a pandemia do coronavírus traria sobre a saúde mental da população estudada.

Assim, os fatores associados à pandemia, como isolamento social e contato limitado com pessoas de papel protetivo (especialmente professores ou psicólogos), trouxeram significativo impacto no desenvolvimento e potencialização do bem-estar psicológico e mental das crianças e adolescentes.

Um dado estudado é o aumento progressivo na prevalência de transtornos mentais conforme os meses da pandemia foram progredindo. As principais propostas e hipóteses levantadas pelos autores do artigo são de que o isolamento social contínuo, as dificuldades financeiras se agravando e a interrupção escolar foram fatores cumulativos e sinérgicos para o prejuízo emocional das crianças. Vale ressaltar, que como qualquer estudo estatístico, a meta-análise está sujeita a viés metodológico e a dados que possivelmente pouco refletem a realidade geral. Como exemplo, os estudos mais antigos foram feitos, principalmente, no leste asiático, onde a taxa de transtornos mentais relatada pelos próprios adolescentes é menor e os estudos mais recentes retratam populações que, possivelmente, supervalorizam marcos psicológicos. 

Alguns artigos relacionados apontam que famílias nas quais as rotinas foram mais utilizadas e seguidas durante a pandemia tiveram taxas de depressão infantil menores. Dessa forma, sugere-se que a adoção de rotinas consistentes pode favorecer e, de certo modo, proteger a saúde mental das crianças e adolescentes durante o período de pandemia.

Outros estudos ainda são necessários para comprovar o impacto da pandemia no bem-estar social e emocional de crianças e adolescentes a longo prazo, assim como para avaliar a possibilidade de intervenção farmacológica no controle e tratamento de sequelas causadas pela pandemia.

Conclusão

Baseado na meta-análise do JAMA Pediatrics conclui-se que houve aumento significativo de sintomas depressivos e/ou sintomas ansiosos clinicamente relevantes na população de estudos que compreende crianças e adolescentes entre 4,1 e 17,6 anos com média de idade de 13 anos.

Os autores do artigo argumentam a necessidade imediata de uma intervenção baseada em esforços com abordagem multidisciplinar na tentativa de recuperar e tratar o bem-estar psicossocial das crianças e adolescentes. Além disso, é necessário entender que as pessoalidades e individualidades de cada paciente, como sexo, idade, grau de exposição às consequências da pandemia, condição socieconômica e estrutura familiar, podem guiar a intervenção médica.

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