Olá, querido doutor e doutora! A Macroglobulinemia de Waldenström é uma neoplasia linfoproliferativa rara, de curso geralmente indolente, que exige abordagem diagnóstica criteriosa e individualização terapêutica. O entendimento da biologia molecular, das manifestações clínicas e dos critérios de tratamento permite condução mais precisa dos pacientes.
O tratamento deve ser iniciado apenas em pacientes sintomáticos, permanecendo os casos assintomáticos sob observação clínica.
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O que é a Macroglobulinemia de Waldenström
A Macroglobulinemia de Waldenström é classificada como um linfoma indolente de células B, caracterizado por infiltração da medula óssea por células linfoplasmocitárias clonais associada à presença de proteína monoclonal IgM detectável no soro.
Fisiopatologia
A alteração genética mais frequente é a mutação somática MYD88 L265P, presente em mais de 90% dos casos, que promove ativação constitutiva da via do NF κB, favorecendo sobrevivência e expansão celular. A mutação CXCR4, identificada em cerca de 30 a 40% dos pacientes, associa-se a maior agressividade clínica e menor resposta a algumas terapias.
As células neoplásicas derivam de linfócitos B pós-mutação somática, antes da diferenciação terminal em plasmócitos, mantendo fenótipo linfoplasmocitário e incapacidade de realizar troca de classe de imunoglobulina, com produção contínua de IgM.
O aumento sérico de IgM pode levar a hiperviscosidade, neuropatia periférica, crioglobulinemia e anemia hemolítica. A infiltração medular contribui para citopenias, enquanto o depósito de IgM em tecidos pode desencadear amiloidose e manifestações autoimunes.
Dados epidemiológicos
A Macroglobulinemia de Waldenström é uma neoplasia hematológica rara, com incidência anual estimada entre 3 e 4 casos por milhão de habitantes nos Estados Unidos e na Europa.
Acomete predominantemente adultos idosos, com idade mediana ao diagnóstico entre 63 e 73 anos. A incidência aumenta com o envelhecimento, sendo rara antes dos 50 anos e mais comum acima dos 70 anos. Há predomínio no sexo masculino, com razão aproximada de 2 homens para cada mulher.
Observa-se maior frequência em indivíduos brancos, com taxas superiores às registradas em afrodescendentes e asiáticos. Estudos populacionais indicam estabilidade da incidência nas últimas décadas, embora algumas regiões e faixas etárias apresentem discreta elevação.
A doença corresponde a cerca de 1 a 2% das neoplasias linfoproliferativas de células B.
Avaliação clínica
A apresentação clínica da Macroglobulinemia de Waldenström decorre principalmente de dois mecanismos: infiltração medular por células linfoplasmocitárias e efeitos sistêmicos da IgM monoclonal elevada.
A intensidade dos sintomas varia conforme a carga tumoral e os níveis séricos de IgM, resultando em quadro heterogêneo que pode oscilar entre formas indolentes e manifestações potencialmente graves.
Manifestações por infiltração medular
A infiltração da medula óssea leva, com frequência, a anemia, que se manifesta clinicamente por fadiga, fraqueza e redução da tolerância ao esforço. A trombocitopenia pode ocorrer, contribuindo para sangramentos, especialmente quando associada à hiperviscosidade.
Em alguns pacientes, observa-se também hepatomegalia, esplenomegalia e linfadenopatia, refletindo acometimento extramedular pelo processo linfoproliferativo.
Complicações relacionadas à IgM
A produção excessiva de IgM está associada a diversas manifestações clínicas. A mais característica é a síndrome de hiperviscosidade, que pode cursar com cefaleia, turvação visual, alterações cognitivas e sangramento de mucosas. Essa complicação ocorre em aproximadamente 10 a 15% dos pacientes.
Outras manifestações incluem neuropatia periférica, frequentemente sensitiva distal e de evolução lenta, além de crioglobulinemia, que pode se expressar por fenômeno de Raynaud e dor em extremidades. Em situações menos frequentes, pode ocorrer amiloidose associada à IgM.
Cerca de 1% dos pacientes pode evoluir com síndrome de Bing Neel, caracterizada por infiltração do sistema nervoso central, configurando complicação neurológica rara, porém de maior gravidade.
Sintomas constitucionais
Febre, sudorese noturna e perda ponderal podem estar presentes, embora sejam menos comuns em comparação com outras neoplasias linfoproliferativas. Quando presentes, devem ser valorizados no contexto da avaliação global da doença.
Diagnóstico
Exame laboratorial
A identificação de proteína monoclonal IgM no soro é realizada por eletroforese de proteínas séricas e imunofixação. A quantificação da IgM auxilia na avaliação da carga tumoral e no seguimento, porém não existe valor mínimo obrigatório para confirmação diagnóstica. A simples presença de IgM monoclonal, quando associada aos demais critérios, é suficiente para a caracterização da doença.
Exame histopatológico
É necessário demonstrar infiltração da medula óssea igual ou superior a 10% por células linfoplasmocitárias clonais. O padrão histológico corresponde a linfoma linfoplasmocitário, composto por células B pequenas, células plasmocitoides e plasmáticas.
A imunofenotipagem evidencia perfil pan B, com expressão de CD19, CD20, CD22 e CD79a, além de IgM de superfície, reforçando a natureza clonal da proliferação.
Exame molecular
A mutação MYD88 L265P está presente em mais de 90% dos casos e pode auxiliar na confirmação diagnóstica, especialmente em situações com achados histológicos duvidosos. Sua presença não é obrigatória para o diagnóstico. A pesquisa de mutação em CXCR4 pode ser realizada, principalmente com finalidade prognóstica.
Critérios clínicos
Devem ser avaliados sinais e sintomas relacionados à doença, como anemia, trombocitopenia, hepatoesplenomegalia, linfadenopatia, neuropatia periférica, hiperviscosidade, crioglobulinemia e amiloidose. A presença de sintomas não é requisito para estabelecer o diagnóstico, porém define a necessidade de intervenção terapêutica.
Exclusão de diagnósticos diferenciais
É indispensável afastar outras neoplasias linfoproliferativas de células B, como mieloma múltiplo, linfoma de células do manto, linfoma marginal e leucemia linfocítica crônica, além da gamopatia monoclonal IgM de significado indeterminado, caracterizada por IgM inferior a 3 g/dL e infiltração medular abaixo de 10%.
Tratamento
O tratamento da Macroglobulinemia de Waldenström deve ser iniciado apenas em pacientes sintomáticos. Indicações incluem anemia significativa, trombocitopenia, hiperviscosidade, neuropatia, organomegalia ou outras complicações relacionadas à IgM. Pacientes assintomáticos devem permanecer em observação clínica, conforme consenso do International Workshop on Waldenström’s Macroglobulinemia.
As principais estratégias incluem quimioimunoterapia com rituximabe e bendamustina ou uso de inibidores da tirosina quinase de Bruton. Entre os BTK inibidores, destacam-se zanubrutinibe e ibrutinibe, ambos com eficácia consistente e perfil de toxicidade favorável.
O esquema com rituximabe e bendamustina pode ser preferido em pacientes que necessitam de resposta mais rápida ou apresentam contraindicação aos BTK. O zanubrutinibe tende a ser escolhido quando se busca menor toxicidade comparado ao ibrutinibe.
Esquemas alternativos
Outras combinações incluem rituximabe com ciclofosfamida e dexametasona ou rituximabe com bortezomibe e dexametasona, especialmente em situações de contraindicação aos BTK ou quando há necessidade de controle clínico mais imediato.
A plasmaférese está indicada na presença de hiperviscosidade sintomática e deve ser realizada antes do início de rituximabe em pacientes com IgM muito elevada.
Doença refratária ou recidivada
Em cenários de recidiva ou refratariedade, podem ser utilizados agentes como bortezomibe, carfilzomibe, lenalidomida, pirtobrutinibe e venetoclax, de acordo com o perfil clínico e terapias previamente empregadas.
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Referências bibliográficas
- GERTZ, M. A. Waldenström macroglobulinemia: 2025 update on diagnosis, risk stratification, and management. American Journal of Hematology, 2025.
- SILKENSTEDT, E.; SALLES, G.; CAMPO, E.; DREYLING, M. B-cell non-Hodgkin lymphomas. The Lancet, 2024.
- ZANWAR, S.; KAPOOR, P. Diagnosis and risk stratification in Waldenström macroglobulinemia. Journal of the National Comprehensive Cancer Network, 2024.



