Resumo da Síndrome da Fome Óssea: riscos, tratamento e mais!

Resumo da Síndrome da Fome Óssea: riscos, tratamento e mais!

Olá, querido doutor e doutora! A Síndrome da Fome Óssea é uma complicação metabólica relevante no pós-paratireoidectomia, caracterizada por distúrbios eletrolíticos persistentes decorrentes de intensa remineralização óssea. O reconhecimento precoce dos fatores de risco e a monitorização adequada são determinantes para reduzir morbidade e tempo de internação.

Hipocalcemia persistente por mais de 4 dias após paratireoidectomia é um critério diagnóstico característico da Síndrome da Fome Óssea.

O que é a Síndrome da Fome Óssea 

A Síndrome da Fome Óssea é uma complicação metabólica caracterizada por hipocalcemia profunda, precoce e persistente após a correção cirúrgica do hiperparatireoidismo, seja ele primário, secundário ou terciário, particularmente após paratireoidectomia.

O quadro decorre da interrupção abrupta do estímulo osteoclástico mediado pelo PTH, mantendo-se elevada a atividade osteoblástica. Como consequência, ocorre captação intensa de cálcio, fósforo e magnésio pelo tecido ósseo, promovendo rápida remineralização de um esqueleto previamente desmineralizado e com alto turnover.

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Fisiopatologia  

Interrupção do estímulo osteoclástico

No hiperparatireoidismo pré-operatório, níveis elevados de PTH mantêm reabsorção óssea aumentada, com alto turnover e importante déficit mineral acumulado. Após a paratireoidectomia, ocorre queda abrupta do PTH e interrupção do estímulo osteoclástico previamente sustentado.

Predomínio da atividade osteoblástica

Apesar da redução da reabsorção, a atividade osteoblástica permanece aumentada no período imediato pós-cirúrgico. Esse descompasso favorece remineralização acelerada de um osso previamente desmineralizado, resultando em intensa captação de cálcio, fósforo e magnésio da circulação.

Captação mineral e distúrbios eletrolíticos

O tecido ósseo passa a atuar como um grande compartimento de redistribuição mineral, promovendo hipocalcemia, hipofosfatemia e hipomagnesemia prolongadas. Em pacientes com doença óssea avançada, como osteíte fibrosa cística ou quadro de alto turnover, esse fenômeno tende a ser mais intenso devido ao maior déficit mineral prévio.

Limitação da compensação sistêmica

A absorção rápida de minerais pelo osso pode superar a capacidade de compensação renal, agravando a queda do cálcio sérico no pós-operatório.

Vias moleculares envolvidas

Além das alterações no turnover global, participam mecanismos regulatórios como a via RANKL/OPG, a ativação do Wnt/β-catenina e sinais osteocíticos, que modulam o remodelamento ósseo e contribuem para a resposta de formação óssea após a cirurgia.

Epidemiologia e fatores de risco

Incidência

A Síndrome da Fome Óssea ocorre em cerca de 10 a 20% dos pacientes submetidos à paratireoidectomia por hiperparatireoidismo primário. Em casos de hiperparatireoidismo secundário, especialmente em indivíduos com doença renal crônica avançada, a incidência pode atingir 20 a 70%.

A frequência é maior em pacientes com evidência radiológica de doença óssea de alto turnover, como osteíte fibrosa cística, e em pacientes dialíticos.

Fatores de risco laboratoriais

Entre os principais preditores estão:

  • PTH pré-operatório muito elevado, tipicamente acima de 1000 pg/mL;
  • Fosfatase alcalina elevada, geralmente superior a 150 a 300 U/L;
  • Baixa concentração sérica de cálcio no pré-operatório;
  • Elevação de marcadores de turnover ósseo, como bone-specific ALP, P1NP e TRAP-5b.

Esses achados refletem remodelamento ósseo acelerado e maior déficit mineral acumulado.

Fatores clínicos e estruturais

Outros fatores associados incluem:

  • Volume ou peso aumentado das glândulas paratireoides ressecadas;
  • Evidência radiológica de doença óssea, como lesões líticas e reabsorção subperiosteal;
  • Osteodistrofia renal;
  • Ausência de autotransplante paratireoideo;
  • História de doença óssea grave.

Perfil do paciente com hiperparatireoidismo secundário

No contexto de hiperparatireoidismo secundário, destacam-se:

  • Idade inferior a 48 anos;
  • Tempo de diálise superior a 5 anos;
  • Deficiência pré-operatória de vitamina D.

Avaliação clínica

Início e padrão temporal

A Síndrome da Fome Óssea geralmente se manifesta nas primeiras 24 a 72 horas após a paratireoidectomia, caracterizando-se por hipocalcemia profunda e prolongada. A duração pode variar conforme a gravidade da doença óssea prévia, podendo persistir por semanas a meses nos casos mais intensos.

Manifestações neuromusculares

Os sintomas clássicos decorrem da hipocalcemia e incluem:

  • Parestesias;
  • Espasmos musculares;
  • Tetania;
  • Sinais de Chvostek e Trousseau;
  • Convulsões.

A intensidade pode variar desde manifestações leves até quadros graves com instabilidade clínica.

Alterações cardiovasculares

A hipocalcemia pode cursar com arritmias cardíacas e prolongamento do intervalo QT no eletrocardiograma. Em situações mais severas, há risco de comprometimento hemodinâmico.

Distúrbios associados

Frequentemente coexistem hipofosfatemia e hipomagnesemia, que contribuem para:

  • Fraqueza muscular;
  • Fadiga;
  • Dor óssea difusa.

Em pacientes com doença óssea de alto turnover, a dor óssea pode ser mais evidente no pós-operatório imediato.

Necessidade de suporte intensivo

Nos casos graves, a persistência da hipocalcemia exige suplementação agressiva de cálcio e vitamina D ativa, com monitorização laboratorial frequente e possível hospitalização prolongada.

Formas assintomáticas

Embora alguns pacientes apresentem apenas alterações laboratoriais sem sintomas clínicos evidentes, a síndrome tende a ser mais expressiva em indivíduos com doença renal crônica, hiperparatireoidismo grave ou deficiência de vitamina D, nos quais o risco de manifestações clínicas relevantes é maior.

Diagnóstico 

Critério laboratorial

O diagnóstico da Síndrome da Fome Óssea baseia-se na presença de hipocalcemia profunda e persistente por mais de 4 dias após paratireoidectomia, geralmente com cálcio sérico inferior a 2,1 mmol/L ou 8,4 mg/dL. Frequentemente associa-se a hipofosfatemia e hipomagnesemia, reforçando o padrão de intensa captação mineral óssea.

Contexto clínico

O quadro ocorre em pacientes com histórico de hiperparatireoidismo e evidência de doença óssea de alto turnover. As manifestações clínicas incluem:

  • Tetania;
  • Parestesias;
  • Espasmos musculares;
  • Convulsões;
  • Dor óssea;
  • Arritmias cardíacas nos casos graves.

A apresentação pode variar desde alterações laboratoriais isoladas até sintomas neuromusculares e cardiovasculares relevantes.

Fatores de suporte diagnóstico

A probabilidade diagnóstica aumenta na presença de:

  • PTH e fosfatase alcalina elevados no pré-operatório;
  • Doença renal crônica;
  • Tempo prolongado de diálise;
  • Deficiência de vitamina D;
  • Volume aumentado das glândulas ressecadas;
  • Evidência radiológica de osteíte fibrosa cística ou outras alterações estruturais ósseas.

Esses elementos indicam alto turnover e maior déficit mineral acumulado antes da cirurgia.

Base fisiopatológica

Após a queda abrupta do PTH, ocorre captação acelerada de cálcio, fósforo e magnésio pelo osso, promovendo remineralização intensa do tecido previamente desmineralizado, o que sustenta a persistência da hipocalcemia.

Diagnóstico diferencial

É indispensável excluir hipoparatireoidismo pós-operatório. Na Síndrome da Fome Óssea, observa-se hipocalcemia com PTH baixo ou normal, porém com marcadores de turnover ósseo elevados e necessidade de reposição agressiva de cálcio e vitamina D ativa, diferindo do padrão clássico de deficiência permanente de PTH.

Tratamento

Princípios gerais

A Síndrome da Fome Óssea exige abordagem direcionada à hipocalcemia profunda e prolongada no pós-paratireoidectomia, decorrente da intensa captação mineral pelo osso após queda abrupta do PTH. O manejo deve considerar a gravidade clínica, os fatores de risco pré-operatórios e a magnitude do distúrbio laboratorial.

Estratificação de risco

Pacientes com PTH e fosfatase alcalina muito elevados, doença óssea de alto turnover, idade jovem, tempo prolongado de diálise, deficiência de vitamina D e grande volume de tecido paratireoideo ressecado apresentam maior risco. Biomarcadores tradicionais e modelos preditivos, como o NYU 2-point score, auxiliam na identificação precoce de indivíduos com maior probabilidade de evolução grave.

Prevenção pré-operatória

As medidas preventivas incluem:

  • Otimização do status de vitamina D com colecalciferol ou ergocalciferol até níveis adequados;
  • Uso de calcimiméticos em situações selecionadas;
  • Avaliação individualizada do risco.

O uso rotineiro de bisfosfonatos não é recomendado, pois não há evidência consistente de benefício na prevenção e pode aumentar o risco em determinados contextos.

Reposição de cálcio

O tratamento baseia-se em reposição agressiva de cálcio, preferencialmente por via oral:

  • Carbonato ou citrato de cálcio;
  • Dose total de 6 a 12 g por dia de cálcio elementar, dividida em 3 a 4 administrações.

Em casos sintomáticos ou graves, pode ser necessária administração intravenosa com gluconato de cálcio.

Vitamina D ativa

A suplementação de vitamina D ativa deve ser iniciada precocemente:

  • Calcitriol entre 0,5 e 2 mcg por dia;
  • Ou alfacalcidol em dose equivalente.

A titulação deve ser guiada por resposta clínica e laboratorial.

Correção de distúrbios associados

A normalização de hipomagnesemia e hipofosfatemia é parte integrante do manejo, podendo requerer sulfato de magnésio por via oral ou intravenosa e fosfato oral quando indicado. A correção adequada desses distúrbios facilita a recuperação da hipocalcemia.

Monitorização

É necessária monitorização laboratorial intensiva, especialmente nas primeiras 72 horas, com dosagens seriadas de:

  • Cálcio total e iônico;
  • Fósforo;
  • Magnésio;
  • PTH;
  • Marcadores de turnover ósseo.

Pacientes de alto risco ou com quadro grave podem necessitar hospitalização prolongada e cuidados intensivos.

Abordagem individualizada

Não há consenso universal sobre protocolos padronizados de prevenção e manejo. A conduta deve ser individualizada, baseada na estratificação de risco, monitorização rigorosa e ajuste dinâmico da reposição de cálcio e vitamina D ativa ao longo da evolução clínica.

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Referências bibliográficas 

  1. COMAN, A.; TARTA, C.; MARIAN, M. et al. Hungry bone syndrome after parathyroidectomy for secondary hyperparathyroidism: pathogenesis and contemporary clinical considerations. Journal of Clinical Medicine, 2025.
  1. WITTEVEEN, J. E.; VAN THIEL, S.; ROMIJN, J. A.; HAMDY, N. A. Hungry bone syndrome: still a challenge in the post-operative management of primary hyperparathyroidism: a systematic review of the literature. European Journal of Endocrinology, 2013.
  1. JAIN, N.; REILLY, R. F. Hungry bone syndrome. Current Opinion in Nephrology and Hypertension, 2017.

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