Olá, querido doutor e doutora! A Síndrome de Bing-Neel representa uma complicação neurológica rara da macroglobulinemia de Waldenström, caracterizada por infiltração direta do sistema nervoso central por células linfoplasmocitárias malignas. Sua apresentação clínica é heterogênea e pode ocorrer independentemente da atividade sistêmica da doença.
A infiltração do sistema nervoso central pode ocorrer mesmo na ausência de progressão hematológica sistêmica.
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O que é a Síndrome de Bing-Neel
A Síndrome de Bing-Neel corresponde a uma manifestação rara associada à macroglobulinemia de Waldenström, caracterizada pela infiltração direta de células linfoplasmocitárias malignas no sistema nervoso central. Diferentemente das complicações relacionadas à hiperviscosidade ou a fenômenos imunológicos, trata-se de acometimento neoplásico propriamente dito do SNC, podendo ocorrer mesmo na ausência de atividade sistêmica evidente da doença de base.
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Fisiopatologia
Mecanismo de infiltração do SNC
A Síndrome de Bing-Neel decorre da infiltração direta do sistema nervoso central por células linfoplasmocitárias malignas originadas da macroglobulinemia de Waldenström. Essas células, com características intermediárias entre linfócitos B e plasmócitos, migram do compartimento medular ou da circulação periférica para o SNC, atravessando a barreira hematoencefálica.
O mecanismo exato dessa migração não está totalmente esclarecido, porém envolve alterações na expressão de moléculas de adesão e quimiocinas. A mutação de CXCR4, descrita em parcela significativa dos pacientes, pode favorecer o tropismo celular para o SNC e contribuir para o processo de infiltração.
Alterações moleculares associadas
Grande parte dos casos apresenta a mutação MYD88 L265P, marcador molecular característico da macroglobulinemia de Waldenström. Essa alteração leva à ativação constitutiva da via NF-κB, promovendo sobrevivência e proliferação das células neoplásicas. A presença dessa mutação no contexto de acometimento neurológico reforça o vínculo biológico entre a doença sistêmica e a infiltração do SNC.
Padrões de acometimento no SNC
No sistema nervoso central, as células malignas podem se distribuir de forma difusa, com padrão leptomeníngeo, ou formar lesões focais parenquimatosas. Essa variabilidade anatômica explica a heterogeneidade das manifestações clínicas, que dependem da localização e da extensão da infiltração.
Independência da atividade sistêmica
O acometimento do SNC pode ocorrer independentemente da atividade hematológica da doença e não está necessariamente relacionado a níveis elevados de IgM. É importante distinguir essa condição das neuropatias mediadas por IgM, nas quais há mecanismo imunológico sem invasão tumoral. Na Síndrome de Bing-Neel, o processo é caracterizado por invasão celular neoplásica direta, com implicações diagnósticas e terapêuticas distintas.
Dados epidemiológicos
Frequência e perfil demográfico
A Síndrome de Bing-Neel é uma complicação rara da macroglobulinemia de Waldenström, com incidência aproximada de 1% dos pacientes acometidos por essa neoplasia. A maioria dos casos ocorre em adultos, com idade média entre 60 e 65 anos, apresentando predominância no sexo masculino.
Momento de aparecimento
O intervalo entre o diagnóstico da macroglobulinemia e o desenvolvimento do acometimento do sistema nervoso central é variável. Pode surgir em poucos meses ou após vários anos, com mediana descrita entre 3 e 9 anos. A síndrome pode ocorrer tanto como manifestação inicial da doença quanto durante sua evolução, inclusive em pacientes sob tratamento sistêmico.
Fatores associados e suspeição clínica
Não há fatores de risco específicos bem definidos para o desenvolvimento da síndrome. No entanto, a presença de sintomas neurológicos inexplicados em pacientes com macroglobulinemia deve sempre motivar investigação direcionada para possível infiltração do SNC.
Sobrevida e prognóstico
A sobrevida global é inferior à observada em pacientes com macroglobulinemia sem envolvimento neurológico. As taxas de sobrevida em 3 a 5 anos variam entre 47% e 71%, sendo influenciadas pelo atraso diagnóstico e pela gravidade das manifestações neurológicas no momento da identificação da síndrome.
Avaliação clínica
Heterogeneidade da apresentação
A Síndrome de Bing-Neel apresenta quadro clínico variável, determinado pelo padrão e pela localização da infiltração linfoplasmocitária no sistema nervoso central. As manifestações podem ser focais ou difusas, refletindo envolvimento parenquimatoso ou leptomeníngeo.
Manifestações neurológicas
Os sintomas mais descritos incluem cefaleia, alterações cognitivas como confusão mental e déficit de memória, paresias e distúrbios psiquiátricos. Também podem ocorrer convulsões, alterações da marcha, tremores, afasia e dor lombar. O comprometimento de nervos cranianos pode se manifestar como paralisia facial ou perda visual. Sintomas sensitivos, como parestesias e dormência em membros, também são relatados.
Nos casos com formação de massa parenquimatosa, predominam sintomas localizados conforme a topografia da lesão. Já na infiltração leptomeníngea, são mais comuns manifestações multifocais, com comprometimento neurológico disseminado.
Contexto clínico e atraso diagnóstico
A síndrome pode surgir em pacientes previamente diagnosticados com macroglobulinemia de Waldenström ou como manifestação inicial da doença. O acometimento do SNC não está obrigatoriamente associado à progressão hematológica sistêmica.
Diagnóstico
Abordagem inicial e suspeição clínica
O diagnóstico da Síndrome de Bing-Neel exige avaliação integrada, considerando a variabilidade clínica e o impacto prognóstico do reconhecimento precoce. Deve ser suspeitada diante de sintomas neurológicos inexplicados em pacientes com macroglobulinemia de Waldenström ou quando há indícios de envolvimento do sistema nervoso central.
Ressonância magnética
A ressonância magnética com gadolínio de encéfalo e coluna é o método de imagem mais sensível para investigação inicial. Os achados incluem infiltração leptomeníngea, dural ou parenquimatosa, podendo ser multifocal ou localizada. Alterações são identificadas em parcela significativa dos casos, sendo o exame indicado tanto para diagnóstico quanto para seguimento.
Análise do líquido cefalorraquidiano
A avaliação do LCR é etapa central da investigação. Deve incluir citologia, imunofenotipagem por citometria de fluxo para identificação de células linfoplasmocitárias clonais, além da pesquisa de proteína monoclonal. A detecção de população clonal no LCR representa o método mais específico para confirmação diagnóstica.
Testes moleculares
A pesquisa da mutação MYD88 L265P no LCR aumenta a sensibilidade diagnóstica, sobretudo em situações com citologia negativa. A presença da mutação é altamente sugestiva no contexto clínico adequado, embora não seja exclusiva dessa condição.
Biópsia do sistema nervoso central
A biópsia cerebral ou meníngea pode ser considerada em casos com dúvida diagnóstica, especialmente quando o LCR não é conclusivo ou quando há lesão focal acessível à abordagem histológica.
Tratamento
Princípios gerais
O manejo da Síndrome de Bing-Neel deve ser individualizado, considerando padrão de acometimento do sistema nervoso central, gravidade clínica e condições do paciente. A estratégia terapêutica atual prioriza agentes com adequada penetração no SNC e perfil de toxicidade aceitável, visando controle da infiltração neoplásica e preservação neurológica.
Inibidores de BTK
O consenso internacional mais recente estabelece zanubrutinib como terapia padrão, devido à sua eficácia clínica e radiológica, além da capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica. O fármaco apresenta resposta significativa em termos de melhora sintomática e redução de alterações em imagem e líquor.
Ibrutinib também é alternativa eficaz, com estudos demonstrando taxas de resposta clínica superiores a 80%, melhora radiológica consistente e negativação do líquor em parte relevante dos pacientes, mantendo perfil de segurança favorável. Ambos são aprovados para macroglobulinemia de Waldenström.
Quimioterapia sistêmica e intratecal
Em casos com doença agressiva, envolvimento parenquimatoso extenso ou contraindicação aos inibidores de BTK, pode-se considerar quimioterapia sistêmica com metotrexato em alta dose ou citarabina, associada a rituximabe, especialmente em pacientes jovens e com bom desempenho funcional.
A quimioterapia intratecal, com metotrexato, citarabina e dexametasona, pode ser utilizada na infiltração leptomeníngea, embora esteja associada a maior toxicidade.
Radioterapia
A radioterapia é reservada para lesões localizadas refratárias ou situações em que outras modalidades terapêuticas não são viáveis.
Seguimento e monitorização
O início precoce do tratamento está associado a melhor desfecho neurológico. O acompanhamento deve incluir avaliação clínica periódica, ressonância magnética de controle e análise do líquor. A monitorização molecular com pesquisa de MYD88 L265P pode auxiliar na detecção precoce de recidiva.
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Referências bibliográficas
- SCHEP, S. J.; VOS, J. M. I.; MINNEMA, M. C. Evaluation and management of Bing-Neel syndrome. Hematology/Oncology Clinics of North America, 2023.
- CASTILLO, J. J.; TREON, S. P. How we manage Bing-Neel syndrome. British Journal of Haematology, 2019.
- SABURI, M.; SEKIGUCHI, N. Bing-Neel syndrome in Waldenström macroglobulinemia: updates on clinical management and BTK inhibitor efficacy. Cancers, 2025.
- MINNEMA, M. C.; KIMBY, E.; D’SA, S. et al. Guideline for the diagnosis, treatment and response criteria for Bing-Neel syndrome. Haematologica, 2016.



