Olá, querido doutor e doutora! O transtorno de somatização corresponde a uma condição psiquiátrica caracterizada pela presença de sintomas físicos persistentes, acompanhados de preocupação excessiva com a saúde e busca frequente por cuidados médicos. Embora os sintomas possam coexistir com doenças orgânicas, a intensidade da resposta emocional e comportamental é desproporcional ao quadro clínico.
Até 90% dos pacientes permanecem sintomáticos por mais de cinco anos, o que reforça o caráter crônico do transtorno.
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Conceito
O transtorno de somatização, também denominado transtorno de sintomas somáticos (Somatic Symptom Disorder – SSD) no DSM-5, é caracterizado pela presença de um ou mais sintomas físicos persistentes que geram sofrimento relevante ou interferem no funcionamento social, profissional ou pessoal do indivíduo.
O diagnóstico não se baseia apenas na ausência de explicação médica para as queixas, mas sobretudo na resposta desproporcional do paciente frente aos sintomas. Essa resposta pode se manifestar como:
- Preocupação contínua com a gravidade dos sintomas;
- Níveis elevados e persistentes de ansiedade em relação à saúde;
- Gasto excessivo de tempo e energia na investigação ou manejo dessas queixas.
Para que o diagnóstico seja estabelecido, os sintomas devem estar presentes por pelo menos seis meses, ainda que sua intensidade possa variar.
Essa definição atual substituiu classificações anteriores, como somatização, hipocondria e transtorno doloroso, destacando o comportamento e a percepção do paciente diante da doença, e não apenas a ausência de explicação clínica para os sintomas.
Etiologia e patogênese
O transtorno de somatização possui origem multifatorial, resultado da interação de aspectos biológicos, psicológicos e sociais. Não existe um único fator responsável pelo desenvolvimento do quadro, mas sim um conjunto de predisposições e condições precipitantes.
Fatores predisponentes incluem histórico de doenças crônicas na infância, experiências de negligência ou abuso (especialmente sexual), presença de transtornos psiquiátricos prévios, baixa capacidade de enfrentamento de estressores e histórico de uso de álcool ou outras substâncias.
Do ponto de vista neurobiológico, há evidências de participação genética, com estudos em gêmeos sugerindo hereditariedade parcial. Alterações no sistema neuroendócrino e maior atividade autonômica foram associadas a sintomas como taquicardia, tensão muscular, dor difusa e alterações gastrointestinais.
No campo psicológico e comportamental, destacam-se mecanismos como:
- Hipervigilância e amplificação das sensações corporais, levando à interpretação de sinais benignos como doenças graves;
- Interpretação distorcida da identidade do paciente, que se percebe como doente;
- Estratégias de enfrentamento disfuncionais, como evitação de atividades ou uso recorrente de serviços de saúde.
Modelos explicativos sugerem a atuação de três componentes principais:
- Predisposição (fatores genéticos, experiências precoces, traços de personalidade);
- Precipitação (situações de estresse, doenças médicas concomitantes, perdas ou conflitos sociais);
- Perpetuação (reforço dos sintomas pelo excesso de exames, afastamentos e benefícios secundários da doença).
Esse conjunto de fatores contribui para a cronificação do quadro, com manutenção dos sintomas e piora da funcionalidade mesmo na ausência de uma doença orgânica explicativa.
Epidemiologia
O transtorno de somatização apresenta prevalência estimada entre 5% e 7% na população geral, sendo mais frequente em mulheres, com uma razão aproximada de 10:1 em relação aos homens. Em serviços de atenção primária, a proporção é ainda maior, alcançando até 17% dos pacientes atendidos, especialmente entre aqueles com síndromes funcionais como fibromialgia, síndrome do intestino irritável e fadiga crônica.
A condição pode surgir em diferentes fases da vida — infância, adolescência ou idade adulta. Em pediatria, quadros de sintomas somáticos e relacionados correspondem a cerca de 10% a 15% das consultas em atenção primária, com dor abdominal e cefaleia sendo queixas frequentes.
Estudos sugerem também uma forte associação com comorbidades psiquiátricas, como depressão, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de pânico e transtornos de personalidade, o que contribui para o impacto negativo do transtorno.
Apesar da alta prevalência, o diagnóstico muitas vezes é subestimado, seja pela dificuldade em diferenciar sintomas somáticos funcionais de doenças orgânicas, seja pelo estigma relacionado aos transtornos mentais.
Avaliação clínica
Sintomas dolorosos
A dor é uma das manifestações mais frequentes no transtorno de somatização. Ela pode ocorrer em diferentes locais, como cabeça, abdome, região lombar, articulações, tórax ou pelve. Muitas vezes, a dor é descrita de forma intensa e persistente, mas não se correlaciona com achados objetivos nos exames complementares.
Sintomas gastrointestinais
Náuseas, constipação, diarreia e distensão abdominal são queixas comuns nesses pacientes. Os sintomas costumam ser intermitentes, mudam de intensidade ao longo do tempo e frequentemente resultam em múltiplas consultas médicas e exames, sem identificação de alterações significativas.
Sintomas neurológicos e gerais
Queixas como tontura, fraqueza, desmaios, parestesias e dificuldade de concentração também fazem parte do quadro clínico. Além disso, fadiga intensa e alterações do sono são frequentes e contribuem para a percepção de incapacidade e piora da qualidade de vida.
Manifestações cardiorrespiratórias
Dor torácica atípica, palpitações e falta de ar são relatados por muitos pacientes. Esses sintomas geram grande ansiedade, pois costumam ser interpretados como sinais de doenças graves, levando à busca repetida por serviços de emergência.
Comportamento e impacto funcional
Além das manifestações físicas, observa-se um padrão de preocupação desproporcional com a saúde, resistência às explicações médicas e tendência a consultar diversos profissionais. Essa dinâmica resulta em prejuízo ocupacional, acadêmico e social, agravando o sofrimento do paciente e perpetuando o ciclo de adoecimento.
Diagnóstico
Critérios diagnósticos
O transtorno de somatização é definido pelo DSM-5 como a presença de um ou mais sintomas físicos que causem sofrimento ou limitação significativa, associados a pensamentos, sentimentos ou comportamentos excessivos relacionados a esses sintomas. Esses critérios incluem preocupação constante com a gravidade, ansiedade elevada em relação à saúde e dedicação excessiva de tempo às queixas, com duração mínima de seis meses.
Avaliação clínica
A anamnese detalhada e o exame físico completo são indispensáveis. Deve-se investigar não apenas a localização dos sintomas, mas também seu impacto no cotidiano, a evolução temporal e a busca por cuidados prévios. É comum identificar uma história inconsistente, baixa resposta a intervenções médicas e utilização frequente dos serviços de saúde.
Exames complementares
Os exames devem ser solicitados de maneira criteriosa, com foco em excluir condições médicas relevantes. Investigações em excesso aumentam o risco de resultados falso-positivos, iatrogenias e reforço da percepção de doença. Muitas vezes, o paciente já passou por extensa propedêutica sem achados significativos.
Diagnóstico positivo
É importante ressaltar que o diagnóstico não é apenas de exclusão, mas sim positivo, fundamentado nos critérios psicocomportamentais do DSM-5. A ausência de explicação médica não é obrigatória para o diagnóstico, diferentemente das classificações anteriores. A avaliação psiquiátrica é útil para identificar comorbidades, como depressão e transtornos ansiosos.
Gravidade e especificadores
O DSM-5 permite graduar o transtorno como leve, moderado ou grave, a depender da quantidade de pensamentos e comportamentos excessivos associados, bem como do número de sintomas relatados. Há ainda o especificador “com dor predominante”, quando esse é o sintoma central do quadro.
Tratamento
Estratégias psicoterápicas
A abordagem central no tratamento do transtorno de somatização é a psicoterapia, com destaque para a terapia cognitivo-comportamental (TCC). Essa modalidade auxilia o paciente a reconhecer padrões de pensamentos disfuncionais, reduzir a hipervigilância em relação ao corpo e adotar estratégias mais adaptativas de enfrentamento. Outros formatos, como psicoterapia psicodinâmica e terapias integrativas, também podem ser considerados conforme o perfil do paciente.
Manejo clínico e acompanhamento
O seguimento deve ser estruturado com consultas regulares e breves, em intervalos previamente definidos (como a cada 4 a 6 semanas), evitando atendimentos apenas em momentos de crise. Durante as consultas, recomenda-se realizar um exame físico sucinto para validar as queixas, mas evitar excesso de exames complementares. A relação médico-paciente deve ser pautada em escuta ativa, empatia e validação dos sintomas, prevenindo frases que minimizem a experiência do paciente.
Tratamento farmacológico
O uso de medicamentos é reservado a casos com comorbidades psiquiátricas associadas, como depressão e transtornos ansiosos. Antidepressivos, especialmente os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) e os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (ISRSN), apresentam evidências de benefício. Em contrapartida, benzodiazepínicos e opioides devem ser evitados, pelo risco de dependência e pelo potencial de reforço da percepção de doença.
Intervenções complementares
Além da psicoterapia e do uso criterioso de fármacos, práticas como atividade física regular, fisioterapia e técnicas de relaxamento podem auxiliar na redução da tensão corporal e na melhora da qualidade de vida. A integração com equipe multiprofissional (psiquiatria, psicologia, fisioterapia e assistência social) potencializa os resultados.
Prognóstico
O curso da doença tende a ser crônico e recorrente. Estudos indicam que até 90% dos pacientes mantêm sintomas por mais de cinco anos, embora em diferentes intensidades. Adolescentes parecem ter maior taxa de remissão quando comparados a adultos, especialmente quando recebem suporte familiar e adesão ao tratamento psicoterápico. Fatores associados a pior evolução incluem número elevado de sintomas, presença de comorbidades psiquiátricas, uso abusivo de serviços de saúde e dificuldades de relacionamento interpessoal.
Impactos e complicações
O transtorno pode gerar prejuízos significativos na vida social e ocupacional, além de custos elevados com exames e consultas repetidas. O risco de iatrogenia médica é elevado quando há excesso de investigações e intervenções desnecessárias. Por outro lado, o manejo adequado, com ênfase na funcionalidade e no enfrentamento saudável, melhora a qualidade de vida e reduz a sobrecarga emocional.
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Referências Bibliográficas
- D’SOUZA, R. S.; HOOTEN, W. M. Somatic Symptom Disorder. In: StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing, 2023. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK532253/.
- DynaMed. Somatic Symptom Disorder. EBSCO Information Services, atualizado em 2 jul. 2024. Disponível em: https://www.dynamed.com/condition/somatic-symptom-disorder.