E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Ageusia, uma condição caracterizada pela perda completa do paladar, podendo estar relacionada a alterações neurológicas, infecções, uso de medicamentos ou doenças sistêmicas.
O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.
Vamos nessa!
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Definição de Ageusia
A ageusia é uma condição rara caracterizada pela perda completa da função gustativa da língua. Trata-se de um sintoma que pode refletir diversas condições patológicas subjacentes e deve ser diferenciada de outros distúrbios do paladar, como hipogeusia (redução da sensibilidade ao gosto), hipergeusia (aumento da sensibilidade), disgeusia (percepção desagradável do gosto) e fantogeusia (percepção de gosto na ausência de estímulo).
Embora não seja potencialmente fatal, a ageusia pode causar impacto clínico relevante, como diminuição do apetite, perda de peso e prejuízo na qualidade de vida, além de possíveis repercussões psicológicas.
Etiologia da Ageusia
Causas neurológicas
Relacionadas a lesões nos nervos responsáveis pela gustação:
- Comprometimento do nervo lingual e do nervo glossofaríngeo;
- Neurites (ex.: herpes-zóster);
- Dissecção de artérias cervicais;
- Tumores no ângulo pontocerebelar (meningioma, neurinoma);
- Neoplasias da base do crânio;
- Neuralgias;
- Polineuropatias (ex.: difteria, porfiria, lúpus, amiloidose).
Causas sistêmicas e metabólicas
Doenças que afetam o organismo como um todo:
- Hipotireoidismo;
- Diabetes mellitus;
- Anemia perniciosa;
- Síndrome de Sjögren;
- Doença de Crohn.
Deficiências nutricionais
- Principal destaque: deficiência de zinco.
Causas iatrogênicas (relacionadas a intervenções médicas)
- Manipulações laringoscópicas;
- Radioterapia em cabeça e pescoço:
- Lesão das papilas gustativas;
- Dano aos nervos gustativos;
- Redução do fluxo salivar (lesão das glândulas salivares).
Causas locais (orais e estruturas adjacentes)
- Traumas (queimaduras, lacerações, cirurgias);
- Anestesia local;
- Infecções:
- Dentoalveolares;
- Periodontais;
- Tecidos moles.
- Doenças vesiculobolhosas;
- Próteses dentárias (parciais ou totais);
- Restaurações metálicas;
- Disfunção das glândulas salivares;
- Uso de agentes antiplaque.
Causas medicamentosas
Diversos fármacos podem causar ageusia como efeito adverso:
- Antibióticos (ex.: ampicilina, macrolídeos, metronidazol);
- Antineoplásicos;
- Fármacos neurológicos (antiparkinsonianos, estimulantes do SNC, medicamentos para enxaqueca);
- Cardiovasculares (anti-hipertensivos, diuréticos, estatinas, antiarrítmicos);
- Antipsicóticos e antidepressivos tricíclicos;
- Anti-histamínicos, broncodilatadores;
- Antifúngicos e antivirais.
Envelhecimento
- Alterações fisiológicas relacionadas à idade aumentam a vulnerabilidade à disfunção gustativa.
Fisiopatologia da Ageusia
Inicialmente, é importante considerar que o paladar depende da integridade das papilas gustativas, que contêm cerca de 10.000 botões gustativos distribuídos na língua, palato, faringe e epiglote. Esses botões possuem células sensoriais especializadas responsáveis por detectar os estímulos gustativos. Qualquer agressão a essas estruturas pode comprometer a percepção do gosto.
Um dos principais mecanismos fisiopatológicos é a lesão direta das células dos botões gustativos. Em pacientes submetidos à quimioterapia ou radioterapia, por exemplo, ocorre dano celular devido à alta taxa de renovação dessas células, podendo levar à sua degeneração ou morte. A radioterapia pode comprometer as glândulas salivares, reduzindo a produção de saliva, que é essencial para dissolver e transportar os estímulos gustativos até os receptores.
Processos inflamatórios ou infecciosos na cavidade oral também desempenham papel importante. Essas condições podem induzir a apoptose das células gustativas, reduzindo o número de receptores funcionais e prejudicando a detecção dos estímulos químicos. Além disso, podem interferir na função dos “pelos” quimiossensíveis presentes nos botões gustativos.
Outro mecanismo relevante é o comprometimento das vias neurais responsáveis pela condução do paladar. Lesões em nervos como a corda do tímpano (ramo do nervo facial), o nervo glossofaríngeo e o nervo vago podem ocorrer em cirurgias (otológicas, odontológicas, laringoscópicas ou tonsilectomia), traumas ou infecções. Essas lesões impedem a transmissão adequada dos impulsos gustativos ao sistema nervoso central.
Doenças sistêmicas, como síndrome de Sjögren, diabetes mellitus, hipertensão e distúrbios hepáticos, renais e tireoidianos, podem causar neuropatias ou alterar o ambiente oral, contribuindo para a perda do paladar. No envelhecimento, há redução da sensibilidade gustativa devido à diminuição das células gustativas, menor produção salivar e fatores como polifarmácia.
No nível central, os estímulos gustativos captados são transmitidos pelos nervos cranianos VII, IX e X até o núcleo do trato solitário no bulbo (núcleo gustativo). A partir daí, as informações seguem para diversas áreas cerebrais, como tálamo, hipotálamo, amígdala e córtex gustativo. Alterações em qualquer ponto dessas vias podem contribuir para a perda do paladar.
Manifestações clínicas da Ageusia
A principal manifestação é a perda completa da percepção dos sabores, o que leva o paciente a relatar incapacidade de identificar gostos básicos, como doce, salgado, azedo e amargo. Essa alteração pode impactar diretamente a alimentação e a percepção sensorial dos alimentos.
Durante a avaliação clínica, observa-se que o paciente pode apresentar dificuldade ou incapacidade de reconhecer e avaliar a intensidade dos diferentes sabores em testes específicos, como a quimiogustometria e a eletrogustometria. Nos testes com soluções gustativas ou tiras impregnadas, o indivíduo não consegue identificar corretamente os estímulos aplicados.
A avaliação também pode revelar alterações localizadas ou difusas da sensibilidade gustativa, detectadas por testes espaciais que analisam diferentes áreas da mucosa oral. Em alguns casos, a perda do paladar pode estar restrita a determinadas regiões da língua ou cavidade oral.
Além disso, a resposta ao uso de anestésico tópico pode ajudar na caracterização clínica. Quando há melhora da queixa após aplicação local, sugere-se uma origem periférica ou local. Quando a alteração persiste, levantam-se hipóteses de causas sistêmicas ou centrais.
Diagnóstico da Ageusia
O diagnóstico da ageusia baseia-se em uma abordagem complementar à anamnese e ao exame físico, incluindo avaliação psicofísica e exames de imagem.
A avaliação psicofísica é essencial para confirmar a queixa do paciente e quantificar o grau de perda do paladar, permitindo medir a extensão da disfunção gustativa. Além disso, deve-se considerar o estado psicológico, já que a depressão pode ser tanto consequência quanto fator contribuinte do distúrbio.
Os exames de imagem são utilizados para investigar a causa da ageusia, fornecendo informações anatômicas. Eles permitem identificar ou excluir lesões no sistema nervoso central, especialmente no tronco encefálico, tálamo e ponte.
Tratamento da Ageusia
O tratamento é direcionado principalmente à causa subjacente, uma vez que não existe uma terapia específica capaz de restaurar o paladar em todos os casos. Em algumas situações, o distúrbio pode ser autolimitado e apresentar resolução espontânea, sem necessidade de intervenção. Por isso, a identificação do fator etiológico é essencial para definir a conduta adequada.
Ageusia induzida por medicamentos e suplementação
Quando a ageusia está relacionada ao uso de medicamentos, especialmente quimioterápicos, pode haver reversão do quadro com a suspensão do agente causador. No entanto, essa interrupção nem sempre é possível, principalmente em pacientes com condições graves, como câncer, diabetes mellitus ou infecções importantes.
Nesses casos, estratégias adjuvantes podem ser utilizadas, como a suplementação com gluconato de zinco, especialmente em pacientes submetidos à quimioterapia ou radioterapia, e o uso de ácido alfa-lipoico por alguns meses, que pode contribuir para a recuperação da função gustativa.
Tratamento sintomático e condições associadas
Em pacientes que apresentam ageusia associada a outros distúrbios do paladar, como disgeusia ou síndrome da boca ardente, podem ser utilizados antidepressivos tricíclicos e clonazepam. Nos casos mais intensos, anestésicos tópicos, como a lidocaína em gel, podem ajudar no alívio dos sintomas, melhorando o conforto do paciente.
Lesões nervosas e xerostomia
Nos casos em que a ageusia decorre de lesão nervosa, como após traumas ou procedimentos cirúrgicos, não há tratamento específico disponível, e a evolução pode variar entre recuperação gradual ou persistência do quadro. Já nos pacientes com xerostomia, o uso de saliva artificial é uma opção terapêutica importante, pois melhora o ambiente oral e favorece a percepção dos estímulos gustativos.
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Referências
Rathee M, Jain P. Ageusia. [Updated 2023 Aug 7]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK549775/



