E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Síndrome da boca ardente, uma condição caracterizada pela sensação de queimação crônica na cavidade oral, geralmente sem alterações clínicas visíveis, podendo estar associada a fatores neuropáticos, hormonais ou psicológicos.
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Vamos nessa!
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Definição de Síndrome da boca ardente
A síndrome da boca ardente é uma condição clínica caracterizada por sensação de queimação ou ardor na mucosa oral sem alterações visíveis ao exame, com duração mínima de 4 a 6 meses. Trata-se de uma condição idiopática, ou seja, sem causa claramente definida, cujo diagnóstico é clínico e de exclusão, após afastar outras etiologias de dor oral.
Além da sensação de ardor, os pacientes podem apresentar alterações do paladar, como parageusia. A condição ocorre com maior frequência em mulheres no período peri ou pós-menopausa e pode estar associada a fatores como alterações neurossensoriais, distúrbios psiquiátricos e desregulação do ritmo circadiano, os quais influenciam a percepção da dor.
Classificação da Síndrome da boca ardente
A síndrome da boca ardente pode ser classificada, segundo Lamey e Lewis, em três tipos, com base na variação dos sintomas ao longo do dia:
O Tipo 1 caracteriza-se pela ausência de sintomas ao despertar, com piora progressiva da sensação de ardor ao longo do dia. Os sintomas podem variar durante a noite. Esse padrão está frequentemente associado a deficiências nutricionais ou condições endócrinas, como o diabetes mellitus.
O Tipo 2 apresenta sintomas contínuos durante todo o dia, sem períodos de alívio. Está comumente relacionado a ansiedade crônica e outros fatores psicológicos, sendo um dos tipos mais associados a transtornos emocionais.
O Tipo 3 é marcado por sintomas intermitentes, com períodos ao longo do dia em que o paciente pode ficar assintomático. Esse tipo pode estar associado a alergias alimentares, sendo essa uma possível explicação para a variabilidade dos sintomas.
Etiologia da Síndrome da boca ardente
A etiologia da síndrome da boca ardente (SBA) não é completamente compreendida, sendo considerada multifatorial, com a participação de diversos mecanismos locais e sistêmicos.
Um dos principais fatores envolvidos é a influência hormonal, já que a condição é mais prevalente em mulheres no período peri e pós-menopausa. A redução dos níveis de estrogênio pode levar à atrofia da mucosa oral, tornando-a mais suscetível a processos inflamatórios e ao surgimento da sensação de ardor.
Fatores infecciosos também podem estar implicados. Em alguns casos, infecções precedem o início dos sintomas, sendo frequentemente identificados microrganismos como Candida, Enterobacter, Fusospirochaetal, Helicobacter pylori e Klebsiella em pacientes com a síndrome.
Doenças sistêmicas, como o diabetes mellitus, também estão associadas, especialmente quando há neuropatia periférica, sugerindo um mecanismo neuropático para os sintomas em parte dos pacientes.
Além disso, há relação com agentes irritantes locais, incluindo materiais odontológicos (como mercúrio, amálgama, metilmetacrilato, cloreto de cobalto, zinco e peróxido de benzoíla) e também com alergias alimentares, como a amendoim, ácido sórbico, castanhas e canela.
Fatores neuropsiquiátricos desempenham papel importante, com forte associação com condições como depressão maior, ansiedade crônica e outros transtornos do humor. Em muitos casos, a síndrome pode coexistir com essas condições ou surgir após episódios agudos.
Outros fatores descritos incluem o uso de aparelhos ortodônticos, efeitos adversos de medicamentos, aumento de mediadores inflamatórios como a bradicinina e a presença de doenças dermatológicas associadas.
Fisiopatologia da Síndrome da boca ardente
A fisiopatologia da síndrome da boca ardente (SBA) ainda não está totalmente esclarecida, sendo provavelmente resultado da interação entre mecanismos neuropáticos e psicogênicos.
Do ponto de vista neurológico, acredita-se que a dor esteja relacionada a alterações na condução sensitiva ao longo do território do nervo trigêmeo, com evidências de alterações histopatológicas em fibras nociceptivas. Além disso, há indícios de disfunção sensorial, com mudanças na percepção do paladar e das sensações térmicas (calor e frio). Um dos mecanismos propostos envolve a hipofunção da corda do tímpano, levando à diminuição do paladar e, consequentemente, à hiperatividade reflexa do nervo lingual, gerando a sensação de ardor.
Outras hipóteses incluem mecanismos semelhantes aos da dor fantasma e a presença de neuropatia de pequenas fibras, reforçando o caráter neuropático da condição. A xerostomia frequentemente relatada pelos pacientes parece estar mais relacionada à disfunção neural do que propriamente a alterações das glândulas salivares.
Fatores sistêmicos e ambientais também contribuem para a fisiopatologia, como alterações do ritmo circadiano, disfunções do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, ansiedade crônica, diabetes mellitus, infecções e exposição a irritantes locais.
Além disso, microtraumas mecânicos, como bruxismo, apertamento dentário e hábitos como pressionar a língua contra estruturas orais, podem atuar como fatores desencadeantes. Por fim, condições psiquiátricas, especialmente ansiedade e depressão, tendem a agravar e perpetuar os sintomas, desempenhando papel importante na modulação da dor.
Manifestações clínicas da Síndrome da boca ardente
As manifestações clínicas são predominantemente sensoriais e ocorrem na ausência de lesões visíveis na mucosa oral, o que é um critério fundamental para o diagnóstico.
O principal sintoma é uma dor em queimação de caráter profundo, geralmente bilateral, que se manifesta diariamente e persiste por um período mínimo de 4 a 6 meses. Essa dor costuma apresentar intensidade constante ou progressiva ao longo do dia, sendo comum que o paciente acorde sem sintomas ou com sintomas leves, que pioram com o passar das horas.
Uma característica importante é que a dor não piora durante a alimentação, podendo inclusive melhorar ao comer ou beber, e não interfere no sono, o que ajuda a diferenciá-la de outras causas de dor orofacial.
Além da sensação de ardor, são frequentes sintomas associados, como:
- Alterações do paladar (disgeusia), sendo comum a percepção de gosto metálico ou amargo;
- Xerostomia (sensação de boca seca), mesmo sem redução objetiva do fluxo salivar;
- Alterações sensoriais ou quimiossensoriais, como mudanças na percepção de temperatura ou sabor.
Também é comum a presença de comorbidades psicológicas, como ansiedade, depressão e outros transtornos do humor, que podem influenciar a intensidade e a persistência dos sintomas.
Diagnóstico da Síndrome da boca ardente
A avaliação inicia-se com uma anamnese detalhada, com caracterização da dor quanto à intensidade, duração e padrão ao longo do dia, além da investigação de doenças associadas, uso de medicamentos e histórico de próteses orais.
O exame físico da cavidade oral é fundamental e deve demonstrar mucosa com aspecto normal, sem lesões, o que é um critério essencial para o diagnóstico.
A investigação complementar inclui avaliação do estado psicológico, considerando a frequente associação com ansiedade e depressão. Também é importante medir o fluxo salivar e avaliar a função gustativa por métodos objetivos.
Deve-se realizar exame neurológico e, quando indicado, exames de imagem para excluir doenças neurológicas. Culturas orais podem ser solicitadas para descartar infecções bacterianas, fúngicas ou virais. Em casos selecionados, testes alérgicos são úteis.
Outras avaliações incluem investigação de doença do refluxo gastroesofágico e exclusão de alterações hormonais, doenças autoimunes e deficiências nutricionais.
A biópsia não é indicada quando a mucosa oral é normal, sendo reservada apenas para situações em que há lesões visíveis.
Tratamento da Síndrome da boca ardente
O tratamento da síndrome da boca ardente (SBA) é complexo e, em geral, envolve a combinação de diferentes abordagens. É importante orientar o paciente de que nem sempre é possível alcançar remissão completa, sendo o foco principal o controle dos sintomas.
Medicações tópicas
As terapias tópicas atuam diretamente na mucosa oral, com o objetivo de reduzir a dor local. A capsaicina tópica tem efeito dessensibilizante sobre fibras nervosas e pode aliviar o ardor, embora possa causar piora inicial dos sintomas e desconfortos gastrointestinais.
O clonazepam tópico, utilizado por meio da dissolução do comprimido na boca, apresenta bons resultados na redução da dor, porém pode levar à recorrência dos sintomas após sua suspensão, além de efeitos adversos como fadiga e xerostomia.
Outras opções incluem substâncias não convencionais, como enxaguantes com pimenta diluída, além do uso de aloe vera, que pode contribuir para a melhora dos sintomas. Anestésicos locais, como a lidocaína, têm efeito apenas temporário e não são eficazes no tratamento prolongado.
Medicações sistêmicas
As medicações sistêmicas são indicadas principalmente nos casos mais persistentes ou com componente neuropático importante. O clonazepam oral, em baixas doses, pode reduzir a dor, embora não atue sobre alterações do paladar ou sintomas psicológicos, sendo mais indicado para uso de curto prazo.
A capsaicina por via oral também pode ser utilizada, mas seu uso é limitado pelos efeitos adversos, especialmente gastrointestinais.
Antidepressivos tricíclicos, como amitriptilina e nortriptilina, podem ajudar no controle da dor crônica, apesar de poderem agravar a sensação de boca seca. Já os inibidores seletivos da recaptação de serotonina, como sertralina, paroxetina e duloxetina, mostram benefício principalmente quando há associação com transtornos de humor.
Antipsicóticos como amisulprida e levosulpirida também demonstram eficácia em alguns casos. A suplementação de vitaminas do complexo B, ácido fólico e minerais pode ser útil, especialmente em pacientes com deficiências nutricionais. Em mulheres no período peri ou pós-menopausa, a terapia de reposição hormonal pode contribuir para a redução dos sintomas.
Modulação comportamental
A terapia cognitivo-comportamental é uma estratégia importante, especialmente nos pacientes com fatores psicológicos associados. Técnicas como relaxamento, respiração controlada e reestruturação cognitiva ajudam a reduzir a percepção da dor e a modificar pensamentos disfuncionais relacionados aos sintomas.
Terapia com laser de baixa intensidade
A terapia com laser de baixa intensidade tem sido utilizada como alternativa no tratamento da SBA. Seu efeito está relacionado à modulação de mediadores químicos da dor e à inibição da transmissão dos estímulos dolorosos. Embora apresente resultados promissores, ainda não há padronização quanto ao seu uso clínico.
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Referências
Bookout GP, Ladd M, Short RE. Burning Mouth Syndrome. [Updated 2023 Jan 29]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK519529/



