E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Amnésia Global Transitória, uma condição caracterizada por perda súbita e temporária da memória recente, sem outros déficits neurológicos significativos, geralmente com resolução completa em até 24 horas.
O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.
Vamos nessa!
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Definição de Amnésia global transitória
A amnésia global transitória (AGT) é uma síndrome neurológica benigna caracterizada pela instalação súbita de perda importante da memória, principalmente anterógrada (incapacidade de formar novas memórias), podendo haver também comprometimento mais leve da memória retrógrada, sem outros déficits neurológicos ou cognitivos significativos.
Trata-se de um quadro transitório, com duração de algumas horas e resolução completa em até 24 horas, no qual o paciente permanece consciente, mantém identidade pessoal e habilidades cognitivas globais preservadas, embora apresente confusão e desorientação durante o episódio.
A etiologia não é completamente definida, mas está relacionada a uma disfunção transitória do hipocampo, podendo ser desencadeada por fatores como estresse emocional, dor intensa ou esforço físico.
Etiologias da Amnésia global transitória
A etiologia da amnésia global transitória (AGT) ainda não está completamente esclarecida, sendo considerada multifatorial e, em muitos casos, idiopática. No entanto, diversos mecanismos e fatores desencadeantes têm sido propostos com base em evidências clínicas e estudos observacionais.
De forma geral, acredita-se que o evento central da AGT seja uma disfunção transitória do hipocampo, especialmente na região CA1, estrutura fundamental para a formação de novas memórias. Essa disfunção ocorre sem lesão permanente, o que explica a reversibilidade do quadro.
Entre os principais mecanismos fisiopatológicos sugeridos, destacam-se:
- Alterações vasculares transitórias: incluem hipóteses de isquemia focal breve ou congestão venosa cerebral, que poderiam comprometer temporariamente a função do hipocampo, sem causar dano estrutural permanente.
- Fenômenos relacionados à enxaqueca: a depressão cortical alastrante, mecanismo típico da enxaqueca, pode levar a uma disfunção temporária das áreas envolvidas na memória.
- Estresse metabólico neuronal: os neurônios do hipocampo (especialmente CA1) são altamente sensíveis a alterações metabólicas, o que pode desencadear disfunção transitória em situações de estresse.
- Fatores psicogênicos: eventos emocionais intensos podem atuar como gatilhos, possivelmente por meio de alterações neuroendócrinas e excitação do sistema límbico.
Além desses mecanismos, existem fatores desencadeantes frequentemente associados, embora não causais diretos:
- Estresse emocional intenso;
- Esforço físico vigoroso;
- Dor aguda;
- Mudanças bruscas de temperatura (ex.: imersão em água fria ou quente);
- Manobras do tipo Valsalva.
Manifestações clínicas da Amnésia global transitória
O quadro típico inicia-se de forma súbita, com um comprometimento marcante da memória recente. A principal manifestação é a amnésia anterógrada, ou seja, o paciente é incapaz de formar novas memórias durante o episódio. Isso faz com que ele repita perguntas constantemente (ex.: “onde estou?”, “o que aconteceu?”), pois não consegue reter as respostas.
Além disso, pode haver uma amnésia retrógrada leve a moderada, afetando eventos imediatamente anteriores ao início do quadro, embora memórias mais antigas geralmente permaneçam preservadas.
Durante o episódio, é comum observar:
- Confusão e desorientação temporal e espacial;
- Ansiedade ou angústia, pela percepção de que algo está errado;
- Comportamento repetitivo, especialmente perguntas reiteradas;
Apesar disso, algumas funções permanecem preservadas, o que é um ponto-chave para o diagnóstico:
- Consciência mantida;
- Identidade pessoal preservada;
- Linguagem e habilidades motoras intactas;
- Capacidade de realizar atividades habituais simples.
Podem ocorrer ainda sintomas associados, como cefaleia, tontura, náuseas ou sensação de mal-estar, embora não sejam obrigatórios.
A duração do quadro é limitada: os sintomas costumam persistir por algumas horas, com resolução completa em até 24 horas. Após o episódio, o paciente recupera a memória, mas frequentemente permanece uma lacuna amnésica referente ao período do evento.
Diagnóstico da Amnésia geral transitória
O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na história e no exame físico, sendo fundamental a exclusão de outras causas de amnésia aguda, especialmente condições potencialmente graves como acidente vascular cerebral (AVC) e epilepsia.
A avaliação inicial deve focar nas características típicas do quadro: início súbito de amnésia, principalmente anterógrada, com preservação da consciência, da identidade pessoal e das demais funções cognitivas.
Para padronizar o diagnóstico, são frequentemente utilizados os critérios de Hodges e Warlow, que incluem:
- Presença de amnésia anterógrada durante o episódio;
- Comprometimento cognitivo limitado à memória;
- Ausência de alteração da consciência ou perda da identidade;
- Ausência de sinais neurológicos focais;
- Ausência de características sugestivas de crise epiléptica;
- Resolução completa do episódio em até 24 horas;
- Exclusão de trauma craniano recente ou epilepsia ativa.
Embora o diagnóstico seja clínico, os exames complementares são importantes para afastar diagnósticos diferenciais:
- Ressonância magnética (RM): é o exame de escolha; pode mostrar pequenas alterações no hipocampo, mas muitas vezes é normal;
- Tomografia computadorizada (TC): utilizada inicialmente, principalmente em contextos de urgência;
- Eletroencefalograma (EEG): indicado quando há suspeita de epilepsia;
- Outros exames (laboratoriais, líquor) podem ser solicitados conforme o caso clínico.
Tratamento da Amnésia global transitória
Inicialmente, a prioridade é a avaliação e monitorização do paciente, principalmente para excluir causas graves de amnésia aguda, como acidente vascular cerebral ou epilepsia. Por isso, muitos pacientes são observados em ambiente hospitalar até que o diagnóstico esteja bem estabelecido.
Durante o episódio, o manejo inclui:
- Acolhimento e orientação: explicar ao paciente (e familiares) o caráter transitório do quadro ajuda a reduzir ansiedade;
- Ambiente calmo e seguro, já que o paciente pode estar confuso e desorientado;
- Supervisão clínica, com reavaliações neurológicas periódicas;
Em relação a medidas específicas:
- Não há tratamento farmacológico específico para a AGT;
- Pode-se utilizar medicações ansiolíticas (como benzodiazepínicos) apenas se houver ansiedade importante, com cautela.
Após a resolução do quadro:
- O paciente geralmente recebe alta após regressão completa dos sintomas e exclusão de outras causas;
- Pode ser necessário seguimento ambulatorial, especialmente se houver dúvida diagnóstica;
- Orientação e tranquilização são fundamentais, reforçando o bom prognóstico e o baixo risco de recorrência.
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Referências
CATER, Eduarda de Oliveira et al. Amnésia global transitória: causas, manifestações clínicas e abordagem diagnóstica. Journal of Medical and Biosciences Research, v. 2, n. 2, p. 55–64, 2025. DOI: https://doi.org/10.70164/jmbr.v2i2.569.
COSTA, Agnaldo Rodrigues da et al. Amnésia global transitória: guia do episódio de cuidado. 2023. Documento institucional (protocolo clínico).
SPIEGEL, David R. et al. Transient global amnesia: current perspectives. Neuropsychiatric Disease and Treatment, v. 13, p. 2691–2703, 2017. DOI: http://dx.doi.org/10.2147/NDT.S130710.



