Resumo sobre Ataque isquêmico transitório: definição, manifestações clínicas e mais!
Fonte: Freepik

Resumo sobre Ataque isquêmico transitório: definição, manifestações clínicas e mais!

E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é o Ataque Isquêmico Transitório (AIT), uma condição caracterizada por déficit neurológico focal de início súbito e duração limitada, sem evidência de infarto cerebral, geralmente causado por isquemia cerebral transitória.

O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.

Vamos nessa!

Definição de Ataque Isquêmico Transitório

O Ataque Isquêmico Transitório (AIT) é definido como um episódio transitório de disfunção neurológica causado por isquemia focal do encéfalo, medula espinhal ou retina, sem evidência de infarto agudo.

Trata-se de um evento em que há redução temporária do fluxo sanguíneo cerebral, levando a sintomas neurológicos súbitos que se resolvem completamente, sem dano tecidual permanente identificável por métodos de imagem.

Apesar da resolução dos sintomas, o AIT tem grande relevância clínica por ser um marcador de alto risco para acidente vascular cerebral isquêmico futuro, exigindo avaliação e manejo urgentes.

Descubra como as bancas cobram na prática!

Conheça o Banco de Questões!

Epidemiologia do Ataque Isquêmico Transitório

É um problema neurológico relativamente comum, com prevalência de cerca de 2,3% em adultos nos Estados Unidos. A incidência varia conforme a população, sendo aproximadamente 1,19 por 1000 pessoas-ano, com aumento importante em idosos. Mundialmente, varia entre 0,4 e 1,22 por 1000 pessoas-ano.

Principais padrões epidemiológicos:

  • Aumenta com a idade;
  • Mais frequente em homens;
  • Maior incidência em indivíduos negros .

Além disso, há provável subestimação dos casos, devido à baixa procura por atendimento e variações nos critérios diagnósticos .

Mecanismos e manifestações clínicas

O AIT deve ser entendido como uma síndrome clínica, podendo resultar de diferentes mecanismos fisiopatológicos. As manifestações variam conforme o tipo de comprometimento vascular e o território acometido.

AIT embólico

Ocorre pela oclusão transitória de um vaso cerebral por um êmbolo, que pode se originar do coração, arco aórtico ou de artérias extracranianas/intracranianas (como em aterosclerose ou dissecção) .

Características clínicas:

  • Início súbito;
  • Episódios geralmente mais prolongados (podendo durar horas);
  • Em geral não estereotipados;
  • Podem acometer diferentes territórios em episódios distintos, dependendo do destino do êmbolo.

Manifestações por território:

  • Circulação anterior:
    • Hemiparesia ou hemiplegia contralateral;
    • Déficits sensitivos;
    • Afasia (quando hemisfério dominante);
    • Negligência ou anosognosia (hemisfério não dominante).
  • Circulação posterior:
    • Tontura ou vertigem;
    • Diplopia;
    • Disartria;
    • Ataxia;
    • Alterações visuais (como hemianopsia).
  • Sintomas visuais específicos:
    • Perda visual monocular transitória (amaurose fugaz), frequentemente associada à doença da carótida interna.

AIT lacunar (pequenos vasos)

Decorre da oclusão de artérias penetrantes, geralmente por lipohialinose ou aterotrombose .

Características clínicas:

  • Episódios geralmente breves;
  • Frequentemente repetitivos e estereotipados;
  • Podem preceder um infarto lacunar;
  • Em alguns casos, evolução em padrão progressivo (“em degraus”).

Manifestações típicas:

  • Déficit motor puro (face, braço e perna);
  • Déficit sensitivo puro;
  • Quadros compatíveis com síndromes lacunares clássicas (ex.: motor puro, sensitivo puro ou misto).

AIT hemodinâmico (baixo fluxo)

Relaciona-se à redução da perfusão cerebral, geralmente por estenose significativa de grandes artérias .

Características clínicas:

  • Episódios podem ser repetitivos e estereotipados;
  • Associados a situações de queda de perfusão;
  • Frequentemente ocorrem em territórios de fronteira vascular.

Manifestações:

  • Déficits neurológicos focais variáveis, dependendo da área hipoperfundida;
  • Podem simular outros subtipos de AIT.

Diagnóstico de Ataque Isquêmico Transitório

A avaliação do AIT tem como finalidade confirmar que o evento foi de origem isquêmica, excluir diagnósticos alternativos e identificar a causa subjacente, permitindo direcionar a prevenção secundária.

Nesse contexto, os principais objetivos são:

  • Confirmar a origem vascular dos sintomas, seja por evidência direta (infarto na imagem) ou indireta (hipoperfusão ou fonte embólica);
  • Excluir causas não isquêmicas, como crises epilépticas ou enxaqueca;
  • Determinar o mecanismo vascular, como:
    • aterosclerose de grandes vasos;
    • cardioembolismo;
    • doença de pequenos vasos;
  • Estratificar o risco prognóstico, especialmente o risco precoce de AVC.

Neuroimagem

A neuroimagem é um passo fundamental na avaliação e deve ser realizada precocemente (idealmente em até 24 horas).

O exame preferencial é:

  • Ressonância magnética com difusão (DWI), por sua maior sensibilidade na detecção de pequenos infartos.

Quando a RM não está disponível:

  • Pode-se utilizar tomografia de crânio, preferencialmente associada à angiotomografia.

De forma geral:

  • A presença de lesão isquêmica pode redefinir o quadro como AVC;
  • A ausência de lesão não exclui AIT, reforçando o caráter clínico do diagnóstico.

Avaliação vascular cervicocefálica

A investigação dos vasos cervicais e intracranianos é essencial para identificar lesões ateroscleróticas potencialmente tratáveis.

Os principais métodos incluem:

  • Ultrassonografia de carótidas;
  • Doppler transcraniano;
  • Angiorressonância;
  • Angiotomografia.

Em pacientes candidatos à endarterectomia carotídea:

  • A avaliação deve ser realizada preferencialmente dentro da primeira semana após o evento.

Avaliação cardíaca

A avaliação cardíaca tem como objetivo identificar uma possível fonte cardioembólica, o que impacta diretamente na conduta terapêutica.

Deve incluir:

  • Eletrocardiograma (ECG);
  • Ecocardiograma, podendo ser:
    • transtorácico;
    • transesofágico.

Essa investigação permite detectar:

  • Fibrilação atrial;
  • Forame oval patente;
  • Trombos intracardíacos;
  • Doença valvar;
  • Aterosclerose da aorta.

Além disso, em casos selecionados:

  • Pode-se indicar monitorização prolongada (Holter) para investigação de fibrilação atrial paroxística.

Exames laboratoriais

Os exames laboratoriais auxiliam na avaliação global do paciente e na identificação de fatores de risco ou diagnósticos diferenciais.

Devem ser considerados:

  • Hemograma completo;
  • Coagulograma (PT/INR);
  • Perfil metabólico;
  • Glicemia;
  • Perfil lipídico;
  • Triagem toxicológica urinária;
  • Velocidade de hemossedimentação.

Estratificação de risco: ABCD²

A estratificação de risco é parte essencial da avaliação, sendo o escore ABCD² amplamente utilizado para estimar o risco precoce de AVC.

Ele inclui:

  • Idade ≥ 60 anos;
  • Pressão arterial elevada;
  • Características clínicas:
    • fraqueza focal;
    • distúrbio da fala;
  • Duração dos sintomas;
  • Presença de diabetes.

De forma prática:

  • Escore ≥ 4:
    • maior risco;
    • geralmente indica internação e avaliação urgente;
  • Escore baixo:
    • não exclui risco;
    • ainda requer investigação rápida.

Tratamento do Ataque Isquêmico Transitório

O AIT deve ser encarado como uma emergência neurológica, pois está associado a alto risco de AVC precoce. Dessa forma, o tratamento tem como objetivo principal prevenir recorrência e progressão para AVC isquêmico.

A abordagem deve ser:

  • Precoce (idealmente nas primeiras 24 horas);
  • Direcionada ao mecanismo etiológico identificado;
  • Baseada na estratificação de risco.

Medidas iniciais

Após a suspeita ou confirmação de AIT, algumas medidas devem ser iniciadas rapidamente, mesmo antes da definição etiológica completa:

  • Início de terapia antitrombótica (na ausência de contraindicações);
  • Controle de fatores de risco;
  • Definição de necessidade de internação (ex.: pacientes de maior risco pelo ABCD²).

Essas medidas reduzem significativamente o risco de AVC nos dias subsequentes.

Terapia antitrombótica

A escolha da terapia depende do mecanismo do AIT.

a) AIT não cardioembólico (aterotrombótico ou lacunar):

  • Preferir antiagregantes plaquetários, como:
    • Ácido acetilsalicílico;
    • Clopidogrel;
  • Em alguns casos selecionados, pode-se considerar dupla antiagregação por curto período.

b) AIT cardioembólico:

  • Indicação de anticoagulação, especialmente em:
    • Fibrilação atrial;
    • Trombo intracardíaco;
  • A escolha do anticoagulante depende do perfil do paciente.

Tratamento de lesões vasculares

A identificação de doença aterosclerótica significativa, especialmente em carótidas, tem implicações terapêuticas importantes.

  • Em casos de estenose carotídea significativa:
    • Considerar endarterectomia carotídea;
    • Idealmente realizada precocemente (até 1 semana) em pacientes elegíveis.
  • Alternativas:
    • Angioplastia com stent em casos selecionados.

Controle de fatores de risco

O manejo dos fatores de risco é essencial na prevenção secundária:

  • Hipertensão arterial → controle rigoroso;
  • Diabetes mellitus → controle glicêmico;
  • Dislipidemia → uso de estatinas;
  • Tabagismo → cessação;
  • Estilo de vida:
    • dieta adequada;
    • atividade física.

Conduta baseada no risco

A estratificação com o ABCD² auxilia na decisão inicial:

  • Escore ≥ 4:
    • Maior risco de AVC precoce;
    • Geralmente indica internação e investigação imediata;
  • Escore baixo:
    • Ainda requer avaliação rápida e completa;
    • Pode ser conduzido ambulatorialmente em serviços estruturados.

Abordagem prática

Na prática, o tratamento do AIT segue uma sequência lógica:

  • Iniciar terapia antitrombótica precoce;
  • Realizar investigação etiológica completa;
  • Definir mecanismo (cardioembólico vs não cardioembólico);
  • Tratar lesões vasculares quando indicado;
  • Controlar fatores de risco;
  • Definir necessidade de internação;
  • Instituir prevenção secundária a longo prazo.

Veja também!

Referências

ROST, Natalia S.; APARICIO, Hugo Javier. Initial evaluation and management of transient ischemic attack and minor ischemic stroke. Waltham: UpToDate, 2026. Disponível em: https://www.uptodate.com

ROST, Natalia S.; VOETSCH, Barbara. Definition, etiology, and clinical manifestations of transient ischemic attack. Waltham: UpToDate, 2025. Disponível em: https://www.uptodate.com

Panuganti KK, Tadi P, Lui F. Transient Ischemic Attack. [Updated 2023 Jul 17]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK459143/

Você pode gostar também