E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é o Ataque Isquêmico Transitório (AIT), uma condição caracterizada por déficit neurológico focal de início súbito e duração limitada, sem evidência de infarto cerebral, geralmente causado por isquemia cerebral transitória.
O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.
Vamos nessa!
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Definição de Ataque Isquêmico Transitório
O Ataque Isquêmico Transitório (AIT) é definido como um episódio transitório de disfunção neurológica causado por isquemia focal do encéfalo, medula espinhal ou retina, sem evidência de infarto agudo.
Trata-se de um evento em que há redução temporária do fluxo sanguíneo cerebral, levando a sintomas neurológicos súbitos que se resolvem completamente, sem dano tecidual permanente identificável por métodos de imagem.
Apesar da resolução dos sintomas, o AIT tem grande relevância clínica por ser um marcador de alto risco para acidente vascular cerebral isquêmico futuro, exigindo avaliação e manejo urgentes.
Epidemiologia do Ataque Isquêmico Transitório
É um problema neurológico relativamente comum, com prevalência de cerca de 2,3% em adultos nos Estados Unidos. A incidência varia conforme a população, sendo aproximadamente 1,19 por 1000 pessoas-ano, com aumento importante em idosos. Mundialmente, varia entre 0,4 e 1,22 por 1000 pessoas-ano.
Principais padrões epidemiológicos:
- Aumenta com a idade;
- Mais frequente em homens;
- Maior incidência em indivíduos negros .
Além disso, há provável subestimação dos casos, devido à baixa procura por atendimento e variações nos critérios diagnósticos .
Mecanismos e manifestações clínicas
O AIT deve ser entendido como uma síndrome clínica, podendo resultar de diferentes mecanismos fisiopatológicos. As manifestações variam conforme o tipo de comprometimento vascular e o território acometido.
AIT embólico
Ocorre pela oclusão transitória de um vaso cerebral por um êmbolo, que pode se originar do coração, arco aórtico ou de artérias extracranianas/intracranianas (como em aterosclerose ou dissecção) .
Características clínicas:
- Início súbito;
- Episódios geralmente mais prolongados (podendo durar horas);
- Em geral não estereotipados;
- Podem acometer diferentes territórios em episódios distintos, dependendo do destino do êmbolo.
Manifestações por território:
- Circulação anterior:
- Hemiparesia ou hemiplegia contralateral;
- Déficits sensitivos;
- Afasia (quando hemisfério dominante);
- Negligência ou anosognosia (hemisfério não dominante).
- Circulação posterior:
- Tontura ou vertigem;
- Diplopia;
- Disartria;
- Ataxia;
- Alterações visuais (como hemianopsia).
- Sintomas visuais específicos:
- Perda visual monocular transitória (amaurose fugaz), frequentemente associada à doença da carótida interna.
AIT lacunar (pequenos vasos)
Decorre da oclusão de artérias penetrantes, geralmente por lipohialinose ou aterotrombose .
Características clínicas:
- Episódios geralmente breves;
- Frequentemente repetitivos e estereotipados;
- Podem preceder um infarto lacunar;
- Em alguns casos, evolução em padrão progressivo (“em degraus”).
Manifestações típicas:
- Déficit motor puro (face, braço e perna);
- Déficit sensitivo puro;
- Quadros compatíveis com síndromes lacunares clássicas (ex.: motor puro, sensitivo puro ou misto).
AIT hemodinâmico (baixo fluxo)
Relaciona-se à redução da perfusão cerebral, geralmente por estenose significativa de grandes artérias .
Características clínicas:
- Episódios podem ser repetitivos e estereotipados;
- Associados a situações de queda de perfusão;
- Frequentemente ocorrem em territórios de fronteira vascular.
Manifestações:
- Déficits neurológicos focais variáveis, dependendo da área hipoperfundida;
- Podem simular outros subtipos de AIT.
Diagnóstico de Ataque Isquêmico Transitório
A avaliação do AIT tem como finalidade confirmar que o evento foi de origem isquêmica, excluir diagnósticos alternativos e identificar a causa subjacente, permitindo direcionar a prevenção secundária.
Nesse contexto, os principais objetivos são:
- Confirmar a origem vascular dos sintomas, seja por evidência direta (infarto na imagem) ou indireta (hipoperfusão ou fonte embólica);
- Excluir causas não isquêmicas, como crises epilépticas ou enxaqueca;
- Determinar o mecanismo vascular, como:
- aterosclerose de grandes vasos;
- cardioembolismo;
- doença de pequenos vasos;
- Estratificar o risco prognóstico, especialmente o risco precoce de AVC.
Neuroimagem
A neuroimagem é um passo fundamental na avaliação e deve ser realizada precocemente (idealmente em até 24 horas).
O exame preferencial é:
- Ressonância magnética com difusão (DWI), por sua maior sensibilidade na detecção de pequenos infartos.
Quando a RM não está disponível:
- Pode-se utilizar tomografia de crânio, preferencialmente associada à angiotomografia.
De forma geral:
- A presença de lesão isquêmica pode redefinir o quadro como AVC;
- A ausência de lesão não exclui AIT, reforçando o caráter clínico do diagnóstico.
Avaliação vascular cervicocefálica
A investigação dos vasos cervicais e intracranianos é essencial para identificar lesões ateroscleróticas potencialmente tratáveis.
Os principais métodos incluem:
- Ultrassonografia de carótidas;
- Doppler transcraniano;
- Angiorressonância;
- Angiotomografia.
Em pacientes candidatos à endarterectomia carotídea:
- A avaliação deve ser realizada preferencialmente dentro da primeira semana após o evento.
Avaliação cardíaca
A avaliação cardíaca tem como objetivo identificar uma possível fonte cardioembólica, o que impacta diretamente na conduta terapêutica.
Deve incluir:
- Eletrocardiograma (ECG);
- Ecocardiograma, podendo ser:
- transtorácico;
- transesofágico.
Essa investigação permite detectar:
- Fibrilação atrial;
- Forame oval patente;
- Trombos intracardíacos;
- Doença valvar;
- Aterosclerose da aorta.
Além disso, em casos selecionados:
- Pode-se indicar monitorização prolongada (Holter) para investigação de fibrilação atrial paroxística.
Exames laboratoriais
Os exames laboratoriais auxiliam na avaliação global do paciente e na identificação de fatores de risco ou diagnósticos diferenciais.
Devem ser considerados:
- Hemograma completo;
- Coagulograma (PT/INR);
- Perfil metabólico;
- Glicemia;
- Perfil lipídico;
- Triagem toxicológica urinária;
- Velocidade de hemossedimentação.
Estratificação de risco: ABCD²
A estratificação de risco é parte essencial da avaliação, sendo o escore ABCD² amplamente utilizado para estimar o risco precoce de AVC.
Ele inclui:
- Idade ≥ 60 anos;
- Pressão arterial elevada;
- Características clínicas:
- fraqueza focal;
- distúrbio da fala;
- Duração dos sintomas;
- Presença de diabetes.
De forma prática:
- Escore ≥ 4:
- maior risco;
- geralmente indica internação e avaliação urgente;
- Escore baixo:
- não exclui risco;
- ainda requer investigação rápida.
Tratamento do Ataque Isquêmico Transitório
O AIT deve ser encarado como uma emergência neurológica, pois está associado a alto risco de AVC precoce. Dessa forma, o tratamento tem como objetivo principal prevenir recorrência e progressão para AVC isquêmico.
A abordagem deve ser:
- Precoce (idealmente nas primeiras 24 horas);
- Direcionada ao mecanismo etiológico identificado;
- Baseada na estratificação de risco.
Medidas iniciais
Após a suspeita ou confirmação de AIT, algumas medidas devem ser iniciadas rapidamente, mesmo antes da definição etiológica completa:
- Início de terapia antitrombótica (na ausência de contraindicações);
- Controle de fatores de risco;
- Definição de necessidade de internação (ex.: pacientes de maior risco pelo ABCD²).
Essas medidas reduzem significativamente o risco de AVC nos dias subsequentes.
Terapia antitrombótica
A escolha da terapia depende do mecanismo do AIT.
a) AIT não cardioembólico (aterotrombótico ou lacunar):
- Preferir antiagregantes plaquetários, como:
- Ácido acetilsalicílico;
- Clopidogrel;
- Em alguns casos selecionados, pode-se considerar dupla antiagregação por curto período.
b) AIT cardioembólico:
- Indicação de anticoagulação, especialmente em:
- Fibrilação atrial;
- Trombo intracardíaco;
- A escolha do anticoagulante depende do perfil do paciente.
Tratamento de lesões vasculares
A identificação de doença aterosclerótica significativa, especialmente em carótidas, tem implicações terapêuticas importantes.
- Em casos de estenose carotídea significativa:
- Considerar endarterectomia carotídea;
- Idealmente realizada precocemente (até 1 semana) em pacientes elegíveis.
- Alternativas:
- Angioplastia com stent em casos selecionados.
Controle de fatores de risco
O manejo dos fatores de risco é essencial na prevenção secundária:
- Hipertensão arterial → controle rigoroso;
- Diabetes mellitus → controle glicêmico;
- Dislipidemia → uso de estatinas;
- Tabagismo → cessação;
- Estilo de vida:
- dieta adequada;
- atividade física.
Conduta baseada no risco
A estratificação com o ABCD² auxilia na decisão inicial:
- Escore ≥ 4:
- Maior risco de AVC precoce;
- Geralmente indica internação e investigação imediata;
- Escore baixo:
- Ainda requer avaliação rápida e completa;
- Pode ser conduzido ambulatorialmente em serviços estruturados.
Abordagem prática
Na prática, o tratamento do AIT segue uma sequência lógica:
- Iniciar terapia antitrombótica precoce;
- Realizar investigação etiológica completa;
- Definir mecanismo (cardioembólico vs não cardioembólico);
- Tratar lesões vasculares quando indicado;
- Controlar fatores de risco;
- Definir necessidade de internação;
- Instituir prevenção secundária a longo prazo.
Veja também!
- Resumo de AVCi
- Caso Clínico de AVC Hemorrágico: como identificar, tratamento e mais!
- Resumo sobre Síndrome da vasocontrição cerebral reversível: definição, fisiopatologia e mais!
- Resumo sobre Ataxia: definição, manifestações clínicas e mais!
- Resumo sobre Disartria: o que é, classificação e mais!
- Nervos cranianos: os doze pares de nervos
Referências
ROST, Natalia S.; APARICIO, Hugo Javier. Initial evaluation and management of transient ischemic attack and minor ischemic stroke. Waltham: UpToDate, 2026. Disponível em: https://www.uptodate.com.
ROST, Natalia S.; VOETSCH, Barbara. Definition, etiology, and clinical manifestations of transient ischemic attack. Waltham: UpToDate, 2025. Disponível em: https://www.uptodate.com.
Panuganti KK, Tadi P, Lui F. Transient Ischemic Attack. [Updated 2023 Jul 17]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK459143/



