Resumo sobre cefaléia tensional na infância: definição, manifestações clínicas e mais!
Fonte: Magnific

Resumo sobre cefaléia tensional na infância: definição, manifestações clínicas e mais!

E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a cefaleia tensional na infância, uma das formas mais comuns de dor de cabeça primária em crianças e adolescentes, caracterizada por dores bilaterais em aperto ou pressão, de intensidade leve a moderada, que afetam diretamente a qualidade de vida e o rendimento escolar.

O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.

Vamos nessa!

Definição da cefaleia tensional na infância

A cefaléia do tipo tensional é uma das formas mais prevalentes de dor de cabeça primária na infância e adolescência, sendo caracterizada por uma dor tipicamente bilateral, com sensação de pressão ou aperto (não pulsátil) e de intensidade leve a moderada. Diferente da enxaqueca, essa dor não costuma piorar com atividades físicas rotineiras e apresenta duração bastante variável, podendo durar de 30 minutos a até 7 dias, com episódios típicos de 4 a 6 horas em crianças.

De acordo com a Classificação Internacional das Cefaleias (ICHD-3), o quadro é subdividido em episódico infrequente (menos de 1 dia por mês), episódico frequente (de 1 a 14 dias por mês) e crônico, quando os sintomas ocorrem por 15 ou mais dias por mês por um período superior a três meses. Essa diferenciação temporal é fundamental para guiar o diagnóstico e a estruturação de uma abordagem terapêutica adequada.

Apesar de ser habitualmente menos incapacitante que a enxaqueca em crises isoladas, a persistência ou alta frequência das crises tensionais pode comprometer significativamente o bem-estar, o rendimento escolar e a qualidade de vida da criança e de sua família.

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Etiologia da cefaleia tensional na infância

A cefaléia do tipo tensional na infância possui uma etiologia multifatorial e complexa. Seu desenvolvimento resulta da combinação entre mecanismos neurofisiológicos e miofasciais, predisposição genética e fatores de estresse psicossocial e ambiental.

Os principais fatores de risco e desencadeantes incluem:

  • Mecanismos neurofisiológicos e miofasciais: sensibilização de nociceptores periféricos nas estruturas miofasciais cranianas e cervicais, associada à sensibilização central no núcleo trigeminocervical e à disfunção nos mecanismos descendentes de modulação da dor.
  • Fatores psicossociais e estressores ambientais: estresse escolar, relações familiares disfuncionais e vivência de experiências adversas na infância, como negligência, conflitos parentais e abusos.
  • Comorbidades psíquicas e alteração emocional: presença de quadros de ansiedade, depressão e alexitimia condição em que a dificuldade de reconhecer e expressar emoções favorece a somatização da dor.
  • Alterações musculoesqueléticas locais: presença de disfunção da articulação temporomandibular (ATM) e hábitos associados, como o bruxismo.
  • Fatores genéticos e histórico familiar: interação entre vulnerabilidade genética e o ambiente, destacando-se que a ausência de histórico familiar de enxaqueca aumenta significativamente a chance de o quadro corresponder a uma CTT.

Em conjunto, esses componentes neuromusculares, psicológicos e ambientais atuam de forma sinérgica, promovendo a alteração na percepção da dor e contribuindo para a instalação e a manutenção da cefaleia tensional no público pediátrico.

Manifestações clínicas da cefaleia tensional na infância

A apresentação clínica da cefaleia tensional na infância possui traços bem distintos, o que ajuda a diferenciá-la de outros tipos de dores de cabeça, como a enxaqueca.

Perfil e localização da dor

A dor é tipicamente bilateral e traz uma sensação contínua de pressão ou aperto descrita muitas vezes como uma faixa ao redor da cabeça , sem o caráter pulsátil. A intensidade varia de leve a moderada, o que raramente impede a criança de realizar suas atividades habituais. 

Outro ponto fundamental é que a dor não piora com atividades físicas rotineiras, como caminhar ou subir escadas. Os episódios costumam durar de 4 a 6 horas na faixa pediátrica, embora possam variar entre 30 minutos e 7 dias.

Sintomas acompanhantes e ausências marcantes

Diferente de outras dores primárias, a cefaleia tensional caracteriza-se pela ausência de náuseas e vômitos. Além disso, não há presença simultânea de sensibilidade à luz (fotofobia) e ao barulho (fonofobia); quando muito, apenas um desses sintomas pode estar presente de forma isolada. 

A ausência de fotofobia e de náuseas é, inclusive, o achado de maior valor clínico para afastar o diagnóstico de enxaqueca e confirmar o quadro tensional em crianças.

Diagnóstico 

O diagnóstico da cefaleia do tipo tensional na infância é predominantemente clínico, apoiado em uma anamnese detalhada e em um exame físico e neurológico minucioso. Durante a consulta, é essencial aferir a pressão arterial, medir o peso e o perímetro cefálico, realizar o exame de fundo de olho (fundoscopia) e examinar a articulação temporomandibular (ATM), além de orientar a família a manter um diário da cefaleia para registrar a frequência, os gatilhos e a duração das dores.

A etapa inicial da avaliação consiste em afastar o diagnóstico de cefaleias secundárias pela busca ativa dos chamados sinais de alerta. Entre os principais achados de suspeição estão o início súbito ou em idade pré-escolar, a presença de papiledema ou déficits neurológicos focais, dores que despertam a criança à noite ou pioram ao tossir e realizar esforço, além de febre associada a sinais meningeos ou alterações no comportamento.

Superada a exclusão de causas secundárias, o maior desafio clínico torna-se a diferenciação em relação à enxaqueca, visto que as crianças frequentemente apresentam dificuldade para descrever o caráter exato da dor ou os sintomas associados. Nesse cenário, a localização bilateral da dor, aliada à ausência de náuseas e à ausência de fotofobia, consolidam-se como os achados clínicos de maior valor preditivo para confirmar o diagnóstico da CTT pediátrica.

Tratamento

O tratamento da cefaleia tensional na infância é multidisciplinar e estruturado de forma escalonada, tendo como foco principal o alívio da dor, a prevenção de novas crises e a promoção da qualidade de vida da criança e de sua família. Como não existe uma intervenção única, a abordagem combina modificações de hábitos, terapias comportamentais e uso racional de medicamentos.

Abordagens não farmacológicas

  • Ajustes no estilo de vida: constituem a base do tratamento e incluem manter uma rotina de sono regular (no mínimo 8 horas por noite), refeições balanceadas, redução no consumo de cafeína, limitação do tempo de telas e incentivo à prática de exercícios físicos. A hidratação adequada também é essencial, variando conforme a idade (de 1,2 L/dia na faixa de 4 a 8 anos até 2,6 L/dia em adolescentes).
  • Intervenções comportamentais e psicossociais: a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), as técnicas de relaxamento e o biofeedback (térmico ou eletromiográfico) demonstram excelente eficácia e aceitação na pediatria, auxiliando a criança no manejo do estresse e da ansiedade.

Abordagem farmacológica

  • Tratamento agudo: indicado para o alívio das crises pontuais de dor. O paracetamol (15–20 mg/kg por dose) é o medicamento de primeira escolha, podendo-se utilizar o ibuprofeno como alternativa. O uso de analgésicos deve ser rigorosamente controlado para evitar a cefaleia por uso excessivo de medicação.
  • Tratamento profilático: considerado quando as crises são muito frequentes, crônicas ou incapacitantes e as medidas não farmacológicas foram insuficientes. Sendo o uso em pediatria de caráter off-label, as opções incluem a amitriptilina em baixas doses (1 mg/kg/dia) como primeira linha profilática, o valproato de sódio para casos refratários e a suplementação preventiva de magnésio (200–300 mg, duas vezes ao dia).

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Referências

BAGLIONI, Valentina et al. Tension-Type Headache in Children and Adolescents. Life, v. 13, n. 3, art. 825, p. 1-13, 2023.

ONOFRI, Agnese et al. Primary headache epidemiology in children and adolescents: a systematic review and meta-analysis. The Journal of Headache and Pain, v. 24, n. 1, art. 8, p. 1-16, 2023.

PACHEVA, Iliyana et al. Evaluation of diagnostic and prognostic value of clinical characteristics of Migraine and Tension type headache included in the diagnostic criteria for children and adolescents in International Classification of Headache Disorders – second edition. International Journal of Clinical Practice, v. 66, n. 12, p. 1168-1177, 2012.

WÖBER-BINGÖL, Çiçek. Epidemiology of Migraine and Headache in Children and Adolescents. Current Pain and Headache Reports, v. 17, n. 6, art. 341, p. 1-11, 2013.

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