Resumo sobre Enterocolite Neutropênica: definição, fisiopatologia e mais!
Fonte: Freepik

Resumo sobre Enterocolite Neutropênica: definição, fisiopatologia e mais!

E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Enterocolite Neutropênica, uma complicação grave que acomete principalmente pacientes imunossuprimidos, especialmente aqueles em quimioterapia, caracterizada por inflamação e necrose da parede intestinal associadas à neutropenia profunda. 

O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.

Vamos nessa!

Definição de Enterocolite Neutropênica

A enterocolite neutropênica é uma condição inflamatória intestinal grave e potencialmente fatal que ocorre principalmente em pacientes imunossuprimidos, especialmente aqueles com neutropenia severa, geralmente secundária ao uso de quimioterapia citotóxica, radioterapia ou infiltração leucêmica.

Também conhecida como tiflíte, o termo tem origem no grego typhi, que significa “cego”, em referência ao ceco, local mais frequentemente acometido. A doença pode envolver não apenas o ceco, mas também a região ileal e o cólon ascendente.

Caracteriza-se por edema da parede intestinal, ulceração e hemorragia, decorrentes da lesão da mucosa intestinal associada à diminuição importante dos neutrófilos, o que compromete a resposta imune e favorece a progressão do processo inflamatório.

Trata-se de uma importante causa de morbidade e mortalidade em pacientes imunossuprimidos, exigindo alto grau de suspeição clínica e diagnóstico precoce devido ao seu potencial de rápida evolução e elevada taxa de mortalidade.

Conheça o curso mais completo para conquistar sua vaga na Residência Médica!

Prepare-se com o Estratégia MED!

Etiologia da Enterocolite Neutropênica

A etiologia da enterocolite neutropênica é multifatorial e envolve principalmente três fatores: lesão da mucosa intestinal, neutropenia e imunossupressão.

  • A lesão da mucosa, frequentemente causada por quimioterapia ou outras terapias citotóxicas, compromete a integridade da barreira intestinal. Quando associada à neutropenia, há redução da capacidade de defesa do organismo, favorecendo edema intestinal, dilatação vascular e ruptura da superfície mucosa, o que permite invasão bacteriana intramural.
  • A infecção, embora não seja critério diagnóstico obrigatório, tem papel importante na fisiopatologia. Diversos microrganismos já foram identificados, incluindo bactérias Gram negativas e Gram positivas, enterococos, fungos e vírus. Entre os patógenos descritos destacam-se Escherichia coli, Klebsiella pneumoniae, Enterobacter taylorae, Morganella morganii e Streptococcus viridans.
  • Agentes fúngicos também podem estar envolvidos, e estudos demonstram menor mortalidade em pacientes tratados com antifúngicos, reforçando sua relevância etiológica.

Fisiopatologia da Enterocolite Neutropênica

A fisiopatologia da enterocolite neutropênica está relacionada principalmente à neutropenia, que reduz a proteção da mucosa intestinal e facilita a invasão bacteriana da parede colônica. Esse processo pode levar a inflamação intensa, necrose e, em casos graves, perfuração intestinal.

O ceco é a região mais acometida, razão pela qual a doença também é chamada de tiflíte, embora possa se estender a outras partes do cólon. A vulnerabilidade da região ileocecal é atribuída à abundância de tecido linfoide, maior estase, maior capacidade de distensão e menor vascularização.

Agentes quimioterápicos como citosina arabinosídeo, etoposídeo, corticosteroides e taxanos desempenham papel importante ao causar lesão direta da mucosa, conhecida como mucosite, favorecendo distensão, necrose e alterações do peristaltismo. Radioterapia, infiltração leucêmica ou linfomatosa e hemorragia intramural associada à trombocitopenia também contribuem para o dano mucoso.

Manifestações clínicas da Enterocolite Neutropênica

As manifestações clínicas da enterocolite neutropênica geralmente aparecem em pacientes com neutropenia após quimioterapia intensiva. O quadro clássico é composto por neutropenia associada a febre e dor abdominal, que costuma surgir cerca de duas semanas após o início do tratamento antineoplásico.

O principal sintoma é a dor abdominal, frequentemente localizada no quadrante inferior direito devido ao acometimento predominante do ceco, mas podendo também ser difusa. Ao exame físico, é comum encontrar sensibilidade à palpação e, em alguns casos, dor à descompressão brusca.

Além da dor, outros sintomas gastrointestinais podem estar presentes:

  • Distensão abdominal;
  • Náuseas;
  • Anorexia;
  • Diarreia, com ou sem sangue.

A febre ocorre na maioria dos pacientes, porém pode estar ausente em indivíduos gravemente imunossuprimidos ou em uso de corticosteroides e outros agentes imunossupressores, o que pode dificultar o diagnóstico precoce.

Nos casos mais graves, podem surgir sinais de complicação, como distensão abdominal importante, ascite, sinais de peritonite, choque e rápida deterioração clínica. A presença desses achados sugere necrose intestinal ou perfuração, condições associadas a elevada mortalidade.

Diagnóstico de Enterocolite Neutropênica

O diagnóstico da enterocolite neutropênica é desafiador, principalmente pela ausência histórica de critérios bem definidos. Atualmente, com a ampla disponibilidade da tomografia computadorizada, os critérios tornaram-se mais padronizados. Trata-se, essencialmente, de um diagnóstico clínico, complementado por exames laboratoriais e de imagem.

Critérios clínicos principais

  • Febre, geralmente maior que 38,3 °C;
  • Dor abdominal;
  • Neutropenia, definida como contagem absoluta de neutrófilos menor que 500 células por microlitro;
  • Espessamento da parede intestinal identificado em exame de imagem, geralmente no ceco e cólon ascendente.

Critérios clínicos secundários

  • Distensão abdominal;
  • Cólicas;
  • Diarreia;
  • Sangramento gastrointestinal baixo.

Embora a confirmação definitiva pudesse ser feita por biópsia, esse procedimento raramente é realizado devido ao risco elevado nesses pacientes. Assim, o diagnóstico é estabelecido pela combinação dos achados clínicos, laboratoriais e radiológicos.

Radiografia simples de abdome

  • Pode mostrar ceco dilatado;
  • Presença de níveis hidroaéreos;
  • Gás intramural;
  • Dilatação de alças intestinais;
  • Possui baixa sensibilidade e especificidade.

Ultrassonografia

  • Detecta espessamento da parede intestinal;
  • Auxilia na exclusão de diagnósticos diferenciais como apendicite, invaginação intestinal, colecistite e pancreatite.

Tomografia computadorizada

  • Método mais utilizado;
  • Avalia espessamento da parede intestinal maior que 4 mm em extensão mínima de 30 mm;
  • Identifica nodularidade, pneumatoses e grau de distensão;
  • Auxilia na exclusão de outras causas de dor abdominal.

Tratamento da Enterocolite Neutropênica

O tratamento da enterocolite neutropênica deve ser iniciado precocemente e, na maioria dos casos, é inicialmente conservador. A abordagem envolve suporte intensivo, antibioticoterapia de amplo espectro e correção das alterações hematológicas, reservando a cirurgia para situações específicas.

Manejo clínico inicial

O tratamento começa com medidas de suporte hemodinâmico e metabólico:

  • Reposição volêmica agressiva;
  • Correção de distúrbios hidroeletrolíticos;
  • Repouso intestinal;
  • Descompressão abdominal quando indicada;
  • Nutrição parenteral total, se necessário.

Também é essencial corrigir trombocitopenia e coagulopatias, geralmente por meio de transfusão de hemocomponentes, especialmente em pacientes com sangramento ou risco cirúrgico.

Antibioticoterapia

A antibioticoterapia empírica de amplo espectro é fundamental, seguindo as diretrizes para neutropenia febril. As opções incluem:

  • Monoterapia com cefepime;
  • Ceftazidima ou carbapenêmicos;
  • Associação de beta-lactâmico com ação antipseudomonas e aminoglicosídeo;

Quando cefalosporinas são utilizadas, recomenda-se adicionar cobertura para anaeróbios, como metronidazol ou vancomicina oral, devido à rápida progressão das infecções nesses pacientes.

A terapia antifúngica pode ser considerada em casos selecionados, principalmente diante de risco elevado ou ausência de resposta ao tratamento inicial, embora não haja recomendação formal para uso rotineiro.

Uso de G-CSF

O fator estimulador de colônias de granulócitos pode ser indicado em pacientes com maior risco de complicações, como:

  • Neutropenia profunda;
  • Doença de base não controlada;
  • Pneumonia;
  • Hipotensão;
  • Disfunção de múltiplos órgãos;
  • Infecção fúngica invasiva.

Tratamento de complicações

Em casos de hemorragia grave com instabilidade hemodinâmica, pode-se indicar intervenção radiológica, como angiografia com embolização, com o objetivo de evitar cirurgia emergencial.

Indicações cirúrgicas

A cirurgia é reservada para situações específicas, como:

  • Sangramento gastrointestinal persistente apesar da correção das alterações hematológicas;
  • Presença de ar livre intraperitoneal sugestivo de perfuração;
  • Piora clínica mesmo com tratamento clínico adequado;
  • Outra indicação cirúrgica associada, como apendicite.

Na ausência desses critérios, recomenda-se manter o tratamento conservador inicial.

Veja também!

Referências

Inga EE, Badireddy M. Neutropenic Enterocolitis. [Updated 2023 Aug 8]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2025 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK559057/

PIAZERA, Flavia Zattar; VILLAR, Laura Trotta. Enterocolite Neutropênica: uma revisão atualizada sobre diagnóstico e manejo. Brazilian Journal of Health Review, Curitiba, v. 7, n. 9, p. 01–08, nov./dez. 2024. DOI: 10.34119/bjhrv7n9-085.

Você pode gostar também