E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Episclerite, uma inflamação benigna e geralmente autolimitada da episclera, a fina camada de tecido conjuntivo situada entre a conjuntiva e a esclera.
O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.
Vamos nessa!
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Definição de Episclerite
A episclerite é uma inflamação aguda que envolve a episclera, uma fina camada de tecido conjuntivo frouxo situada entre a conjuntiva e a esclera. Essa estrutura recebe irrigação das artérias ciliares anteriores, derivadas da artéria oftálmica, o que explica o padrão característico de vascularização observado na doença.
O quadro pode surgir de forma unilateral ou bilateral e apresentar diferentes configurações, como difusa, setorial ou nodular. Embora muitos casos sejam idiopáticos, a episclerite também pode ocorrer em associação a condições sistêmicas, especialmente doenças autoimunes e colagenoses, além de algumas infecções.
Trata-se de um processo inflamatório geralmente autolimitado, cuja compreensão adequada é essencial para distinguir esse acometimento de outras doenças oculares mais profundas e orientar a abordagem clínica apropriada.

Etiologia da Episclerite
A etiologia da episclerite é predominantemente idiopática, mas uma parcela significativa dos casos, entre 26% e 36%, está relacionada a doenças sistêmicas. Entre as principais condições associadas estão doenças autoimunes e inflamatórias, como artrite reumatoide, doença de Crohn, retocolite ulcerativa, lúpus eritematoso sistêmico, artrite psoriásica, espondilite anquilosante, poliarterite nodosa, polondrite recidivante, síndrome de Cogan, doença de Behçet e granulomatose com poliangiite. Infecções como doença de Lyme, febre da arranhadura do gato, sífilis e infecções por herpesvírus também podem desencadear episclerite, embora de forma menos frequente em comparação às doenças autoimunes e colagenoses.
Fisiopatologia da Episclerite
A fisiopatologia da episclerite envolve diferentes mecanismos inflamatórios, tanto imunológicos quanto não imunológicos, capazes de desencadear o processo na episclera, um tecido conjuntivo fino e altamente vascularizado situado abaixo da conjuntiva e acima da esclera. Histologicamente, observam-se vasodilatação difusa, edema e infiltração linfocitária, refletindo a ativação do sistema imune local.
Entre os mecanismos imunológicos, podem ocorrer respostas de hipersensibilidade do tipo I, mediadas por IgE e liberação de mediadores pelos mastócitos, além de reações do tipo III, relacionadas à deposição de imunocomplexos em doenças vasculíticas ou infecções sistêmicas, como sífilis e tuberculose. Em doenças granulomatosas, a inflamação tende a ser sustentada por respostas de hipersensibilidade tardia do tipo IV, embora os antígenos envolvidos permaneçam desconhecidos.
Outro fator importante é a síndrome do olho seco, que pode atuar como gatilho frequente da episclerite. Em condições como doença de Sjögren, lúpus eritematoso sistêmico, artrite reumatoide ou doença do enxerto contra hospedeiro, a intensidade da episclerite geralmente acompanha a gravidade do olho seco, indicando um elo entre disfunção da superfície ocular e inflamação episcleral.
Manifestações clínicas da Episclerite
A episclerite costuma apresentar início súbito e pode surgir de forma localizada ou difusa. Os pacientes relatam, principalmente, vermelhidão ocular associada a irritação e aumento do lacrimejamento.
A dor geralmente está ausente, mas pode ocorrer em episódios crônicos ou na variante nodular. A visão permanece normal, já que a inflamação não atinge estruturas mais profundas do olho.
Ao exame físico, observa-se uma coloração vermelho-viva da episclera, resultado da vasodilatação dos vasos superficiais e do edema do tecido episcleral, sem sinais de afinamento ou edema da esclera. Cerca de metade dos casos apresenta acometimento bilateral, o que pode sugerir maior probabilidade, embora não obrigatória, de doença inflamatória sistêmica associada.
A evolução clínica tende a ser favorável. A maioria dos episódios se resolve espontaneamente em até três semanas, com ou sem tratamento. Complicações são incomuns e, quando aparecem, não costumam comprometer a acuidade visual. Estudos mostram que a maior parte dos pacientes não apresenta consequências oculares relevantes, o que reforça o caráter autolimitado e benigno da doença.


Diagnóstico de Eísclerite
O diagnóstico de episclerite é essencialmente clínico e deve ser considerado diante de um quadro de início súbito de vermelhidão ocular, irritação e lacrimejamento, geralmente sem dor e com preservação da acuidade visual.
A confirmação ocorre por meio do exame físico, que revela a característica descoloração vermelho-viva da episclera, causada pela vasodilatação dos vasos episclerais superficiais e pelo edema local, sem sinais de edema ou afinamento da esclera.
Quando possível, recomenda-se encaminhar o paciente ao oftalmologista em até duas ou três semanas para um exame completo. A biomicroscopia em lâmpada de fenda pode ser necessária para evitar erros diagnósticos, sobretudo na distinção entre episclerite e esclerite ou queratites infecciosas iniciais, já que essas condições apresentam maior gravidade e podem comprometer a visão. A diferenciação correta é fundamental.
Tratamento da Episclerite
A episclerite é uma condição autolimitada e não representa ameaça à visão. Por isso, muitos pacientes não necessitam de tratamento específico, e o objetivo principal é oferecer alívio sintomático. Quando necessário, a terapêutica segue uma progressão em níveis, ajustada conforme a resposta clínica.
- Lubrificantes oculares como primeira escolha
A primeira linha de manejo consiste na aplicação de lubrificantes tópicos quatro a seis vezes ao dia. Qualquer lágrima artificial comercial é adequada. Pacientes que precisam de uso mais frequente devem optar por formulações sem conservantes, que podem ser utilizadas repetidamente sem risco de toxicidade da superfície ocular. Estudos mostram que lubrificantes podem ter eficácia semelhante à de alguns anti-inflamatórios tópicos nos casos leves.
- Anti-inflamatórios não esteroides tópicos
Se os lubrificantes forem insuficientes para controlar o desconforto, pode-se recorrer aos AINEs tópicos, como o diclofenaco, utilizados duas a quatro vezes ao dia. Antes de adotá-los, é essencial excluir olho seco ou outras alterações epiteliais, pois esses medicamentos podem agravar lesões da superfície ocular. Por esse motivo, não são recomendados como terapia inicial.
- Corticoides tópicos
Para casos refratários ao uso de lubrificantes e AINEs tópicos, utilizam-se corticoides oftálmicos, como fluorometolona 0,1% ou prednisolona 1%, aplicados quatro vezes ao dia. Esses agentes são eficazes em mais de 80% dos casos, porém devem ser usados exclusivamente sob orientação de um oftalmologista, devido ao risco de complicações como catarata, glaucoma, infecções secundárias e afinamento corneoescleral.
- AINEs orais
Quando os tratamentos tópicos não oferecem resposta adequada ou em episódios recorrentes, podem ser prescritos AINEs por via oral, como naproxeno, ibuprofeno ou indometacina, sempre iniciando com doses baixas. Esses medicamentos costumam melhorar os sintomas, embora não existam comparações formais com outras opções terapêuticas.
- Corticoides sistêmicos (excepcionais)
Em raras situações, sobretudo na episclerite nodular resistente a todas as outras abordagens, utiliza-se um curso curto de prednisona oral, iniciando entre 0,5 e 0,75 mg/kg/dia, com redução rápida ao longo de uma ou duas semanas.
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Referências
Schonberg S, Stokkermans TJ. Episcleritis. [Updated 2023 Aug 7]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2025 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK534796/
Reza Dana, MD, MPH, MSc. Episcleritis. UpToDate, 2024. Disponível em: UpToDate


