E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Glomerulopatia C3, uma doença renal rara caracterizada pela deposição predominante do componente C3 do sistema complemento nos glomérulos, decorrente de uma desregulação da via alternativa do complemento, levando a inflamação e lesão renal progressiva.
O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.
Vamos nessa!
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Definição de Glomerulopatia C3
Glomerulopatia C3 (C3G) é uma doença glomerular rara caracterizada pela deposição predominante da proteína C3 nos glomérulos em decorrência da desregulação da via alternativa do sistema complemento.
Essa ativação inadequada e persistente do complemento provoca inflamação e lesão renal progressiva, sendo considerada uma doença mediada por alterações nos mecanismos de controle dessa importante via da imunidade inata.
A C3G compreende duas entidades principais: a glomerulonefrite por C3 (C3GN) e a doença dos depósitos densos (DDD). Ambas compartilham o mesmo mecanismo fisiopatológico básico, mas diferem pelo padrão de deposição observado na microscopia eletrônica.
Na C3GN, os depósitos eletrodensos apresentam distribuição variável em diferentes regiões do glomérulo, enquanto na DDD os depósitos assumem um aspecto denso e contínuo, localizado predominantemente na membrana basal glomerular.
A patogênese da doença está frequentemente associada a mutações genéticas ou à presença de autoanticorpos que afetam proteínas reguladoras do sistema complemento, levando à ativação excessiva da via alternativa e ao acúmulo de fragmentos de C3 nos glomérulos. Por esse motivo, a glomerulopatia C3 é atualmente reconhecida como uma doença prototípica de disfunção da regulação do complemento.
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Etiologias da Glomerulopatia C3
A glomerulopatia C3 ocorre devido à desregulação da via alternativa do sistema complemento, levando à sua ativação excessiva e ao depósito de C3 nos glomérulos. Essa alteração pode resultar de dois mecanismos principais:
Mutações genéticas
- Acometem genes que codificam proteínas do complemento e seus reguladores, como C3, fator B, fator H, fator I e CFHR5.
- Estão presentes em cerca de 25% dos pacientes.
- Embora possam ter origem hereditária, casos familiares são relativamente raros.
Autoanticorpos
- São anticorpos que interferem nos mecanismos normais de controle do complemento.
- O mais comum é o fator nefrítico C3 (C3NeF), que estabiliza a C3-convertase (C3bBb), prolongando sua atividade.
- Outros autoanticorpos podem atuar contra a C5-convertase, o fator H ou o fator B.
Além disso, algumas paraproteinemias monoclonais podem contribuir para a doença ao alterar a regulação do sistema complemento.
Fisiopatologia da Glomerulopatia C3
A fisiopatologia da glomerulopatia C3 baseia-se na ativação excessiva e persistente da via alternativa do sistema complemento. Diferentemente das vias clássica e das lectinas, a via alternativa permanece continuamente ativa em baixos níveis devido à hidrólise espontânea da proteína C3.
Em condições normais, essa ativação basal é rigidamente controlada por proteínas reguladoras, principalmente o fator H, os fatores H-relacionados, o fator I e proteínas reguladoras de membrana. Quando esses mecanismos falham, ocorre amplificação contínua da ativação do complemento por meio de um ciclo de retroalimentação positiva.
Como consequência, há aumento da produção de componentes inflamatórios, recrutamento de células inflamatórias e formação do complexo de ataque à membrana (MAC). O depósito desses componentes do complemento nos glomérulos leva à inflamação e ao dano tecidual renal característicos da doença.
Essa desregulação pode ocorrer por:
- Mutações genéticas, especialmente aquelas que aumentam a atividade de proteínas da via alternativa;
- Autoanticorpos, que interferem na regulação normal do complemento;
- Doenças sistêmicas capazes de ativar diretamente a via alternativa, como o lúpus eritematoso sistêmico, a gamopatia monoclonal de significado indeterminado (MGUS) e a gamopatia monoclonal de significado renal (MGRS).
Manifestações clínicas da Glomerulopatia C3
A apresentação clínica da glomerulopatia C3 é bastante variável, podendo variar desde alterações urinárias assintomáticas até quadros de síndrome nefrítica ou síndrome nefrótica.
As manifestações mais frequentes incluem:
- Hematúria microscópica;
- Proteinúria;
- Hipertensão arterial.
Em alguns pacientes, a proteinúria pode ser intensa o suficiente para caracterizar síndrome nefrótica, manifestação observada com maior frequência na glomerulonefrite por C3 (C3GN) do que na doença dos depósitos densos (DDD).
A lesão renal aguda (LRA) pode ocorrer, embora seja relativamente incomum, sendo mais rara na DDD. Com a progressão da doença, alguns pacientes podem desenvolver deterioração gradual da função renal.
Em crianças e adultos jovens, é comum haver relato de infecção de vias aéreas superiores precedendo o início da doença. Já em pacientes mais idosos, especialmente aqueles diagnosticados após os 60 anos, pode haver associação com paraproteinemias monoclonais.
As manifestações extrarrenais são incomuns. Quando presentes, geralmente ocorrem em pacientes que apresentam concomitantemente síndrome hemolítico-urêmica atípica (SHUa), podendo incluir manifestações cutâneas e gastrointestinais. Nesses casos, a lesão renal costuma ser mais grave do que na glomerulopatia C3 isolada.
Diagnóstico da Glomerulopatia C3
O diagnóstico da glomerulopatia C3 é fundamentalmente histopatológico e requer a realização de biópsia renal, considerada o exame indispensável para confirmar a doença. Após a confirmação diagnóstica, deve-se realizar uma investigação detalhada da via alternativa do sistema complemento para identificar possíveis mecanismos subjacentes de desregulação.
A avaliação laboratorial inclui estudos do sistema complemento, que podem envolver:
- Testes funcionais do complemento, como CH50 e AP50;
- Dosagem de proteínas do complemento, incluindo C3, C4, fator H, fator I, fator B e properdina;
- Marcadores de ativação do complemento, como C3d, Bb e complexo de ataque à membrana (MAC);
- Pesquisa de autoanticorpos, incluindo fator nefrítico C3 (C3NeF), anticorpos anti-fator H e anti-fator B.
Embora a redução dos níveis séricos de C3 seja um achado frequente, ela está presente em apenas 50% a 70% dos pacientes, de modo que níveis normais de C3 não excluem o diagnóstico.
Em pacientes com mais de 50 anos, recomenda-se a investigação de gamopatias monoclonais, por meio da dosagem de cadeias leves livres séricas e urinárias, eletroforese de proteínas e imunofixação. Essa avaliação é importante para identificar condições como mieloma múltiplo, macroglobulinemia de Waldenström, amiloidose ou gamopatia monoclonal de significado renal (MGRS), que podem estar associadas à doença.
Sempre que disponível, também deve ser considerada a testagem genética para variantes em genes relacionados ao sistema complemento, especialmente C3, CFB, CFH, CFHR5 e CFI, auxiliando na identificação de formas hereditárias da doença.
Tratamento da Glomerulopatia C3
O tratamento da glomerulopatia C3 (C3G) depende da gravidade da doença no momento do diagnóstico, da intensidade da proteinúria e da função renal. Independentemente da apresentação clínica, todos os pacientes devem receber tratamento de suporte, semelhante ao utilizado na doença renal crônica.
As principais medidas de suporte incluem:
- Controle rigoroso da hipertensão arterial;
- Restrição de sal na dieta;
- Uso de terapias antiproteinúricas, como inibidores da enzima conversora da angiotensina (IECA), bloqueadores dos receptores da angiotensina (BRA) e inibidores do cotransportador sódio-glicose 2 (iSGLT2);
- Tratamento da hiperlipidemia;
- Uso de diuréticos para controle de edema, quando necessário.
Nos pacientes com doença leve (proteinúria inferior a 1 g/dia e função renal preservada), o tratamento de suporte isolado pode ser suficiente, associado a acompanhamento clínico regular.
Para pacientes com doença moderada a grave (proteinúria superior a 1 g/dia ou piora progressiva da função renal), recomenda-se terapia imunossupressora. De acordo com as diretrizes KDIGO de 2021, o tratamento de primeira linha é a combinação de micofenolato de mofetila (MMF) e corticosteroides, que demonstrou melhores taxas de remissão e maior sobrevida renal em comparação com outros imunossupressores.
Nos casos de glomerulonefrite rapidamente progressiva, caracterizados pela presença de crescentes na biópsia renal e rápida deterioração da função renal, utiliza-se tratamento mais agressivo com corticosteroides em altas doses, associados ao MMF ou à ciclofosfamida, com ou sem eculizumabe.
O eculizumabe, um inibidor da fração C5 do complemento, é reservado principalmente para pacientes refratários ao tratamento convencional ou com formas rapidamente progressivas da doença.
Quando há associação com gamopatia monoclonal, o tratamento da doença hematológica subjacente torna-se parte fundamental da estratégia terapêutica.
Terapias emergentes
Diversos medicamentos direcionados ao sistema complemento estão em desenvolvimento. Entre os mais promissores destacam-se:
- Pegcetacoplan: inibidor de C3/C3b que demonstrou redução da proteinúria em estudos clínicos.
- Iptacopan: inibidor oral do fator B, capaz de bloquear a formação da C3-convertase e reduzir os depósitos glomerulares de C3.
Por outro lado, terapias como avacopan, plasmaférese e infusão de plasma não demonstraram benefícios consistentes até o momento.
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Referências
Ayehu G, Atari M, Hassanein M, et al. C3 Glomerulopathy. [Updated 2024 Nov 5]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK609090/
Tal Kopel, MDDavid John Salant, MD. C3 glomerulopathies: Dense deposit disease and C3 glomerulonephritis. UpToDate, 2025. Disponível em: UpToDate



