Resumo sobre Incontinência Anal: definição, manifestações clínicas e mais!
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Resumo sobre Incontinência Anal: definição, manifestações clínicas e mais!

E aí, doc! Bora aprofundar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Incontinência Anal, uma condição caracterizada pela perda involuntária de fezes ou gases, que pode impactar significativamente a qualidade de vida dos pacientes.

O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e fornecer o conhecimento necessário para uma prática clínica mais segura e eficiente.

Vamos juntos nessa!

Definição de Incontinência Anal

A incontinência anal (IA) é a perda involuntária de fezes ou gases, associada à dificuldade de controlar a evacuação até um momento socialmente adequado. Apesar de sua alta prevalência, muitos casos são subnotificados devido ao constrangimento dos pacientes. Estudos indicam que 20% das pessoas não institucionalizadas relatam pelo menos um episódio anual, e 9,5% apresentam recorrência mensal.

Embora não seja letal, a IA impacta significativamente a qualidade de vida, levando ao isolamento social. Além disso, representa um problema de saúde pública devido aos custos elevados de tratamento, estimados em milhares de dólares anuais por paciente em países como os Estados Unidos e o Canadá.

O controle da continência anal envolve múltiplos fatores, como a integridade da musculatura esfincteriana, reflexos neurológicos, consistência das fezes e trânsito intestinal. Um dos quadros mais leves de IA, o soiling, ocorre em pelo menos 5% dos indivíduos saudáveis.

A severidade da IA varia desde escapes ocasionais de gases e líquidos até perdas significativas de fezes sólidas, exigindo o uso de forros perineais. Para melhor quantificação dos sintomas e impacto na qualidade de vida, diversas escalas foram desenvolvidas, como o escore de Wexner, amplamente utilizado por sua praticidade.

A IA pode ser classificada em três tipos principais:

  • Incontinência passiva – ocorre descarga involuntária sem percepção do paciente.
  • Incontinência de urgência – há perda fecal apesar dos esforços ativos para conter a evacuação.
  • Infiltração fecal – caracteriza-se pelo vazamento de fezes, mesmo com evacuação aparentemente normal.

Etiologia da Incontinência Anal

A incontinência anal (IA) é um sintoma resultante de diversas causas, incluindo anormalidades estruturais adquiridas, malformações congênitas, doenças neurológicas, condições degenerativas e disfunções intestinais. 

Entre os fatores funcionais, destacam-se a diarreia crônica, distúrbios como a síndrome do intestino irritável (SII) e a doença inflamatória intestinal (DII), além de alterações nos hábitos intestinais causadas por intolerâncias alimentares e constipação com diarreia paradoxal. 

As principais causas estruturais estão associadas a traumas, especialmente os obstétricos, sendo que lesões ocultas do esfíncter anal podem ocorrer em até 35% dos partos vaginais. 

Outros fatores incluem cirurgias anorretais, como fistulotomias e esfincterotomias, denervação do assoalho pélvico, prolapso retal crônico e práticas como a relação sexual anorreceptiva. Além disso, pacientes submetidos à reconstrução coloanal ou íleoanal podem desenvolver IA como consequência do procedimento.

Escala de Qualidade de Vida

A incontinência anal (IA) impacta diretamente a qualidade de vida dos pacientes, influenciando suas atividades diárias, interações sociais e bem-estar psicológico. Para mensurar esse impacto, diversas escalas foram desenvolvidas, sendo uma das mais utilizadas a da Sociedade Americana de Cirurgia Colorretal.

Essa escala avalia restrições impostas pela IA em diferentes aspectos da rotina, como evitar sair de casa, viajar ou participar de eventos sociais. Entre os critérios analisados, estão a necessidade de planejar atividades conforme os hábitos intestinais, a adaptação da alimentação para reduzir episódios de incontinência e o uso de absorventes.

Critério AvaliadoPontuação (Frequência)
Não posso fazer coisas que gostaria4 pontos
Tenho medo de sair4 pontos
Minha agenda é planejada de acordo com o meu intestino4 pontos
Controlo a minha alimentação antes de sair4 pontos
É difícil sair para atividades como ir ao cinema4 pontos
Evito viajar de avião e trem4 pontos
Evito viajar4 pontos
Evito visitar amigos4 pontos
Evito sair para comer4 pontos
Evito pernoitar fora de casa4 pontos

Manifestações clínicas da Incontinência Anal

A incontinência anal (IA) pode se manifestar de diferentes formas, variando em intensidade e impacto na qualidade de vida do paciente. Os principais sintomas incluem a perda involuntária de gases, fezes líquidas ou sólidas, além da sensação de urgência defecatória sem controle adequado.

A gravidade da IA pode ser classificada em:

  • Leve: perda ocasional de gases ou pequenas quantidades de fezes líquidas.
  • Moderada: escape mais frequente de fezes líquidas e eventual perda de fezes sólidas.
  • Grave: perda significativa de fezes líquidas ou sólidas, frequentemente exigindo o uso de forros perineais.

Além disso, o soiling, caracterizado pelo escape de material fecal após a evacuação, pode estar presente em indivíduos saudáveis. Pacientes com IA frequentemente relatam limitações nas atividades diárias, impacto emocional e isolamento social devido ao constrangimento causado pela condição. A identificação dos sintomas e da gravidade da incontinência é essencial para a escolha do tratamento adequado.

Diagnóstico da Incontinência Anal

O diagnóstico da incontinência anal (IA) envolve uma abordagem detalhada, combinando anamnese, exame físico e exames complementares para determinar a gravidade da condição e identificar sua causa subjacente.

Avaliação Clínica

A anamnese deve investigar a frequência, gravidade e impacto da IA na qualidade de vida do paciente. Questões sobre histórico de cirurgias anorretais, trauma obstétrico, doenças neurológicas e hábitos intestinais são essenciais. Além disso, deve-se avaliar o uso de medicamentos que possam interferir no trânsito intestinal.

O exame físico inclui:

  • Inspeção anal: pode revelar cicatrizes, fissuras, hemorroidas, prolapso retal ou sinais de irritação perianal. O descenso perineal também pode ser observado.
  • Toque retal: avalia o tônus esfincteriano basal e durante a contração voluntária, além da presença de retocele ou massas. A sensação retal e os reflexos perineais devem ser analisados para identificar comprometimento neurológico.

Exames Complementares

Manometria Anorretal

A manometria anorretal é um exame essencial que mede as pressões dos esfíncteres anal interno e externo, a capacidade de contração voluntária e a presença do reflexo inibitório retoanal. Pode indicar disfunção neuromuscular ou esfincteriana e orientar o tratamento.

Ultrassonografia Endoanal

Esse exame permite visualizar a estrutura dos esfíncteres interno e externo, identificando lesões, rupturas ou atrofia muscular, comuns em pacientes com histórico de trauma obstétrico ou cirurgias anorretais.

Defecografia

Trata-se de um exame radiológico dinâmico que avalia o processo de evacuação, ajudando a diagnosticar anormalidades como prolapso retal, retocele, intussuscepção e falhas no relaxamento do músculo puborretal.

Tempo de latência do nervo pudendo

Esse exame mede o tempo de resposta do nervo pudendo a estímulos elétricos, ajudando a diagnosticar neuropatias que podem estar associadas à IA, principalmente em casos de lesões por parto ou envelhecimento.

Eletromiografia

A eletromiografia analisa a atividade elétrica dos músculos esfincterianos, diferenciando disfunções de origem miopática ou neuropática. É útil para avaliar a reinervação muscular após lesões neurológicas.

Ressonância magnética pélvica

A ressonância magnética fornece imagens detalhadas da anatomia do canal anal, do assoalho pélvico e das estruturas musculares, sendo útil para avaliar atrofias, fibroses ou lesões estruturais associadas à incontinência.

A combinação desses exames permite um diagnóstico preciso, diferenciando as causas estruturais, funcionais e neurológicas da incontinência anal, orientando assim o tratamento mais adequado para cada paciente.

Tratamento da Incontinência Anal

O tratamento da incontinência anal (IA) deve ser individualizado, levando em consideração a causa, a gravidade dos sintomas e o impacto na qualidade de vida do paciente. As abordagens incluem medidas clínicas, fisioterapêuticas e, em casos mais graves, opções cirúrgicas.

Tratamento Clínico

As medidas conservadoras são a primeira linha de tratamento e incluem:

  • Modificação da dieta: aumento da ingestão de fibras para regular a consistência das fezes e evitar diarreia ou constipação.
  • Medicamentos antidiarreicos: loperamida e difenoxilato-atropina são utilizados para reduzir a motilidade intestinal e melhorar o controle fecal.
  • Agentes formadores de bolo fecal: auxiliam na regulação do trânsito intestinal e na melhora da consistência fecal.
  • Lavagens retais programadas: ajudam no esvaziamento completo do reto, reduzindo episódios de incontinência.

Fisioterapia Pélvica e Biofeedback

A reabilitação do assoalho pélvico, por meio de exercícios e técnicas de biofeedback, visa fortalecer os músculos esfincterianos e melhorar o controle neuromuscular. Estudos indicam que essa abordagem pode reduzir significativamente os episódios de incontinência, especialmente em casos leves a moderados.

Tratamento Cirúrgico

O tratamento cirúrgico é indicado para pacientes que não respondem às terapias conservadoras. As principais opções incluem:

  • Esfincteroplastia: indicada para lesões esfincterianas, especialmente pós-trauma obstétrico. Consiste na reparação e sobreposição das fibras musculares do esfíncter anal.
  • Neuromodulação sacral: envolve a implantação de eletrodos na raiz sacral para estimular os nervos pélvicos, melhorando o controle esfincteriano. Pode ser eficaz em pacientes com incontinência idiopática ou neuropática.
  • Estimulação do nervo tibial posterior: técnica menos invasiva que modula a função esfincteriana por meio da estimulação nervosa transcutânea ou percutânea.
  • Energia por radiofrequência (SECCA): procedimento que promove a cicatrização controlada do esfíncter anal, aumentando sua resistência e melhorando a continência.
  • Injeção de agentes volumizadores: substâncias como colágeno ou ácido hialurônico são injetadas na região esfincteriana para aumentar a pressão de fechamento anal.
  • Esfíncter artificial: consiste na implantação de um dispositivo magnético ou mecânico ao redor do canal anal para restaurar a continência.
  • Colostomia: reservada para casos graves e refratários, permitindo o desvio fecal e melhorando a qualidade de vida do paciente.

Veja também!

Referências

Kristen M Robson, MD, MBA, FACGAnthony J Lembo, MD. Fecal incontinence in adults: Etiology and evaluation. UpToDate, 2025. Disponível em: UpToDate

ZATERKA, Schlioma; PASSOS, Maria do Carmo Friche; CHINZON, Décio (Eds.). Tratado de gastroenterologia: da graduação à pós-graduação. 3. ed. Rio de Janeiro: Atheneu, 2023.

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