Resumo sobre Necrobiose Lipoídica: definição, manifestações clínicas e mais!
Lesão típica de necrobiose lipoídica não ulcerada. Há uma mancha vermelho-alaranjada com vasculatura visível, sugerindo a natureza atrofogênica da doença. Fonte: UpToDate

Resumo sobre Necrobiose Lipoídica: definição, manifestações clínicas e mais!

E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Necrobiose Lipoídica, uma dermatose crônica caracterizada por placas eritematosas ou amareladas, geralmente localizadas nas pernas, que podem evoluir para áreas atróficas e até ulceradas. Está frequentemente associada ao diabetes mellitus, embora também possa ocorrer em indivíduos sem alterações glicêmicas.

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Vamos nessa!

Definição de Necrobiose Lipoídica

A necrobiose lipoídica é uma doença rara, crônica e de origem idiopática, fortemente associada ao diabetes mellitus, especialmente ao tipo 1, mas também observada em indivíduos não diabéticos. 

Sua etiologia permanece incerta, sendo mais aceita a hipótese de distúrbios vasculares relacionados a alterações microangiopáticas ou ao depósito de imunocomplexos, que resultam na degeneração do colágeno. 

Além do diabetes, outras condições como síndrome metabólica, obesidade, dislipidemia, hipertensão arterial, doença celíaca e doenças autoimunes da tireoide também têm sido relacionadas ao seu desenvolvimento. Trata-se, portanto, de uma condição multifatorial que reflete a interação de diversos fatores metabólicos e imunológicos.

Necrobiose Lipoídica
Lesão típica de necrobiose lipoídica não ulcerada. Há uma mancha vermelho-alaranjada com vasculatura visível, sugerindo a natureza atrofogênica da doença. Fonte: UpToDate
Necrobiose Lipoídica
Visão aproximada de necrobiose lipoídica ulcerada na região anterior da canela. Há atrofia circundante e vasos sanguíneos subjacentes pouco visíveis na área afetada. As ulcerações em si são clinicamente indefinidas e podem ser difíceis de distinguir clinicamente de outras causas de ulceração na ausência de alterações cutâneas circundantes clássicas de necrobiose lipoídica. Fonte: UpToDate

Doenças associadas à Necrobiose Lipoídica

A necrobiose lipoídica apresenta forte relação com o diabetes mellitus, tanto tipo 1 quanto tipo 2, embora não seja exclusiva dessa condição. A prevalência de diabetes entre pacientes acometidos varia de 11% a 65%, e em alguns casos a doença cutânea pode preceder o diagnóstico do diabetes. 

Apesar disso, dentro da população diabética sua ocorrência é rara, variando entre 0,3% e 1,2%, sendo ainda mais incomum em crianças. Estudos indicam que pacientes com necrobiose lipoídica tendem a ter maiores necessidades de insulina, mas não está confirmado se apresentam maior risco de complicações como retinopatia ou nefropatia.

Além do diabetes, a doença está associada a distúrbios autoimunes, especialmente os da tireoide, com prevalência entre 15% e 30% em diferentes estudos. Em pacientes com diabetes tipo 1, a presença de necrobiose lipoídica se relaciona a maior frequência de autoanticorpos tireoidianos e a risco aumentado de doença celíaca.

Comorbidades metabólicas e cardiovasculares também são comuns, incluindo hipertensão arterial, obesidade, dislipidemias, insuficiência cardíaca, doença coronariana, acidente vascular cerebral e comprometimento da função renal. Isso reforça o caráter multifatorial da necrobiose lipoídica e sua associação com diversas condições metabólicas e autoimunes.

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Fisiopatologia da Necrobiose Lipoídica

A necrobiose lipoídica caracteriza-se por alterações estruturais e imunológicas que afetam a pele. As lesões apresentam deterioração do colágeno, formação de granulomas, deposição de gordura e espessamento dos vasos sanguíneos. Inicialmente, surgem nódulos ou pápulas bem delimitados que se unem, formando placas maiores, geralmente com coloração amarelada ou marrom-avermelhada. 

Nessas placas, a região central pode exibir atrofia, aspecto ceroso ou necrose, enquanto a periferia mantém características distintas. A degeneração do colágeno favorece o aparecimento de telangiectasias e, à medida que a doença progride, aumenta a vulnerabilidade da pele, levando à formação de úlceras em cerca de 30% dos casos.

O mecanismo mais aceito envolve um processo imunomediado com base vascular. As anormalidades mais comuns incluem espessamento da parede dos vasos, fibrose e proliferação endotelial, resultando em oclusão da microvasculatura dérmica, especialmente em indivíduos com diabetes mellitus. Estudos de imunofluorescência demonstram depósitos de fibrina, IgM e C3 na junção dermoepidérmica dos vasos, reforçando o papel imunológico e vascular na fisiopatologia.

Do ponto de vista estrutural, observa-se diminuição da concentração de colágeno na pele afetada. A microscopia eletrônica revela perda das estriações transversais das fibrilas de colágeno e variação no diâmetro dessas estruturas. Além disso, fibroblastos provenientes de áreas com necrobiose lipoídica apresentam capacidade reduzida de síntese de colágeno quando comparados aos fibroblastos da pele normal, o que contribui para a progressão da doença.

Manifestações clínicas da Necrobiose Lipoídica

Início das lesões

A doença geralmente começa com pápulas ou placas bem delimitadas, levemente elevadas, de cor amarelada, róseo-acastanhada ou vermelho-acastanhada. Na periferia, pode haver eritema ou tonalidade violácea.

Necrobiose Lipoídica inicial
Uma placa fina com uma coloração amarelo-alaranjada sutil e tênue pode ser um sinal de necrobiose lipoídica precoce. Esta imagem mostra uma lesão muito precoce que pode ser percebida como clinicamente inespecífica, mas apresenta características de necrobiose lipoídica muito precoce. Fonte: UpToDate

Localização

A região pré-tibial é o sítio mais frequentemente acometido, mas outras áreas como couro cabeludo, face, tronco, genitália e membros superiores também podem ser atingidas. Quando ocorre em locais distintos, a região pré-tibial costuma estar envolvida.

Evolução das lesões

Com o tempo, as pápulas ou placas tornam-se planas, originando manchas ou placas finas de tom amarelo-alaranjado. Nessas áreas podem surgir:

  • Atrofia cutânea;
  • Telangiectasias proeminentes;
  • Ulceração (em cerca de 15% a 33% dos casos), geralmente após traumas menores.

Lesões maiores apresentam risco aumentado de ulcerar, e a presença de úlceras costuma estar associada a dor.

Necrobiose Lipoídica não ulcerada
Esta visão aproximada da borda de uma lesão de necrobiose lipoídica não ulcerada demonstra atrofia com afinamento da pele, aparência brilhante e esbranquiçada e vasculatura notavelmente visível subjacente à lesão. Grande parte da periferia da placa atrófica parece hiperpigmentada, mas há áreas de eritema ativo no lado esquerdo da imagem. Fonte: UpToDate

Sintomas associados

Embora muitos pacientes permaneçam assintomáticos, alguns podem apresentar:

  • Prurido;
  • Disestesia nas áreas afetadas;
  • Dor, especialmente em casos com ulceração.

Fenômeno de Koebner

A necrobiose lipoídica pode exibir o fenômeno de Koebner, caracterizado pelo aparecimento de novas lesões em áreas de trauma cutâneo.

Diferenças entre tipos de diabetes

Pacientes com diabetes tipo 1 tendem a apresentar maior frequência de:

  • Lesões atróficas;
  • Telangiectasias;
  • Hipopigmentação;
  • Lesões maculares (planas), quando comparados aos pacientes com diabetes tipo 2.

Diagnóstico da Necrobiose Lipoídica

O diagnóstico da necrobiose lipoídica é estabelecido a partir da avaliação clínica associada à confirmação histopatológica. Não existem exames sorológicos específicos para confirmar a doença.

Exame físico

A presença de manchas atróficas, de coloração amarelo-alaranjada, ou placas finas na região pré-tibial é altamente sugestiva, já que essas alterações não costumam ocorrer em outras dermatoses granulomatosas. Nos estágios iniciais, quando as lesões ainda apresentam coloração róseo-acastanhada ou vermelho-acastanhada, o diagnóstico clínico pode ser mais desafiador.

Biópsia de pele

A biópsia é essencial para confirmar o diagnóstico, sendo recomendada a biópsia punch de 3 a 5 mm, preferencialmente na borda da lesão e estendendo-se até o tecido subcutâneo. Os achados histológicos característicos incluem:

  • Dermatite granulomatosa em padrão paliçado ou intersticial, envolvendo derme e tecido subcutâneo;
  • Necrobiose do colágeno;
  • Infiltrado inflamatório de linfócitos e plasmócitos.

Em casos menos típicos, pode haver dificuldade em diferenciar de outras condições granulomatosas não infecciosas, como o granuloma anular (que se diferencia pela presença de mucina dérmica) ou o xantogranuloma necrobiótico (onde os clivagens de colesterol são mais frequentes que na necrobiose lipoídica).

Dermatoscopia

A dermatoscopia pode ser um método complementar útil, apresentando características descritas em diferentes fases:

  • Vasos em vírgula (lesões iniciais);
  • Padrão irregular de vasos arboriformes (lesões avançadas);
  • Áreas esbranquiçadas (correspondendo à degeneração do colágeno);
  • Manchas amarelo-alaranjadas (associadas ao infiltrado granulomatoso).

Avaliação adicional

Devido à forte associação com diabetes mellitus, todos os pacientes sem diagnóstico prévio da doença devem ser investigados para diabetes no momento do diagnóstico da necrobiose lipoídica.

Considerando a possível relação com doença tireoidiana, é recomendado investigar sinais e sintomas de disfunção da tireoide (como intolerância ao frio ou calor, queda de cabelo, pele seca e fadiga), solicitando exames laboratoriais quando necessário.

Tratamento da Necrobiose Lipoídica

O manejo da necrobiose lipoídica é desafiador, pois não existe terapia universalmente eficaz. O tratamento deve ser individualizado, visando controlar a progressão da doença, prevenir complicações (como ulceração) e melhorar a qualidade de vida do paciente.

  • Medidas gerais
    • Controle metabólico: manter adequado controle glicêmico em pacientes diabéticos, embora isso nem sempre leve à melhora das lesões.
    • Cuidados locais: proteção da pele contra traumas para reduzir o risco de ulceração.
  • Terapia tópica e intralesional
    • Corticosteroides tópicos de alta potência ou injeções intralesionais de corticosteroides são frequentemente utilizados, principalmente em lesões ativas e inflamatórias.
    • Em áreas atróficas, seu uso deve ser cauteloso para evitar maior atrofia cutânea.
  • Terapia sistêmica
    • Em casos resistentes ou extensos, podem ser considerados:
    • Corticosteroides sistêmicos (uso limitado pelo risco de efeitos adversos).
    • Agentes imunossupressores: ciclosporina, micofenolato mofetil, metotrexato.
    • Antimaláricos: hidroxicloroquina.
    • Agentes biológicos: relatos de benefício com antagonistas do TNF-α (ex.: infliximabe, adalimumabe).
  • Outras modalidades
    • Fototerapia (PUVA): utilizada em alguns casos com resposta variável.
    • Ácido acetilsalicílico, pentoxifilina ou agentes antiplaquetários: empregados visando melhora da microcirculação.
    • Terapias tópicas alternativas, como tacrolimo ou pimecrolimo, também têm sido exploradas.
  • Tratamento das complicações
    • Úlceras cutâneas exigem abordagem específica com curativos adequados, prevenção de infecção e, em alguns casos, suporte de equipe especializada em feridas.
    • Em casos raros de transformação maligna (carcinoma espinocelular), é necessária avaliação cirúrgica.

Extensivo RM

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Referências

Karolyn Wanat, MDMisha Rosenbach, MD. Necrobiosis lipoidica. UpToDate, 2023. Disponível em: UpToDate

Lepe K, Riley CA, Hashmi MF, et al. Necrobiosis Lipoidica. [Updated 2024 Jun 22]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2025 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK459318/

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