Resumo sobre Urticária Colinérgica Parte 2: definição, manifestações clínicas e mais!
Fonte: FUKUNAGA, Atsushi et al. Cholinergic Urticaria: Subtype Classification and Clinical Approach. American Journal of Clinical Dermatology, v. 24, p. 41–54, 2023.

Resumo sobre Urticária Colinérgica Parte 2: definição, manifestações clínicas e mais!

E aí, doc! Dando continuidade ao nosso estudo sobre Urticária Colinérgica, vamos aprofundar um pouco mais esse tema que tanto aparece na prática clínica, especialmente em pacientes jovens e fisicamente ativos. 

O Estratégia MED segue ao seu lado para tornar esse assunto cada vez mais claro e aplicável ao dia a dia clínico, ajudando você a reconhecer, orientar e manejar adequadamente seus pacientes.

Vamos em frente!

Manifestações clínicas da Urticária Colinérgica

A urticária colinérgica apresenta um conjunto característico de manifestações que surgem logo após estímulos que aumentam a temperatura corporal, como exercício físico, banho quente, emoções intensas ou ingestão de alimentos picantes. As manifestações costumam aparecer de forma rápida e têm duração relativamente curta.

Lesões cutâneas típicas

A característica mais marcante é o surgimento de pápulas puntiformes muito pequenas, geralmente com 1 a 3 mm, cercadas por uma área de eritema. Essas lesões:

  • Surgem de forma disseminada ou em placas coalescentes;
  • Predominam no tronco e parte superior do corpo;
  • Poupam palmas, plantas e axilas
  • Aparecem poucos minutos após o estímulo térmico;
  • Persistem normalmente entre 15 e 60 minutos, desaparecendo espontaneamente.

Em alguns casos, as lesões podem se unir e formar áreas maiores, especialmente em exposições mais intensas ao calor.

Sensações associadas

As lesões são acompanhadas por sensações que variam entre os pacientes, sendo as mais frequentes:

  • Prurido intenso;
  • Ardor;
  • Dor em pontadas;
  • formigamento.

Essas sensações frequentemente se manifestam antes mesmo das pápulas aparecerem, funcionando como um “aviso” de que o quadro está se iniciando.

Distribuição corporal

Embora possam surgir em qualquer parte do corpo, há padrões típicos:

  • Mais comuns no tronco, pescoço e braços;
  • Geralmente menos percebidas ou ausentes em palmas, plantas e axilas;
  • Podem ser mais intensas em áreas de maior produção de suor.

Sintomas sistêmicos possíveis

Além das alterações cutâneas, alguns pacientes podem apresentar manifestações mais amplas, como:

  • Angioedema, especialmente em subtipos específicos;
  • Dispneia ou dificuldade respiratória;
  • Dor torácica;
  • Mal-estar intenso;
  • Cefaleia;
  • Queda de pressão arterial;
  • Em casos raros, anafilaxia, especialmente quando há associação com alergia ao suor.

Esses sintomas sistêmicos podem prejudicar atividades cotidianas como estudo, trabalho e prática de exercícios.

Fatores que agravam ou modulam o quadro

O clima também influencia as manifestações:

  • Muitos pacientes pioram em dias quentes;
  • Alguns subtipos, especialmente os associados à hipoidrose, podem piorar em clima frio, devido a variações bruscas de temperatura.

Formas clínicas especiais

Alguns padrões específicos podem ocorrer de acordo com o subtipo:

  • Lesões alinhadas aos folículos pilosos no subtipo folicular;
  • Angioedema em pálpebras nos casos associados a esse padrão;
  • Pápulas semelhantes a “pele arrepiada” com ou sem halo eritematoso nos quadros com hipoidrose.
Fig. 1 – Diversidade do quadro clínico da urticária colinérgica (CholU). a) Aparência típica da CholU: pápulas puntiformes, altamente pruriginosas e avermelhadas que surgem após a sudorese. b) Urticária colinérgica com angioedema palpebral (CholU-PA): angioedema associado à urticária colinérgica. c) CholU do tipo folicular: lesões da CholU alinhadas aos folículos pilosos. d) Erupção puntiforme semelhante a “pele arrepiada”, com halo eritematoso ao redor. Fonte: FUKUNAGA, Atsushi et al. Cholinergic Urticaria: Subtype Classification and Clinical Approach. American Journal of Clinical Dermatology, v. 24, p. 41–54, 2023.

Diagnóstico da Urticária Colinérgica

O diagnóstico da urticária colinérgica baseia-se na combinação entre história clínica compatível, reprodução dos sintomas por meio de testes de provocação e, quando necessário, avaliação da função sudomotora para diferenciar subtipos e afastar condições semelhantes.

Avaliação clínica

  • Identifica-se o surgimento repetido de pápulas puntiformes após aumento da temperatura corporal;
  • Confirma-se a relação entre estímulos como exercício, banho quente ou estresse emocional e o início dos sintomas;
  • A curta duração das lesões ajuda a reforçar a suspeita diagnóstica.

Teste de provocação por aquecimento

  • Utiliza-se aquecimento passivo, geralmente por imersão do corpo em água quente (aprox. 42 °C por 15 minutos).
  • O diagnóstico é sustentado quando há aumento de pelo menos 1 °C da temperatura corporal e ocorrência das lesões típicas.
  • Esse método é padronizado e recomendado para confirmação do quadro.

Teste de provocação por exercício

  • Realizado em esteira ou bicicleta ergométrica, aumentando-se a carga gradualmente até induzir sudorese suficiente;
  • Protocolos padronizados utilizam ergometria controlada por pulso, elevando a frequência cardíaca em intervalos regulares;
  • Em muitos pacientes, a sudorese é mais determinante que a elevação isolada da temperatura interna, tornando esse teste especialmente útil.

Avaliação da sudorese

Esses exames ajudam a distinguir subtipos associados a hipoidrose ou anidrose:

  • Teste de sudorese termorregulatória, que avalia a distribuição corporal da sudorese com auxílio de corantes;
  • Testes farmacológicos, que utilizam substâncias colinérgicas para estimar a capacidade sudomotora;
  • Termografia, quando se deseja mapear áreas de sudorese diminuída ou ausente;
  • Testes de reflexo sudomotor, que quantificam a resposta sudomotora de maneira mais objetiva.

Testes Complementares em Situações Específicas

  • O teste com suor autólogo pode ser utilizado em suspeita de alergia ao suor, verificando reatividade imediata;
  • O teste com acetilcolina auxilia na avaliação da resposta local ao estímulo colinérgico e pode diferenciar subtipos, como aqueles associados à anidrose.

Escalas de avaliação de atividade e gravidade

Embora não sejam usadas para diagnóstico, ajudam a mensurar gravidade e acompanhamento:

  • Cholinergic Urticaria Severity Index, que classifica intensidade e frequência de episódios;
  • CholUAS7, que quantifica atividade semanal da doença com base em prurido, número de lesões e estímulos desencadeantes.

Diagnósticos Diferenciais

O diagnóstico exige excluir doenças que podem simular o quadro:

  • Anafilaxia induzida por exercício, diferenciada por sintomas sistêmicos mais intensos e ausência de reação ao aquecimento passivo;
  • Urticária ao calor, que produz lesões apenas na área aquecida;
  • Urticária aquagênica, desencadeada pelo contato com água independentemente da temperatura;
  • Urticária adrenérgica, caracterizada por halo vasoconstritor pálido ao redor das pápulas;
  • A diferenciação é feita comparando estímulos necessários, aspecto das lesões e presença ou ausência de sintomas sistêmicos.

Tratamento da Urticária Colinérgica

O tratamento da urticária colinérgica envolve uma combinação de medidas destinadas a reduzir a reatividade cutânea ao calor, modular a sudorese e controlar a ativação mastocitária. Embora exista uma linha terapêutica geral, a resposta pode variar de acordo com o subtipo predominante, exigindo abordagem individualizada.

Anti-histamínicos como base terapêutica

Os anti-histamínicos H1 de segunda geração constituem a primeira escolha no manejo da doença. Iniciam-se em dose padrão, mas muitas vezes é necessário elevar gradualmente a posologia, podendo-se alcançar até quatro vezes a dose usual quando a resposta inicial é insuficiente. 

Essa estratégia aumenta o limiar de sensibilidade aos estímulos térmicos e reduz a frequência das crises. Apesar de serem o tratamento mais amplamente utilizado, alguns pacientes apresentam apenas melhora parcial, o que torna necessário complementar ou modificar a terapia.

Terapias adjuvantes e abordagens refratárias

Nos casos em que a resposta aos anti-histamínicos é limitada, outras opções podem ser consideradas. Omalizumabe, anticorpo monoclonal anti-IgE, tem sido relatado como eficaz em pacientes com quadro refratário, especialmente quando há um componente alérgico mais evidente ou maior intensidade das crises. 

Em algumas situações, o propranolol em baixas doses auxilia na redução da reatividade desencadeada pelo aumento da temperatura corporal, modulando a resposta autonômica associada ao exercício e ao calor.

Em casos selecionados, terapias com luz, como UVB ou combinações de psoraleno com UVA, demonstraram benefícios ao diminuir a susceptibilidade cutânea, principalmente quando coexistem outras urticárias físicas. 

Há relatos isolados de resposta favorável ao estanozolol, particularmente quando outras terapias falharam. O uso de cremes barreira também pode ser uma alternativa em situações muito específicas, principalmente quando a pele tende a permitir maior penetração do suor na derme, intensificando a reação.

Em situações menos comuns, combinações de fármacos que modulam vias neurossensoriais foram eficazes, como a associação entre um inibidor seletivo da recaptação de serotonina com ciproeptadina e metscopolamina, sugerindo que mecanismos neurocutâneos podem desempenhar papel em determinados pacientes.

Manejo dos subtipos associados à alteração da sudorese

Os subtipos relacionados à hipoidrose ou anidrose exigem abordagem distinta, pois nesses casos o problema central está na incapacidade de suar adequadamente. Quando a redução da sudorese decorre de falha funcional das glândulas écrinas ou diminuição dos receptores colinérgicos, tratamentos que visam restaurar essa função podem ser necessários. 

Pulsoterapia com corticosteroides sistêmicos é utilizada em quadros mais graves, com o objetivo de reduzir a inflamação ao redor das glândulas sudoríparas e reverter parcialmente a disfunção. Em alguns casos, agentes colinérgicos orais podem ser empregados para estimular a produção de suor.

Esses pacientes tendem a apresentar manifestações mais intensas, muitas vezes acompanhadas de dor ou sensação de queimação durante os episódios, o que torna o manejo clínico mais desafiador.

Dessensibilização por exposição controlada

Em certos pacientes, especialmente aqueles com alergia ao próprio suor, a exposição repetida e gradual a atividades que induzem sudorese pode atuar como forma de dessensibilização. 

Exercícios regulares, banhos quentes controlados ou estímulos térmicos programados favorecem um aumento progressivo do limiar de reação, reduzindo a intensidade e a frequência dos episódios ao longo do tempo. Essa estratégia requer constância e supervisão adequada, mas pode ser extremamente útil em quadros selecionados.

Veja também!

Referências

John P Dice, MDErika Gonzalez-Reyes, MD. Physical (inducible) urticaria. UpToDate, 2025. Disponível em: UpToDate

FUKUNAGA, Atsushi et al. Cholinergic Urticaria: Subtype Classification and Clinical Approach. American Journal of Clinical Dermatology, v. 24, p. 41–54, 2023. DOI: 10.1007/s40257-022-00728-6.

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