Síndrome do dedo azul: definição, manifestações clínicas e mais!
Fonte: HIRSCHMANN, Jack V.; RAUGI, Gregory J. Blue (or purple) toe syndrome. Journal of the American Academy of Dermatology, St. Louis, v. 60, n. 1, p. 1–20, jan. 2009.

Síndrome do dedo azul: definição, manifestações clínicas e mais!

E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Síndrome do dedo azul, uma condição clínica caracterizada por isquemia digital aguda, geralmente decorrente de microêmbolos que comprometem a circulação arterial distal. 

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Vamos nessa!

Definição de Síndrome do dedo azul

A síndrome do dedo azul ou blue toe syndrome é uma condição clínica caracterizada pelo aparecimento súbito de coloração azulada ou violácea em um ou mais dedos dos pés, geralmente acompanhada de dor, mesmo na presença de pulsos periféricos preservados. Essa alteração decorre de isquemia distal causada por obstrução da microcirculação digital, sem relação com trauma, exposição ao frio ou cianose sistêmica.

Trata-se de um sinal clínico e não de uma entidade nosológica única, podendo resultar de diferentes mecanismos fisiopatológicos. O mais frequente é a embolização de pequenos vasos, especialmente por microtrombos ou cristais de colesterol, levando à redução do fluxo sanguíneo capilar e à hipóxia tecidual local. Também podem estar envolvidos estados de hipercoagulabilidade, vasculites, alterações hematológicas e fenômenos de vasoconstrição.

A síndrome do dedo azul pode representar a manifestação inicial de doenças sistêmicas potencialmente graves, inclusive distúrbios trombóticos, nos quais o acometimento pode ser limitado a um único dedo. Nesses casos, a dor costuma ser intensa e o risco de progressão para necrose ou gangrena torna o reconhecimento precoce essencial.

Etiologia da Síndrome do dedo azul

A etiologia da síndrome do dedo azul é multifatorial e está relacionada a alterações que comprometem a microcirculação digital, resultando em isquemia localizada. As principais causas podem ser organizadas da seguinte forma:

  • Embolização arterial distal: obstrução de vasos de pequeno calibre por microêmbolos, como cristais de colesterol ou trombos ricos em fibrina e plaquetas, frequentemente ocorrendo com pulsos periféricos preservados;
  • Estados de hipercoagulabilidade: condições que aumentam a tendência à formação de trombos, incluindo trombofilias adquiridas, neoplasias e distúrbios autoimunes, podendo levar à isquemia digital isolada ou recorrente;
  • Vasculites sistêmicas: processos inflamatórios que acometem a parede vascular, promovendo estreitamento do lúmen, trombose secundária e redução do fluxo sanguíneo distal;
  • Alterações hematológicas e da viscosidade sanguínea: doenças que modificam as propriedades do sangue, favorecendo estase capilar e hipóxia tecidual;
  • Fenômenos de vasoconstrição: redução intensa do fluxo sanguíneo distal, relacionada ao uso de medicamentos, exposição ao frio ou disfunções autonômicas, podendo simular um quadro isquêmico.

Fisiopatologia da Síndrome do dedo azul

A fisiopatologia da síndrome do dedo azul baseia-se na redução da perfusão da microcirculação digital, levando à hipóxia tecidual e ao acúmulo de sangue desoxigenado nos tecidos distais. Esse comprometimento ocorre, em geral, sem obstrução das artérias de grande calibre, o que explica a presença frequente de pulsos periféricos preservados.

O mecanismo mais comum é a obstrução de arteríolas e capilares por microêmbolos, formados por cristais de colesterol ou agregados de fibrina e plaquetas. Esses êmbolos reduzem abruptamente o fluxo sanguíneo distal, causando coloração azulada ou violácea e dor. Em outros casos, ocorre trombose in situ da microvasculatura, especialmente em estados de hipercoagulabilidade, levando à isquemia progressiva.

A inflamação da parede vascular contribui para o estreitamento do lúmen e favorece a trombose secundária, agravando a redução do fluxo sanguíneo. Além disso, alterações reológicas do sangue, como aumento da viscosidade ou agregação celular, promovem estase capilar e hipóxia local.

A vasoconstrição intensa e sustentada das arteríolas digitais também pode reduzir significativamente a perfusão. Com a persistência da isquemia, pode ocorrer extravasamento de hemácias, tornando a coloração não esbranquiçável à digitopressão e favorecendo complicações como ulceração, necrose e gangrena.

Manifestações clínicas da Síndrome do dedo azul

Os sinais e sintomas da síndrome do dedo azul refletem o comprometimento isquêmico da microcirculação digital e podem ser organizados da seguinte forma:

  • Coloração azulada ou violácea dos dedos: alteração de início súbito em um ou mais dedos dos pés, sem associação com trauma, frio intenso ou cianose sistêmica;
  • Dor digital: geralmente presente, podendo variar de leve a intensa, muitas vezes desproporcional ao achado inicial e com piora progressiva conforme a isquemia se intensifica;
  • Sensação de frio local: percepção subjetiva de resfriamento do dedo acometido, relacionada à redução do fluxo sanguíneo distal;
  • Preservação dos pulsos periféricos: presença de pulsos arteriais palpáveis, indicando que as artérias de maior calibre costumam permanecer pérvias;
  • Alteração da resposta à digitopressão: nos estágios iniciais, a coloração pode ser esbranquiçável; com a progressão da lesão vascular, torna-se não esbranquiçável devido ao extravasamento de hemácias;
  • Livedo reticular e outras alterações cutâneas: aparecimento de padrão reticulo violáceo, cianose acral, púrpura ou pequenas áreas de infarto cutâneo associadas;
  • Úlceras isquêmicas e necrose: lesões cutâneas decorrentes de isquemia prolongada, com risco de infecção secundária;
  • Gangrena digital: complicação grave nos casos avançados, podendo levar à perda tecidual e necessidade de amputação;
  • Sinais sistêmicos associados: manifestações como febre, perda de peso, alterações neurológicas ou comprometimento renal, dependendo da doença de base relacionada à síndrome.
Blue toe Syndrome
Fotografia clínica inicial da face plantar do pé esquerdo, sem outros sinais de trombo (A), e com eritema e edema inespecíficos no dorso do pé esquerdo (B). Fonte: DIMOND, Devin G.; LAM, Jenny K.; WURSTER, Lauren; KISER, Christopher; DRISCOLL, Kevin; RAZZANTE, Mark. The solitary blue toe: a unique presentation of antiphospholipid syndrome. Journal of the American Podiatric Medical Association, Bethesda, v. 109, n. 3, p. 235–240, maio/jun. 2019.

Diagnóstico da Síndrome do dedo azul

O diagnóstico da síndrome do dedo azul é principalmente clínico, baseado na identificação de coloração azulada ou violácea de um ou mais dedos, geralmente acompanhada de dor, sem história de trauma, frio intenso ou cianose sistêmica. A presença de pulsos periféricos preservados é um achado comum e sugere comprometimento da microcirculação distal.

A anamnese e o exame físico são essenciais para orientar a investigação, incluindo avaliação de fatores de risco vasculares, doenças trombóticas, autoimunes ou neoplásicas, além da busca por alterações cutâneas associadas, como livedo reticular ou sinais de necrose.

Os exames laboratoriais auxiliam na identificação da causa subjacente, avaliando alterações inflamatórias, hematológicas e da coagulação, bem como estados de hipercoagulabilidade quando indicados. A investigação por imagem, especialmente com Doppler vascular e angiotomografia, é utilizada para identificar tromboses ou fontes de embolização proximal.

Tratamento da Síndrome do dedo azul

O tratamento da síndrome do dedo azul é direcionado principalmente à correção da causa subjacente, pois a condição representa um sinal clínico de diferentes processos patológicos. As medidas iniciais incluem controle da dor, proteção do membro acometido e monitorização da perfusão distal, com o objetivo de evitar a progressão da isquemia.

Nos casos relacionados à embolização arterial, o manejo pode envolver anticoagulação sistêmica e, quando há identificação de uma fonte embólica proximal, intervenções vasculares ou cirúrgicas para remoção do foco emboligênico e restauração do fluxo arterial. Em situações específicas, pode ser necessário ajuste ou suspensão de anticoagulantes, conforme o mecanismo envolvido.

Quando associada a estados de hipercoagulabilidade, a base do tratamento é a anticoagulação prolongada, visando prevenir novos eventos trombóticos e reduzir o risco de progressão da isquemia digital. O acompanhamento clínico contínuo é essencial para o ajuste da terapia e prevenção de complicações.

Nos quadros relacionados a vasculites ou processos inflamatórios, utilizam-se corticosteroides e/ou imunossupressores, de acordo com a doença de base identificada. Já nas situações de vasoconstrição, são indicadas medidas como suspensão de fármacos desencadeantes, aquecimento local e, em alguns casos, uso de vasodilatadores.

Em estágios avançados, quando há úlceras isquêmicas, necrose ou gangrena, pode ser necessária abordagem cirúrgica, incluindo desbridamento ou amputação, além do tratamento de infecções secundárias. Dessa forma, o manejo da síndrome do dedo azul deve ser precoce, individualizado e multidisciplinar, com foco na preservação tecidual e na prevenção de desfechos graves.

Veja também!

Referências

DIMOND, Devin G.; LAM, Jenny K.; WURSTER, Lauren; KISER, Christopher; DRISCOLL, Kevin; RAZZANTE, Mark. The solitary blue toe: a unique presentation of antiphospholipid syndrome. Journal of the American Podiatric Medical Association, Bethesda, v. 109, n. 3, p. 235–240, maio/jun. 2019.

HIRSCHMANN, Jack V.; RAUGI, Gregory J. Blue (or purple) toe syndrome. Journal of the American Academy of Dermatology, St. Louis, v. 60, n. 1, p. 1–20, jan. 2009.

Jonathan D Braun, MD. Embolism to the lower extremities. UpToDate, 2025. Disponível em: UpToDate

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