Resumo sobre Score ABCD²: definição, usabilidade e mais!
Fonte: Magnific

Resumo sobre Score ABCD²: definição, usabilidade e mais!

E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é o score ABCD², uma ferramenta clínica utilizada para estimar o risco de acidente vascular cerebral (AVC) após um ataque isquêmico transitório (AIT), especialmente nos primeiros dias após o evento.

O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.

Vamos nessa!

Definição de Score ABCD²

O escore ABCD² é uma ferramenta clínica desenvolvida para estimar o risco de ocorrência de AVC após um ataque isquêmico transitório (AIT), especialmente no período inicial após o evento, quando o risco de recorrência é mais elevado. 

O objetivo principal do escore é auxiliar na identificação de pacientes que necessitam de avaliação e tratamento mais urgentes, contribuindo para a priorização dos serviços de prevenção do AVC.

O ABCD² surgiu em 2007, a partir da combinação de dois escores previamente desenvolvidos para estimar o risco de AVC após um AIT: o ABCD, derivado de populações de Oxford e posteriormente validado em outras populações, e o California score. A combinação desses modelos resultou em uma ferramenta com pontuação de 0 a 7 pontos, posteriormente adotada em diferentes serviços de prevenção de AVC.

Sua importância está relacionada ao fato de que o risco de AVC após um AIT é particularmente elevado nos primeiros dias, tornando fundamental uma avaliação rápida e a instituição precoce de medidas de prevenção secundária. Dessa forma, o ABCD² foi proposto como uma estratégia para auxiliar na estratificação do risco e na definição da prioridade de atendimento.

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Critérios do ABCD²

O escore ABCD² possui pontuação de 0 a 7 pontos e é composto por cinco dimensões clínicas: idade, pressão arterial, características clínicas do episódio, duração dos sintomas e presença de diabetes mellitus. A pontuação é calculada a partir das informações obtidas durante ou logo após o AIT.

CritérioAchadoPontos
A – Age (idade)≥ 60 anos1
< 60 anos0
B – Blood pressure (PA)PA ≥ 140/90 mmHg na avaliação inicial1
PA < 140/90 mmHg0
C – Clinical features (características clínicas)Fraqueza unilateral2
Distúrbio da fala sem fraqueza unilateral1
Outros sintomas0
D – Duration (duração)≥ 60 minutos2
10–59 minutos1
< 10 minutos0
D – DiabetesPresença de diabetes mellitus1
Ausência de diabetes0

Após a atribuição da pontuação individual para cada critério, realiza-se o somatório dos pontos, obtendo-se um resultado final entre 0 e 7 pontos. A interpretação tradicional do escore é dividida em três categorias:

  • 0–3 pontos: baixo risco de AVC isquêmico. Pode-se considerar investigação e acompanhamento ambulatorial, conforme o contexto clínico e a disponibilidade de avaliação rápida.
  • 4–5 pontos: risco moderado de AVC isquêmico. A necessidade de avaliação hospitalar ou ambulatorial deve ser individualizada, considerando outros fatores clínicos e os resultados da investigação.
  • 6–7 pontos: alto risco de AVC isquêmico. Deve-se considerar investigação e manejo hospitalar ou avaliação especializada urgente.

É importante destacar que essas categorias representam uma estratificação de risco, e não determinam isoladamente a conduta. O ABCD² apresenta limitações por não incorporar aspectos como circulação posterior, mecanismo do AIT, presença de infarto na neuroimagem ou estenose carotídea

Limitações do Score ABCD²

O escore ABCD² apresenta algumas limitações importantes. Sua capacidade de discriminar pacientes com diferentes níveis de risco é moderada, com estatística C em torno de 0,6–0,7, podendo melhorar quando associado à presença de infarto agudo na ressonância magnética com difusão.

O escore também não contempla adequadamente sintomas de circulação posterior, como ataxia, dismetria e hemianopsia homônima, nem considera o mecanismo etiológico do AIT, como fibrilação atrial e outras causas cardioembólicas. Além disso, não inclui a presença de estenose significativa da artéria carótida ipsilateral, um importante fator de risco para AVC recorrente precoce.

Outra limitação é apresentar alta sensibilidade, mas baixa especificidade, dificultando a diferenciação precisa entre pacientes de maior e menor risco. Estudos recentes também questionaram sua capacidade de discriminar o risco em determinados períodos após o AIT.

Armadilhas do ABCD²

As principais armadilhas no uso do escore ABCD² estão relacionadas à interpretação da pontuação como se ela, isoladamente, definisse o risco ou a conduta do paciente:

  • Usá-lo como substituto da avaliação clínica: o ABCD² é uma ferramenta de estratificação, não um diagnóstico de AIT nem um substituto para avaliação neurológica e investigação etiológica.
  • Considerar uma pontuação baixa como “baixo risco absoluto”: mesmo pacientes com 0–3 pontos podem apresentar condições de alto risco, como estenose carotídea ou fibrilação atrial.
  • Subestimar AIT de circulação posterior: sintomas como ataxia, diplopia ou alterações visuais não são adequadamente representados pelo escore.
  • Ignorar achados de imagem: o ABCD² não considera inicialmente infarto cerebral agudo na RM nem estenose carotídea, fatores que podem modificar substancialmente o risco.
  • Aplicar o escore a pacientes que não têm diagnóstico confirmado de AIT: o ABCD² foi desenvolvido para pacientes com suspeita/diagnóstico de AIT e não deve ser usado para diferenciar, sozinho, AIT de seus diversos diagnósticos diferenciais.
  • Usar pontos de corte rigidamente: a interpretação de categorias como 0–3, 4–5 e 6–7 não deve determinar automaticamente alta, internação ou acompanhamento ambulatorial. A urgência deve considerar também o quadro clínico, a etiologia e os exames complementares.
  • Esquecer que o risco é dinâmico: o risco de AVC após um AIT é particularmente relevante nos primeiros dias, portanto uma avaliação rápida é importante independentemente da pontuação.

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Referências

Wardlaw J, Brazzelli M, Miranda H, et al. An assessment of the cost-effectiveness of magnetic resonance, including diffusion-weighted imaging, in patients with transient ischaemic attack and minor stroke: a systematic review, meta-analysis and economic evaluation. Southampton (UK): NIHR Journals Library; 2014 Apr. (Health Technology Assessment, No. 18.27.48.) Chapter 4, ABCD2 score and risk of stroke after transient ischaemic attack and minor stroke. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK263115/

AMIN, H. P. et al. Diagnosis, workup, risk reduction of transient ischemic attack in the emergency department setting: a scientific statement from the American Heart Association. Stroke, v. 54, n. 3, p. e109-e121, 2023. DOI: 10.1161/STR.0000000000000418.

AMARENCO, P. Transient ischemic attack. The New England Journal of Medicine, v. 382, n. 20, p. 1933-1941, 2020. DOI: 10.1056/NEJMcp1908837.

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