Resumo da Síndrome de Fanconi: causas, tratamento e mais!
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Resumo da Síndrome de Fanconi: causas, tratamento e mais!

Olá, querido doutor e doutora! A síndrome de Fanconi é uma condição rara e heterogênea que afeta a função do túbulo proximal renal, provocando perdas urinárias anormais de diversos solutos. Confira abaixo uma visão abrangente sobre suas causas, manifestações clínicas, diagnóstico e estratégias de manejo. 

A presença simultânea de glicosúria, fosfatúria e acidose metabólica com anion gap normal deve levantar forte suspeita de síndrome de Fanconi.

Conceito da síndrome de Fanconi 

A síndrome de Fanconi é uma alteração funcional do túbulo proximal renal caracterizada pela perda simultânea de diversas substâncias que, em condições normais, seriam reabsorvidas nessa porção do néfron. Entre os solutos comumente desperdiçados estão glicose, bicarbonato, fosfato, aminoácidos, ácido úrico e outros eletrólitos. Essa disfunção leva a um quadro de desequilíbrio metabólico com repercussões sistêmicas variáveis. Embora possa se manifestar em qualquer faixa etária, sua forma hereditária costuma surgir na infância, enquanto as variantes adquiridas são mais frequentes em adultos.

Fisiopatologia

Alterações no transporte tubular 

A base fisiopatológica da síndrome de Fanconi está na falência dos mecanismos de reabsorção do túbulo proximal renal. Nessa estrutura, ocorre normalmente a recuperação de grande parte dos solutos filtrados pelo glomérulo, como glicose, fosfato, bicarbonato, aminoácidos e íons diversos. Na síndrome, esse processo é comprometido, o que leva à perda urinária de substâncias essenciais, mesmo quando os níveis séricos estão normais. Esse desequilíbrio gera um padrão típico de glicosúria sem hiperglicemia, aminoacidúria, fosfatúria e acidose metabólica hiperclorêmica com ânion gap normal. A integridade do epitélio tubular e a funcionalidade das proteínas transportadoras envolvidas no processo são prejudicadas, seja por defeitos genéticos, seja por injúrias tóxicas ou inflamatórias. 

Impacto metabólico e bioenergético 

Outro aspecto importante envolve o comprometimento do metabolismo celular tubular, principalmente relacionado à produção e utilização de energia. As células do túbulo proximal possuem alta demanda energética para manter os mecanismos de transporte ativo, dependentes de ATP. Distúrbios mitocondriais ou intoxicações por metais pesados, como chumbo e cádmio, podem interferir nesse fornecimento energético, dificultando ainda mais a absorção dos solutos. A deficiência de ATP afeta tanto a captação de substâncias na borda em escova quanto sua liberação para o interstício renal, favorecendo o refluxo dessas substâncias de volta para o lúmen tubular. O resultado é um quadro clínico com desidratação, alterações ósseas e atraso de crescimento, sobretudo em crianças, além de possíveis repercussões neuromusculares pela hipofosfatemia crônica. 

Epidemiologia e fatores de risco

Epidemiologia 

A síndrome de Fanconi é considerada rara, tanto nas formas genéticas quanto nas adquiridas. Em crianças, a apresentação costuma ter origem hereditária, com destaque para a cistinose como causa mais comum, especialmente em populações de ascendência europeia. Já em adultos, os casos adquiridos são mais frequentes e frequentemente subdiagnosticados, dada a variabilidade dos sintomas e a associação com outras condições clínicas. A prevalência exata é difícil de estimar devido à heterogeneidade de causas e à ausência de registros sistematizados.

Fatores de risco 

Genéticos (formas hereditárias) 

  • Histórico familiar de doenças renais tubulares; 
  • Consanguinidade entre os pais; 
  • Presença de síndromes genéticas associadas (ex: cistinose, doença de Wilson, síndrome de Lowe, doença de Dent). 

Adquiridos (formas secundárias)

  • Uso de medicamentos nefrotóxicos: Antirretrovirais (ex: tenofovir); 
  • Quimioterápicos (ex: ifosfamida, cisplatina); 
  • Antibióticos aminoglicosídeos (ex: gentamicina, amicacina); 
  • Antiepilépticos (ex: valproato de sódio); 
  • Transplante renal; 
  • Doenças autoimunes (ex: síndrome de Sjögren); 
  • Exposição a metais pesados (ex: chumbo, cádmio, mercúrio); 
  • Intoxicação por solventes ou colas industriais.

Sintomas 

A síndrome de Fanconi apresenta manifestações clínicas variadas, que refletem a perda urinária anormal de substâncias reabsorvidas no túbulo proximal. Os sintomas podem surgir de forma discreta ou progressiva, afetando múltiplos sistemas. A apresentação difere conforme a idade e a causa subjacente.

CategoriaSintomas mais frequentes
GeralFadiga, desidratação, sede intensa, fraqueza
GastrointestinalNáuseas, vômitos, dor abdominal
RenalPoliúria, polidipsia, glicosúria sem hiperglicemia, aminoacidúria, proteinúria leve
ÓsseoRaquitismo (crianças), osteomalácia (adultos), dor óssea, fraturas espontâneas
Muscular/NeurológicoFraqueza muscular, parestesias, tremores
CrescimentoAtraso no crescimento e desenvolvimento em crianças

Diagnóstico da síndrome de Fanconi

Exames laboratoriais 

Os exames laboratoriais são fundamentais e revelam um padrão característico: glicosúria com glicemia normal, aminoacidúria, fosfatúria, acidose metabólica hiperclorêmica com anion gap normal, hipocalemia e hipofosfatemia. A presença simultânea de pelo menos três dessas alterações reforça o diagnóstico. A análise do pH urinário e a dosagem de bicarbonato ajudam a confirmar a acidose tubular renal proximal.

Testes complementares 

A coleta de urina de 24 horas pode quantificar a perda de solutos como fosfato, aminoácidos e bicarbonato. Marcadores mais específicos, como beta2-microglobulina e N-acetil-beta-D-glicosaminidase urinária, indicam lesão tubular proximal. Em casos de suspeita hereditária, exames genéticos podem identificar mutações em genes como SLC34A1, EHHADH, ou HNF4A, embora nem sempre estejam disponíveis na prática clínica.

Diagnóstico diferencial 

É importante excluir outras condições com manifestações semelhantes, como diabetes mellitus (pela presença de glicosúria), diabetes insipidus (polidipsia e poliúria), doenças ósseas por deficiência de vitamina D, e outras tubulopatias

Tratamento 

O tratamento da síndrome de Fanconi é voltado para a correção das perdas urinárias e, sempre que possível, para a remoção da causa subjacente. Isso inclui reposição de bicarbonato, fosfato e potássio, além de suporte nutricional individualizado. Em crianças, é importante incluir vitamina D e monitoramento do crescimento. Nos casos secundários a fármacos ou toxinas, a retirada do agente agressor pode levar à regressão parcial ou completa do quadro. O manejo deve ser ajustado conforme a gravidade dos distúrbios eletrolíticos e a função renal residual.

Evolução

O desfecho clínico da síndrome de Fanconi depende diretamente da etiologia e da precocidade do diagnóstico. Nas formas adquiridas, a reversão completa pode ocorrer após retirada da causa. Já nas variantes genéticas, o curso tende a ser progressivo, com risco de insuficiência renal crônica e necessidade de suporte contínuo. O acompanhamento multidisciplinar melhora a qualidade de vida e reduz as complicações a longo prazo.

Complicações

  • Atraso no crescimento e no desenvolvimento em crianças; 
  • Osteomalácia e fraturas espontâneas; 
  • Raquitismo resistente à vitamina D; 
  • Insuficiência renal crônica; 
  • Hipofosfatemia persistente; 
  • Distúrbios neuromusculares (fraqueza, parestesias); 
  • Acidose metabólica de difícil controle; e 
  • Risco aumentado de desidratação.

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Referências Bibliográficas 

  1. DUQUE DE OLIVEIRA, Amanda Teixeira et al. Síndrome de Fanconi-Bickel: um estudo de caso abordando características clínicas, diagnóstico e evolução clínica. Brazilian Journal of Health Review, Curitiba, v. 6, n. 5, p. 22257-22266, set./out. 2023. DOI: https://doi.org/10.34119/bjhrv6n5-262. 
  1. KEEFE, Patrick; BOKHARI, Syed Rizwan A. Fanconi Syndrome. In: StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2025 Jan.
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