E aí, doc! Vamos mergulhar em mais um tema importante? Hoje o destaque vai para o Distúrbio de Escoriação (DE), também conhecido como dermatilomania. Essa condição é marcada pelo comportamento recorrente de cutucar a própria pele, resultando em lesões visíveis e um sofrimento clínico ou prejuízo funcional significativo na vida do paciente.
O Estratégia MED está aqui para tornar esse conceito mais claro e facilitar seu aprendizado, contribuindo para uma prática clínica cada vez mais precisa e resolutiva.
Vamos lá!
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Definição de Distúrbio de escoriação
O Distúrbio de Escoriação (DE), também conhecido como dermatilomania, escoriação psicogênica ou neurótica, é uma condição caracterizada pelo comportamento recorrente de cutucar a própria pele, resultando em lesões cutâneas visíveis.
Trata-se de um transtorno classificado no DSM-5 e na CID-11 dentro do espectro dos transtornos obsessivo-compulsivos e transtornos relacionados, devido à sua semelhança com condições como a tricotilomania. Para o diagnóstico, é essencial que o ato de cutucar cause sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo funcional na vida do paciente, sendo frequentemente acompanhado por tentativas repetidas e frustradas de interromper ou reduzir esse comportamento.
O distúrbio de escoriação deve ser diferenciado de outras causas de lesões cutâneas, como aquelas decorrentes de outras condições mentais (por exemplo, o transtorno dismórfico corporal), uso de substâncias ou condições médicas gerais (como a escabiose), uma vez que o DE possui uma identidade diagnóstica distinta e requer uma abordagem terapêutica específica, que pode incluir intervenções comportamentais e farmacológicas.
Etiologia do Distúrbio de escoriação
A etiologia do Distúrbio de Escoriação (DE) envolve a interação complexa entre fatores biológicos, gatilhos emocionais e condições dermatológicas pré-existentes.
A condição tem seu início mais frequente na adolescência, geralmente coincidindo com a fase da puberdade. Embora possa surgir em qualquer etapa da vida, observa-se que a grande maioria dos indivíduos que buscam tratamento para o transtorno são mulheres.
Muitas vezes, o comportamento de cutucar a pele é desencadeado por condições dermatológicas comuns, como a acne ou o eczema. Além desses gatilhos físicos, fatores emocionais e situacionais desempenham um papel crucial: estados de estresse, raiva e ansiedade são apontados como principais motivadores para o início do ato de escoriação.
O comportamento também está fortemente associado a atividades sedentárias e momentos de relaxamento, ocorrendo com frequência enquanto o paciente assiste televisão ou lê, além de ser impulsionado por sentimentos de tédio ou cansaço.
Do ponto de vista clínico, o DE compartilha semelhanças fundamentais com o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e a tricotilomania, sendo por isso classificado dentro do espectro dos transtornos obsessivo-compulsivos e transtornos relacionados. É importante ressaltar que a etiologia do DE deve ser distinguida de comportamentos causados por outras condições mentais (como o transtorno dismórfico corporal), uso de substâncias (como cocaína) ou condições médicas gerais (como a escabiose), que requerem diagnósticos e tratamentos diferenciados.
Patogênese do Distúrbio de escoriação
A patogênese exata do Distúrbio de Escoriação (DE) ainda não é totalmente compreendida, mas as evidências científicas atuais sugerem que ela envolve uma complexa interação neurobiológica, com destaque para disfunções nos sistemas serotoninérgico e glutamatérgico.
Acredita-se que o desequilíbrio no controle do glutamato um importante neurotransmissor excitatório do sistema nervoso central e falhas na sinalização da serotonina desempenhem um papel central na manutenção desses comportamentos repetitivos.
Essa teoria ganha força devido à resposta clínica observada com o uso de Inibidores Seletivos de Recaptação de Serotonina (ISRSs) e de agentes moduladores de glutamato, como a N-acetilcisteína (NAC), que auxiliam no controle da impulsividade e do comportamento compulsivo. Ademais, a forte associação do DE com outros transtornos obsessivo-compulsivos e relacionados (TOC-R), como a tricotilomania, reforça a hipótese de que existam vias fisiopatológicas e circuitos neurais compartilhados entre essas condições.
Entretanto, o mecanismo do distúrbio também parece estar intimamente ligado à regulação emocional. O ato de cutucar a pele é frequentemente desencadeado por estados de estresse, ansiedade, tédio ou cansaço, sugerindo que o comportamento pode funcionar como um mecanismo disfuncional de alívio para tensões internas ou regulação de estímulos.
Manifestações clínicas do Distúrbio de escoriação
As manifestações clínicas do Distúrbio de Escoriação (DE) são dominadas pelo comportamento recorrente de cutucar a própria pele, que representa o sinal mais característico e central dessa condição. Esse comportamento leva invariavelmente ao surgimento de lesões cutâneas visíveis, que podem variar de pequenos ferimentos superficiais a danos teciduais significativos.
Embora o ato de cutucar possa ocorrer em qualquer parte do corpo, ele é observado com maior frequência na face, seguida pelas mãos, dedos, braços e pernas. Os pacientes podem direcionar o comportamento tanto para irregularidades mínimas da pele, como acne, crostas ou picadas de insetos, quanto para áreas de pele totalmente saudável. É comum que o indivíduo utilize as unhas para cutucar, mas também pode fazer uso de dentes, pinças ou outros objetos.
Além das lesões físicas, outros sintomas centrais incluem um sofrimento emocional profundo, marcado por sentimentos de vergonha, ansiedade e depressão. O impacto na rotina é notável, com pacientes gastando, em casos graves, várias horas por dia no comportamento de cutucar ou em tentativas persistentes de camuflar as lesões com maquiagem e roupas. Essa dedicação excessiva de tempo frequentemente resulta em prejuízo funcional, levando a atrasos ou faltas no trabalho, na escola e em atividades sociais.
Ao exame clínico, a característica diagnóstica essencial é a presença de lesões e o relato de uma incapacidade persistente de parar, mesmo após repetidas tentativas de reduzir ou interromper o comportamento. O clínico deve estar atento ao fato de que muitos pacientes evitam buscar ajuda por constrangimento ou por acreditarem que o problema é apenas um “mau hábito”
Entre as complicações mais graves do distúrbio de escoriação estão as infecções secundárias, a formação de cicatrizes permanentes e o desfiguramento físico significativo. Em situações extremas e raras documentadas na literatura, a gravidade das complicações decorrentes das lesões autoinfligidas pode até mesmo elevar o risco de mortalidade.
Diagnóstico clínico do Distúrbio de escoriação
O diagnóstico do Distúrbio de Escoriação (DE) é puramente clínico, baseia-se em critérios específicos estabelecidos no DSM-5 e na CID-11, que agora reconhecem formalmente a condição como um transtorno distinto dentro do espectro dos transtornos obsessivo-compulsivos e relacionados.
Para que o diagnóstico seja confirmado, você deve observar os seguintes pontos crucias:
- Comportamento e lesão: O critério central é o ato recorrente de cutucar a própria pele, que obrigatoriamente resulta em lesões cutâneas visíveis. O médico deve identificar que essas lesões são autoinfligidas e não causadas por uma condição dermatológica primária.
- Incapacidade de parar: Um marcador clínico essencial é o relato do paciente de tentativas repetidas e frustradas de interromper ou reduzir o comportamento. Essa característica reforça a natureza compulsiva do distúrbio.
- Impacto na qualidade de vida: O ato de cutucar não deve ser apenas um hábito; ele precisa causar um sofrimento clinicamente significativo ou um prejuízo funcional importante. Isso inclui pacientes que perdem compromissos ou evitam situações sociais por vergonha das lesões ou pelo tempo excessivo (às vezes horas por dia) gasto com o comportamento.
- Critérios de exclusão: Para um diagnóstico preciso, é fundamental garantir que o comportamento não seja melhor explicado por outras causas. O clínico deve descartar outros transtornos mentais, efeitos de substâncias e condições médicas gerais, como a escabiose.
Tratamento do Distúrbio de escoriação
Tratar o distúrbio de escoriação exige um olhar atento e uma combinação estratégica entre o cuidado com a mente e o ajuste da biologia do paciente. No coração do tratamento não farmacológico, temos a Terapia de Reversão de Hábito (TRH), que ajuda a pessoa a ganhar consciência sobre o momento em que começa a cutucar e a substituir esse movimento por uma ação inofensiva e incompatível, como fechar o punho.
Outra aliada poderosa é a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), que foca em ensinar o paciente a aceitar pensamentos e sentimentos difíceis sem precisar reagir a eles de forma autodestrutiva, mantendo o foco em seus valores pessoais em vez do impulso de escoriar.
Quando olhamos para o suporte medicamentoso, os inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRSs) como a fluoxetina e a sertralina continuam sendo a base para muitos, ajudando a controlar a natureza compulsiva do quadro. No entanto, uma das opções mais animadoras na literatura atual é a N-acetilcisteína (NAC). Como um modulador de glutamato, a NAC tem mostrado resultados significativos na redução do comportamento de cutucar em ensaios clínicos recentes, oferecendo uma alternativa eficaz com boa tolerabilidade.
Referências
LOCHNER, Christine; ROOS, Annerine; STEIN, Dan J. Excoriation (skin-picking) disorder: a systematic review of treatment options. Neuropsychiatric Disease and Treatment, [s. l.], v. 13, p. 1867-1872, 2017.



