Resumo sobre Otite média com efusão: definição, manifestações clínicas e mais!
Fonte: Magnific

Resumo sobre Otite média com efusão: definição, manifestações clínicas e mais!

E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a otite média com efusão, uma condição caracterizada pela presença de líquido no ouvido médio sem sinais agudos de infecção, geralmente associada à disfunção da tuba de Eustáquio, podendo levar a sensação de ouvido cheio e perda auditiva condutiva.

O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.

Vamos nessa!

Definição de Otite média com efusão

A otite média com efusão (OME) é uma condição clínica caracterizada pelo acúmulo de líquido na orelha média na ausência de sinais ou sintomas de infecção aguda. Esse líquido pode ser seroso (mais fluido) ou mucoide (mais espesso), refletindo diferentes mecanismos fisiopatológicos envolvidos, como alterações de pressão na orelha média e disfunção da tuba de Eustáquio.

A presença desse conteúdo líquido interfere na mobilidade da membrana timpânica, prejudicando sua capacidade de vibrar adequadamente em resposta aos estímulos sonoros. 

Como consequência, ocorre uma redução da condução do som, levando principalmente à perda auditiva leve e sensação de plenitude auricular. Em muitos casos, a condição é assintomática além dessas queixas.

A OME pode ser classificada como crônica quando persiste por três meses ou mais, sendo uma condição relevante, especialmente em crianças, devido ao potencial impacto no desenvolvimento da fala e da linguagem.

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Etiologia da Otite média com efusão

A etiologia da otite média com efusão (OME) é multifatorial e envolve a interação entre fatores do hospedeiro, alterações inflamatórias e influências ambientais, todos impactando principalmente a função da tuba de Eustáquio.

O principal mecanismo fisiopatológico está relacionado à disfunção da tuba de Eustáquio, estrutura responsável por equilibrar a pressão da orelha média, drenar secreções e proteger o ouvido médio. Quando há falha nesse sistema, ocorre formação de pressão negativa na orelha média, levando ao extravasamento de líquido (transudato) da mucosa e formação da efusão. Esse líquido inicialmente é estéril, mas pode favorecer infecções secundárias.

Entre os fatores do hospedeiro, destacam-se:

  • disfunção funcional ou obstrução anatômica da tuba de Eustáquio;
  • processos inflamatórios e alergias;
  • infecções do trato respiratório superior;
  • imaturidade ou comprometimento do sistema imunológico (como em imunodeficiências, HIV ou diabetes);
  • predisposição genética e alterações na produção de mucinas;
  • anomalias craniofaciais, como fenda palatina e síndromes genéticas (ex.: Down, Crouzon, Apert, Treacher Collins), que aumentam o risco pela alteração estrutural e funcional da tuba.

A idade é um fator importante: a OME é mais comum em crianças, especialmente entre 2 e 4 anos, pois a tuba de Eustáquio é mais curta, mais estreita e posicionada de forma mais horizontal, dificultando a ventilação da orelha média. Em adultos, especialmente nos casos unilaterais, deve-se investigar possíveis massas na nasofaringe.

Os fatores ambientais também contribuem significativamente, incluindo:

  • frequência em creches e contato próximo com outras crianças;
  • exposição à fumaça (passiva ou indireta);
  • presença de alergias;
  • condições socioeconômicas mais baixas;
  • histórico familiar de otite média;
  • práticas alimentares, como uso de mamadeira e alimentação em posição supina;
  • dieta rica em gorduras e possível associação com obesidade;
  • refluxo gastroesofágico, principalmente em adultos.

Fisiopatologia da Otite média com efusão

A fisiopatologia da otite média com efusão (OME) envolve o acúmulo de líquido na orelha média, que pode variar de um conteúdo seroso mais fluido até secreções espessas e mucoides (“glue ear”). Esse processo resulta de múltiplos mecanismos inter-relacionados, com destaque para inflamação, infecção persistente, fatores anatômicos e possíveis influências do refluxo gastroesofágico.

A hipótese inflamatória é uma das mais importantes. Processos inflamatórios desencadeados por infecções da rinofaringe levam a alterações na mucosa da orelha média e à produção de secreção. Embora anteriormente se acreditasse que o líquido fosse estéril, técnicas modernas identificaram material genético bacteriano nesse conteúdo, indicando participação de microrganismos como Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenzae e Moraxella catarrhalis.

Outro mecanismo relevante é a formação de biofilmes bacterianos, que são comunidades de bactérias organizadas em uma matriz protetora. Esses biofilmes podem persistir mesmo quando as culturas são negativas, mantendo atividade metabólica e apresentando resistência a antibióticos, o que contribui para a cronicidade da doença.

O refluxo gastroesofágico também pode participar da fisiopatologia, já que substâncias como pepsina e até microrganismos como Helicobacter pylori já foram identificados no líquido da orelha média. Além disso, condições alérgicas e inflamatórias das vias aéreas superiores favorecem o processo, estimulando a produção de mucinas. Proteínas como MUC1, MUC3 e MUC4 facilitam a adesão bacteriana, enquanto MUC5AC e MUC5B contribuem para o acúmulo de muco.

A estrutura e função da tuba de Eustáquio têm papel central. Em crianças, essa estrutura é mais curta, mais horizontal e menos eficiente na regulação da pressão e na proteção da orelha média contra secreções da nasofaringe. A presença de adenoides aumentadas pode agravar ainda mais a obstrução, favorecendo o acúmulo de líquido.

Manifestações clínicas da |Otite média com efusão

As manifestações clínicas costumam ser sutis e pouco específicas, especialmente em crianças, o que pode dificultar o reconhecimento precoce. O principal achado clínico é a perda auditiva, que frequentemente é percebida mais por familiares ou cuidadores do que pelo próprio paciente. Essa alteração pode impactar significativamente o desenvolvimento infantil e o desempenho nas atividades diárias.

Principais manifestações clínicas

  • Perda auditiva leve a moderada (sintoma mais comum);
  • Sensação de plenitude auricular (ouvido “tampado”);
  • Estalos ou sensação de pressão no ouvido;
  • Desconforto ou dor leve;
  • Manipulação frequente da orelha (principalmente em crianças).

Em crianças, além dos sintomas diretos, a OME pode gerar repercussões importantes no desenvolvimento e comportamento, como:

  • dificuldade de comunicação;
  • atraso no desenvolvimento da linguagem;
  • baixo rendimento escolar;
  • alterações comportamentais;
  • distúrbios do sono;
  • isolamento social e dificuldade de concentração.

Geralmente, há história prévia de otite média aguda, precedida por febre, dor e sintomas de infecção de vias aéreas superiores, evoluindo posteriormente para o acúmulo de líquido na orelha média.

Nos adultos, a apresentação clínica tende a ser diferente. A OME é mais frequentemente unilateral e pode surgir após infecções respiratórias ou mudanças de pressão (como em voos ou mergulhos). Os principais sintomas incluem:

  • perda auditiva;
  • zumbido (tinnitus);
  • sensação de obstrução ou ouvido cheio.

Achados ao exame físico

O exame otoscópico, especialmente a otoscopia pneumática, é fundamental e pode revelar:

  • diminuição da mobilidade da membrana timpânica;
  • presença de nível líquido ou bolhas de ar;
  • opacificação da membrana timpânica;
  • coloração alterada (amarelada ou azulada).

Diagnóstico da Otite média com efusão

O diagnóstico da otite média com efusão (OME) baseia-se principalmente na avaliação da audição e na confirmação da presença de líquido na orelha média, sendo complementado por exames adicionais em situações específicas.

Inicialmente, devem ser realizados exames audiológicos apropriados para a idade, com destaque para a audiometria tonal e a timpanometria, que são os métodos mais importantes na prática clínica. A timpanometria, em especial, tem grande valor diagnóstico, sendo que um timpanograma plano é fortemente sugestivo de OME.

Avaliação auditiva

  • Audiometria tonal: avalia o grau de perda auditiva;
  • Timpanometria: exame fundamental; curva plana indica presença de líquido na orelha média;
  • Perda auditiva condutiva: é o padrão mais comum na OME, devido à interferência na condução do som;
  • Pode haver gap aéreo-ósseo > 15 dB, característico de perda condutiva;
  • Em alguns casos, pode ocorrer perda auditiva mista, embora o mecanismo não seja totalmente esclarecido.

Em lactentes e crianças pequenas, métodos objetivos são utilizados:

  • Potenciais evocados auditivos de tronco encefálico (PEATE/ABR): padrão-ouro para avaliar audição em recém-nascidos, embora não seja específico para identificar perda condutiva;
  • Emissões otoacústicas (EOA/OAE): úteis para triagem, porém menos específicas e suscetíveis a interferências.

Além disso, em crianças com suspeita de OME, é importante realizar avaliação da linguagem, devido ao risco de atraso no desenvolvimento.

Exames complementares

Embora não sejam rotineiros, podem ser utilizados em situações específicas:

  • Hemograma: para afastar infecção aguda;
  • Velocidade de hemossedimentação (VHS/ESR): raramente utilizada, podendo ajudar na investigação de complicações;
  • Tomografia computadorizada: indicada para investigar complicações ou condições associadas, como colesteatoma ou anomalias;
  • Ressonância magnética: útil na avaliação de massas de partes moles ou alterações intracranianas.

Procedimentos diagnósticos

  • Timpanocentese: pode ser utilizada para coleta de material e alívio da pressão, com finalidade diagnóstica e terapêutica;
  • Miringotomia: frequentemente preferida, pois permite melhor drenagem da orelha média e possibilita a colocação de tubos de ventilação.

Tratamento da Otite média com efusão

O tratamento da otite média com efusão (OME) deve ser individualizado, considerando a intensidade dos sintomas, o impacto na audição e no desenvolvimento (especialmente em crianças), além da duração do quadro. As opções incluem desde conduta expectante até intervenções cirúrgicas.

Conduta expectante (watchful waiting)

Em muitos casos, a OME resolve espontaneamente, principalmente quando a perda auditiva é leve. Por isso, a observação clínica é frequentemente a primeira abordagem.

Durante esse período, recomenda-se a modificação de fatores de risco, como:

  • evitar exposição a alérgenos conhecidos;
  • evitar alimentar a criança em posição supina;
  • incentivar o aleitamento materno;
  • evitar exposição à fumaça (tabagismo passivo);
  • reduzir frequência em creches (quando possível);
  • uso de medidas como mastigação de chiclete (em alguns casos);

Autoinsuflação

A autoinsuflação consiste em forçar a entrada de ar pela tuba de Eustáquio, ajudando a equilibrar a pressão da orelha média e facilitar a drenagem do líquido.

  • Mais indicada para adultos ou crianças maiores;
  • Pode melhorar a audição e a qualidade de vida;
  • Depende da capacidade do paciente de realizar corretamente a técnica.

Tratamento farmacológico

De modo geral, os medicamentos têm benefício limitado na OME:

  • Antibióticos:
    • podem trazer melhora apenas temporária;
    • alta taxa de recorrência após o uso;
  • Corticosteroides (orais ou intranasais):
    • não demonstram benefício significativo na melhora auditiva;
  • Anti-histamínicos, descongestionantes e mucolíticos:
    • não apresentam benefício comprovado;
    • podem aliviar sintomas nasais associados;
    • anti-histamínicos podem até piorar a viscosidade do líquido;

Tratamento cirúrgico

As intervenções cirúrgicas são eficazes, especialmente em casos persistentes ou com impacto funcional importante.

Miringotomia com tubo de ventilação

É o tratamento cirúrgico mais utilizado:

  • permite a entrada de ar na orelha média;
  • reduz o acúmulo de líquido;
  • melhora a audição;
  • pode ser suficiente como tratamento definitivo em muitos casos.

Possíveis complicações (≈10%):

  • otorreia persistente;
  • timpanosclerose;
  • perfuração timpânica;
  • raramente: colesteatoma ou perda auditiva neurossensorial.

A cirurgia costuma ser indicada quando:

  • perda auditiva ≥ 40 dB;
  • impacto no desenvolvimento da fala;
  • persistência da OME;

Miringotomia sem tubo

  • Pode proporcionar alívio imediato;
  • Geralmente menos eficaz sem a colocação do tubo;

Adenoidectomia

  • Importante em casos persistentes ou recorrentes;
  • Pode ser associada à colocação de tubos;
  • Atua reduzindo obstrução e inflamação na nasofaringe;

Tonsilectomia

  • Não apresenta benefício na OME.

Dispositivos auditivos

  • Aparelhos auditivos podem ser utilizados em casos selecionados;
  • São uma alternativa não invasiva;
  • Uso limitado, especialmente em crianças.

De olho na prova!

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Revalida – Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT – 2015 – Revalida

Sobre otite média com efusão, assinale a afirmativa correta.

A) Otite média com efusão é definida como a presença de fluido na orelha média com sinais ou sintomas de infecção otológica aguda.

B) Mais de 50% dos lactentes apresentam um episódio de otite média com efusão no primeiro ano de vida.

C) A abordagem da otite média com efusão é com antibioticoterapia.

D) A otite média por efusão não é causa frequente de deficiência auditiva na infância.

Comentário da questão:

Correta a alternativa B

A)  Incorreta. A otite serosa realmente apresenta líquidos ou bolhas na orelha média mas sem sinais de infecção aguda. Lembre-se que esta é uma otite não infecciosa.

B) Correta. A otite média aguda serosa ou com efusão (OME) é definida pela presença de efusão na orelha média sem sinais agudos de infecção. Esta pode ocorrer após um quadro de OMA, mas também ocorre independente desta infecção, quando na vigência de disfunção da tuba auditiva.

 Vários fatores de risco para OMA também podem causar esta otite, além da própria otite média aguda (OMA) de repetição sendo os principais:

• Amamentação na posição horizontal

• Refluxo gastroesofágico

• Posição alimentar (na horizontal)

• Frequentador de creches (as com maior quantidade de alunos apresentam maior risco de contágio)

• Tabagismo passivo

• Hipertrofia de Adenoide

• Uso de chupeta

 O principal sintoma clínico decorrente da OME é uma hipoacusia condutiva. Porém, boa parte dos pacientes não conseguem verbalizar esta queixa, ou ainda estão em fase de aprendizagem da fala.

 Esta “sensação” foi apresentada nos enunciados de forma direta ou indireta, através de: atraso na fala, sensação de orelha entupida, dificuldade de ouvir e piora no rendimento escolar.

 Em semelhança com a OMA, temos uma maior presença de acometimento bilateral nos pacientes com OME até os dois anos.

  Porém, como diferença, não verificamos febre nem otalgia na OME, sintomas estes comuns na OMA.

 Ao exame físico, a OME apresenta de forma característica à otoscopia uma membrana timpânica retraída, com mobilidade reduzida, podendo ainda apresentar algumas áreas amareladas.  

 A membrana timpânica nesta patologia geralmente é translúcida e apresenta um líquido incolor associado a múltiplas bolhas na orelha média. 

Assim, pela presença de uma associação de fatores de risco nos lactentes é esperado que tenhamos pelo menos um episódio deste tipo de otite, fazendo correta esta alternativa.

C) Incorreta. A base do tratamento para resolução “definitiva” da OME é a realização da miringoplastia/miringotomia com introdução do tubo de ventilação.

 Com a miringotomia, podemos fazer a aspiração da secreção acumulada na orelha média, que adquire um aspecto de cola ou “glue”. Após a perfuração e drenagem, podemos inserir o famoso tubo de ventilação. Este é uma pequena válvula de silicone que manterá uma comunicação aérea entre a orelha média e o ouvido esterno. 

 Com esta comunicação, conseguimos equalizar a pressão entre a orelha média e o ambiente externo, função esta que deveria ser desempenhada pela tuba auditiva, que tende a estar disfuncionante nesta patologia.

 Podemos também fazer uma vigilância sem intervenção em alguns pacientes. A decisão entre a conduta expectante e cirurgia depende de características clínica da criança, associadas a características dos exames audiológicos.

D) Incorreta. O principal sintoma da OME é uma hipoacusia condutiva sem otalgia nem febre, sendo esta uma das principais causas de hipoacusia na infância que felizmente é reversível caso seja identificada e tratada prontamente.

Veja também!

Referências

Searight FT, Singh R, Peterson DC. Otitis Media With Effusion. [Updated 2025 Jul 7]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK538293/

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