E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Síndrome da Tosse das Vias Aéreas Superiores, uma condição frequentemente encontrada no consultório e que já foi muito chamada de “síndrome do gotejamento pós-nasal”.
Ela se caracteriza por uma tosse crônica associada a condições como rinites e rinossinusites, onde a sensação de muco escorrendo pela garganta e a necessidade de “limpar a garganta” (o famoso pigarro) são protagonistas.
O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.
Vamos nessa!
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Definição da síndrome da tosse das vias aéreas superiores
A Síndrome da Tosse das Vias Aéreas Superiores (STVAS) é o termo atual utilizado para descrever uma condição clínica frequente, caracterizada por uma tosse crônica associada a diversas anormalidades das vias aéreas superiores, como rinites e rinossinusites. Anteriormente denominada “síndrome do gotejamento pós-nasal”, essa entidade manifesta-se tipicamente pela sensação de muco acumulado na garganta, necessidade constante de pigarrear e drenagem nasal. A tosse, nesse contexto, é um reflexo complexo desencadeado por estímulos que ocorrem na região laringofaringea.
Embora a transição para a nomenclatura STVAS tenha sido recomendada pelo American College of Chest Physicians (ACCP) em 2006, o conceito ainda gera debates, especialmente entre as sociedades médicas europeias e americanas. Até o momento, não existem evidências de um exame padrão-ouro ou de achados físicos patognomônicos que confirmem a síndrome de forma isolada, o que contribui para uma grande variação em sua prevalência global.
A STVAS é amplamente reconhecida como uma das causas mais comuns de tosse persistente em pacientes não fumantes, sendo considerada na prática clínica como um diagnóstico de exclusão. Por não possuir testes diagnósticos objetivos e definitivos, a confirmação dessa condição muitas vezes repousa na resposta favorável do paciente ao tratamento empírico, como o uso de anti-histamínicos ou corticoides nasais.
Etiologia da síndrome da tosse das vias aéreas superiores
A etiologia da Síndrome da tosse das vias aéreas superiores é multifatorial e está intrinsecamente ligada a processos inflamatórios e irritativos que afetam o trato respiratório superior. O principal mecanismo envolve a presença de condições clínicas comuns, como as rinites (alérgica e não alérgica) e as rinossinusites crônicas, que atuam como gatilhos para o reflexo da tosse por meio de estímulos químicos ou mecânicos na região laringofaríngea.
A compreensão moderna da STVAS indica que a causa vai além do simples gotejamento pós-nasal mecânico. Ela envolve uma inflamação crônica das vias aéreas e uma hipersensibilidade neural sensorial. Receptores nervosos, como o TRPV1, tornam-se hiper-responsivos a mediadores inflamatórios e irritantes, o que explica por que a tosse pode persistir mesmo quando não há uma quantidade volumosa de secreção visível escorrendo pela garganta.
Os fatores ambientais e hábitos de vida também desempenham um papel crucial na etiologia. A exposição a aeroalérgenos, mudanças bruscas de temperatura, odores fortes e até o consumo de álcool podem exacerbar quadros de rinite vasomotora associados à síndrome. Ademais, a STVAS frequentemente coexiste com outras condições sistêmicas, como asma e doença do refluxo gastroesofágico (DRGE), formando um cenário de “vias aéreas unidas” onde múltiplas causas contribuem simultaneamente para a tosse.
A influência de irritantes externos e o histórico farmacológico do paciente são determinantes. O uso de inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA) e o tabagismo são causas conhecidas de tosse crônica que devem ser excluídas para que o diagnóstico de STVAS seja considerado, uma vez que podem mimetizar ou agravar a irritação das vias aéreas superiores.
Manifestações clínicas da síndrome da tosse das vias aéreas superiores
As manifestações clínicas da STVAS são marcadamente variadas e inespecíficas, o que exige um olhar clínico atento para sua identificação correta. O sintoma predominante é a tosse crônica, que persiste por mais de oito semanas em adultos e é frequentemente acompanhada por sinais de irritação nas vias superiores. Diferente de outras causas comuns, essa tosse geralmente não está relacionada ao exercício físico, mas tende a se manifestar de forma persistente logo após o seu início.
O paciente típico costuma relatar uma percepção subjetiva de gotejamento pós-nasal ou a sensação incômoda de muco acumulado na orofaringe, o que leva à necessidade frequente de pigarrear para “limpar a garganta”. Embora a tosse produtiva esteja presente na maioria dos casos, atingindo cerca de 74% dos pacientes, uma parcela significativa pode apresentar tosse seca ou até mesmo uma “STVAS silenciosa”, na qual as queixas nasais não são evidentes para o indivíduo no momento da consulta.
No exame físico, o médico pode encontrar indícios visuais valiosos, como a presença de secreções na parede posterior da faringe ou o aspecto de “pedras de calçamento” (cobblestoning) na mucosa, sinalizando um processo inflamatório crônico. Além disso, manifestações nasais como congestão, rinorreia e edema de cornetos frequentemente coexistem, reforçando a ligação da síndrome com quadros de rinite ou rinossinusite, que atuam como os principais gatilhos para o reflexo da tosse.
Em casos relacionados à rinite vasomotora, o quadro clínico pode ser exacerbado por mudanças de temperatura, odores fortes ou consumo de álcool, refletindo a hipersensibilidade das vias aéreas. É fundamental compreender que, devido à ausência de achados patognomônicos, o diagnóstico final muitas vezes depende da correlação entre esses sintomas e a melhora significativa após o tratamento específico.
Diagnóstico da síndrome da tosse das vias aéreas superiores
O diagnóstico da Síndrome da Tosse das Vias Aéreas Superiores é um processo desafiador na prática clínica, pois não existe um teste “padrão-ouro” único ou achados físicos patognomônicos que confirmem a condição de forma isolada. Por esse motivo, ela é essencialmente considerada um diagnóstico de exclusão, exigindo que o médico descarte outras causas frequentes de tosse crônica, como asma, doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) ou o uso de inibidores da ECA, antes de firmar a suspeita.
A anamnese detalhada surge como a ferramenta mais valiosa, focando em queixas específicas como a percepção subjetiva de muco acumulado na garganta e a persistência da tosse logo após o seu início. Estudos indicam que a ausência de tosse associada ao exercício físico também é um marcador clínico importante que ajuda a diferenciar a STVAS de outras patologias respiratórias. Embora a história clínica seja subjetiva, a seleção cuidadosa desses itens de entrevista aumenta significativamente a precisão na identificação da síndrome.
A observação da cavidade nasal também é fundamental para identificar edema ou secreção purulenta nos cornetos, o que reforça a associação do quadro com processos inflamatórios como rinites ou rinossinusites. Contudo, é importante lembrar que a ausência desses achados no momento da consulta não exclui o diagnóstico, tornando o relato dos sintomas do paciente ainda mais relevante.
Quanto aos exames complementares, a radiografia de tórax é recomendada para excluir doenças pulmonares subjacentes em pacientes com tosse persistente por mais de quatro semanas. Em situações de dúvida diagnóstica ou suspeita de rinossinusite crônica, a tomografia computadorizada pode ser necessária, embora ferramentas mais acessíveis e econômicas, como a ecografia de seios maxilares, tenham se mostrado úteis para detectar sinais de inflamação sinusal na prática ambulatorial. Esses métodos auxiliam na visualização de alterações que corroboram a hipótese de STVAS em casos de difícil definição.
Tratamento da síndrome da tosse das vias aéreas superiores
O manejo da STVAS é essencialmente empírico, funcionando como uma via de mão dupla: trata o paciente e, simultaneamente, confirma o diagnóstico. O objetivo central é silenciar o reflexo da tosse ao controlar a inflamação e reduzir a carga de secreções que irritam a região laringofaríngea. Como não existem exames padrão-ouro, a resolução dos sintomas após a intervenção é o que valida a suspeita clínica inicial.
A estratégia clássica envolve a combinação de anti-histamínicos e descongestionantes. Enquanto na rinite alérgica preferem-se os fármacos de segunda geração, nos quadros não alérgicos ou de rinossinusite, os de primeira geração são os protagonistas. Acredita-se que seu efeito anticolinérgico seja o principal responsável por interromper o ciclo da tosse, superando a ação puramente anti-histamínica.
Uma alternativa moderna e altamente eficaz, consolidada por estudos recentes, é o uso de corticoides nasais como terapia de primeira linha. Essa abordagem foca na supressão direta da inflamação da mucosa nasal e oferece um perfil de segurança superior aos sedantes orais. Na prática, observa-se que uma melhora significativa da tosse ocorre frequentemente em apenas duas semanas de uso regular.
Dependendo da patologia de base, outras medidas podem ser integradas, como o uso de mucolíticos (carbocisteína) ou inibidores de leucotrienos. Em casos de rinossinusite crônica purulenta que não respondem ao manejo clínico, antibióticos ou até a cirurgia endoscópica sinusal podem ser necessários. Ademais, em algumas regiões, o uso de medicamentos fitoterápicos e macrolídeos é comum para controlar inflamações crônicas.
Finalmente, a eficácia do tratamento deve ser avaliada em um período de duas a quatro semanas. A conduta deve ser sempre individualizada, ajustando-se à resposta clínica e aos sintomas específicos do paciente. A resolução completa da tosse após essas intervenções é o critério final que permite selar o diagnóstico de STVAS e garantir um cuidado seguro e eficaz.
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Referências
DONALDSON, Angela M. Upper Airway Cough Syndrome. Otolaryngologic Clinics of North America, [s. l.], v. 56, n. 1, p. 147-155, fev. 2023.
YASUDA, Kimihiko. Upper airway cough syndrome may be the main cause of chronic cough in Japan: a cohort study. Family Practice, [s. l.], v. 38, n. 6, p. 751-757, dez. 2021.



