E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Síndrome de Chilaiditi, uma condição rara caracterizada pela interposição do cólon entre o fígado e o diafragma, podendo ser identificada incidentalmente em exames de imagem ou associar-se a sintomas gastrointestinais e respiratórios.
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Vamos nessa!
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Definição de Síndrome de Chilaiditi
A síndrome de Chilaiditi é uma condição clínica caracterizada pela interposição de um segmento do intestino, geralmente o cólon e mais raramente o intestino delgado, entre o fígado e o diafragma, associada à presença de sintomas gastrointestinais.
Quando essa interposição é identificada apenas como um achado radiológico, sem manifestações clínicas, recebe o nome de sinal de Chilaiditi. Embora seja, em geral, uma condição benigna, a síndrome pode ser confundida com situações mais graves, como pneumoperitônio, o que torna essencial o reconhecimento correto para evitar procedimentos diagnósticos ou terapêuticos desnecessários.
Epidemiologia da Síndrome de Chilaiditi
A síndrome de Chilaiditi é uma condição rara, com incidência mundial do sinal de Chilaiditi variando entre 0,025% e 0,28%, apresentando predomínio masculino na proporção de 4:1. Ocorre mais frequentemente em idosos, grupo no qual a incidência pode alcançar 1%, embora haja relatos em uma ampla faixa etária, desde 5 meses até 81 anos de idade. Destaca-se ainda uma maior frequência em pacientes com transtornos mentais, com incidência estimada em 8,8%, possivelmente associada a alterações da motilidade intestinal e fatores clínicos relacionados.
Etiologia da Síndrome de Chilaiditi
A etiologia da síndrome de Chilaiditi está relacionada principalmente a variações anatômicas que permitem a interposição patológica do cólon entre o fígado e o diafragma. Em condições normais, os ligamentos suspensores e os mecanismos de fixação do cólon impedem essa interposição. Alterações como ausência, frouxidão ou alongamento dos ligamentos do cólon transverso ou do ligamento falciforme favorecem o desenvolvimento da síndrome.
Além disso, diversos fatores predisponentes podem contribuir para essa condição, incluindo malposições congênitas, distúrbios funcionais como constipação crônica associada à elongação e redundância do cólon, distensão gasosa intestinal, redução do volume hepático por cirrose ou hepatectomia e ascite, devido ao aumento da pressão intra-abdominal.
Outros fatores relevantes são perda ponderal acentuada, elevação anormal ou paralisia do diafragma, doença pulmonar obstrutiva crônica, que amplia a cavidade torácica inferior, e gestações múltiplas.
Há também associação com deficiência intelectual e esquizofrenia, possivelmente relacionadas a alterações anatômicas e funcionais intestinais. Em alguns casos, a síndrome pode ser iatrogênica, sendo descrita após cirurgia bariátrica, colocação de sonda enteral e colonoscopia.
Manifestações clínicas da Síndrome de Chilaiditi
As manifestações clínicas são variáveis e decorrem, principalmente, da interposição intestinal entre o fígado e o diafragma. Os sintomas mais comuns incluem dor abdominal, anorexia, náuseas, vômitos, flatulência, constipação e alterações do hábito intestinal. Em alguns pacientes, esses achados podem ser acompanhados de desconforto respiratório, especialmente quando a interposição compromete a excursão diafragmática.
Com menor frequência, podem ocorrer manifestações cardíacas, como dor torácica de característica anginosa e arritmias, resultantes da compressão de estruturas torácicas adjacentes. Os sintomas tendem a ser mais intensos no período noturno, particularmente quando o paciente se encontra em decúbito dorsal.
Embora raro, alguns indivíduos podem apresentar uma combinação de sintomas gastrointestinais, respiratórios e cardíacos. A intensidade das manifestações gastrointestinais varia desde quadros leves até apresentações graves, podendo simular um abdome agudo.
Diagnóstico da Síndrome de Chilaiditi
O diagnóstico baseia-se principalmente em achados radiológicos, sendo o sinal de Chilaiditi frequentemente identificado de forma incidental em radiografias de tórax ou em tomografia computadorizada (TC) de abdome. A incidência descrita é de 1,18% a 2,40% nos exames de TC abdominal e de 0,025% a 0,28% nas radiografias simples de tórax e abdome. Esses achados podem ser transitórios ou permanentes.
Para o diagnóstico radiológico do sinal de Chilaiditi, três critérios devem estar presentes: elevação do hemidiafragma direito acima do fígado pelo intestino interposto, distensão aérea do segmento intestinal, simulando um pseudo-pneumoperitônio, e rebaixamento da margem superior do fígado abaixo do nível do hemidiafragma esquerdo. O sinal pode ser classificado em tipo anterior ou posterior, conforme a posição do intestino em relação ao fígado.
O segmento intestinal mais frequentemente envolvido é a flexura hepática, o cólon ascendente ou o cólon transverso, embora existam relatos de envolvimento do intestino delgado. Diante da visualização de ar livre em radiografias simples, recomenda-se a realização de TC abdominal para diferenciar um pneumoperitônio verdadeiro, que pode demandar abordagem cirúrgica, da síndrome de Chilaiditi, cujo manejo é geralmente conservador.

Tratamento da Síndrome de Chilaiditi
Nos indivíduos que apresentam apenas o sinal de Chilaiditi em exames de imagem, sem manifestações clínicas, não há necessidade de intervenção terapêutica. Nesses casos, a conduta é expectante, sendo fundamental excluir previamente diagnósticos diferenciais potencialmente graves, como pneumoperitônio ou obstrução intestinal.
Tratamento conservador
Nos pacientes sintomáticos, a abordagem inicial deve ser conservadora. O objetivo é promover a descompressão intestinal e aliviar os sintomas.
As principais medidas incluem:
- Hidratação com fluidos intravenosos;
- Descompressão intestinal por meio de sonda nasogástrica;
- Repouso no leito;
- Uso de laxantes e enemas.
Após a descompressão, recomenda-se repetir o exame radiográfico para verificar a resolução do ar subdiafragmático. O desaparecimento do ar após essas medidas reforça o diagnóstico de síndrome de Chilaiditi e confirma a eficácia do tratamento conservador.
Indicação de tratamento cirúrgico
A intervenção cirúrgica está indicada quando:
- Não há resposta ao tratamento conservador;
- A obstrução intestinal persiste;
- Há sinais de isquemia intestinal.
Não existe consenso quanto à melhor técnica cirúrgica, e a escolha deve ser individualizada conforme o quadro clínico e as complicações associadas.
Entre as opções descritas:
- A cecopexia pode ser considerada para prevenir recorrência em casos de volvo cecal não complicado;
- A ressecção colônica é a conduta mais adequada nos casos de volvo do cólon transverso ou quando há indicação formal de ressecção intestinal.
Considerações sobre colonoscopia
A redução colonoscópica não é recomendada devido à elevada frequência de gangrena nos casos de volvo associados. Caso a colonoscopia seja realizada, deve ser conduzida com extrema cautela, em razão do risco de aprisionamento de ar em um segmento intestinal angulado e interposto, o que pode levar à perfuração.
A utilização de dióxido de carbono como agente de insuflação pode reduzir esse risco, pois apresenta absorção mais rápida em comparação ao ar ambiente.
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Referências
Kumar A, Mehta D. Síndrome de Chilaiditi. [Atualizado em 10 de abril de 2023]. Em: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; janeiro de 2025. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK554565/
KAMIYOSHIHARA, Mitsuhiro; IBE, Takashi; TAKEYOSHI, Izumi. Chilaiditi’s sign mimicking a traumatic diaphragmatic hernia. Annals of Thoracic Surgery, v. 87, n. 3, p. 959-961, mar. 2009. DOI: 10.1016/j.athoracsur.2008.07.033.



