Resumo sobre Síndrome de Eagle: definição, manifestações clínicas e mais!
Síndrome de Eagle. A ilustração mostra um processo estiloide alongado, que pode comprimir estruturas adjacentes, em comparação com um processo estiloide normal. Ilustração de C. Rowe. Fonte: Bokhari MR, Graham C, Mohseni M. Eagle Syndrome. [Updated 2023 Jul 29]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK430789/

Resumo sobre Síndrome de Eagle: definição, manifestações clínicas e mais!

E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Síndrome de Eagle, uma condição rara causada pelo alongamento do processo estiloide ou pela calcificação do ligamento estilo-hióideo, podendo provocar dor orofaríngea, sensação de corpo estranho na garganta e desconforto ao deglutir. 

O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.

Vamos nessa!

Definição de Síndrome de Eagle

A síndrome de Eagle, também conhecida como síndrome estilo-hióidea, síndrome do processo estiloide ou síndrome estiloide–carótida, é uma condição rara caracterizada pelo alongamento ou deformidade do processo estiloide do osso temporal. 

Essa alteração anatômica pode interferir nas estruturas vizinhas do pescoço e da região orofacial, resultando em dor cervical e orofacial, frequentemente desencadeada ou agravada por movimentos do pescoço, deglutição ou rotação da cabeça. A síndrome foi descrita pela primeira vez em 1937 pelo otorrinolaringologista Watt W. Eagle.

Síndrome de Eagle
Síndrome de Eagle. A ilustração mostra um processo estiloide alongado, que pode comprimir estruturas adjacentes, em comparação com um processo estiloide normal. Ilustração de C. Rowe. Fonte: Bokhari MR, Graham C, Mohseni M. Eagle Syndrome. [Updated 2023 Jul 29]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK430789/

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Etiologia da Síndrome de Eagle

A etiologia da síndrome de Eagle não é completamente esclarecida e envolve diferentes hipóteses. Watt W. Eagle sugeriu que trauma cirúrgico, especialmente após tonsilectomia, ou irritação crônica local podem desencadear processos inflamatórios, como osteíte, periostite ou tendinite do processo estiloide e do ligamento estilo-hióideo, levando a hiperplasia ossificante reativa.

Outra teoria, proposta por Lentini (1975), sugere que remanescentes da cartilagem de Reichert (elementos mesenquimais persistentes) podem sofrer metaplasia óssea após eventos traumáticos ou estressantes. Epifanio (1962) também levantou a hipótese de associação com distúrbios endócrinos, especialmente em mulheres na menopausa, que podem apresentar ossificação de ligamentos.

Além disso, Gokce et al. (2008) relataram que pacientes com doença renal crônica em estágio terminal podem desenvolver calcificações heterotópicas devido a alterações no metabolismo de cálcio, fósforo e vitamina D, favorecendo o alongamento do processo estiloide. Por fim, Sekerci (2015) observou possível relação entre o forame arqueado e o alongamento do processo estiloide, sugerindo participação de variações anatômicas no desenvolvimento da síndrome.

Fisiopatologia da Síndrome de Eagle

A fisiopatologia está relacionada principalmente ao alongamento ou à angulação anormal do processo estiloide e à ossificação do complexo estilo-hióideo, alterações que podem levar à compressão ou irritação de estruturas neurovasculares próximas.

Inicialmente, acreditava-se que a síndrome estivesse associada à formação de tecido cicatricial após tonsilectomia, o que causaria compressão das estruturas neurovasculares no compartimento retroestiloide. Entretanto, a condição também ocorre em pacientes sem histórico cirúrgico, indicando a participação de outros mecanismos.

Um dos principais mecanismos propostos é a compressão de nervos cranianos, especialmente o nervo glossofaríngeo (IX), provocando dor na garganta e no pescoço. Essa dor costuma ser contínua e de caráter mais surdo, podendo lembrar a neuralgia do glossofaríngeo, embora alguns pacientes apresentem episódios de dor aguda e intermitente ao longo do trajeto desse nervo. Outros nervos cranianos, como o V, VII e X, também podem ser afetados.

Outra possibilidade é a compressão da artéria carótida interna pelo processo estiloide alongado. Essa compressão pode causar ataques isquêmicos transitórios ou irritação do plexo simpático carotídeo, resultando em diferentes manifestações clínicas.

Também foram propostas teorias de hiperplasia reativa e metaplasia reativa, nas quais trauma local levaria ao crescimento excessivo do processo estiloide ou à ossificação do ligamento estilo-hióideo, mecanismo que pode explicar a ocorrência da síndrome após tonsilectomia.

Além disso, um processo estiloide excessivamente longo ou com angulação anormal pode causar irritação mecânica da musculatura ou da mucosa adjacente. Alterações relacionadas ao envelhecimento, como perda da elasticidade dos tecidos e degeneração inflamatória na inserção tendinosa do ligamento estilo-hióideo (tendinose de inserção), também podem produzir sintomas semelhantes, quadro denominado pseudo-síndrome estilo-hióidea.

Manifestações clínicas da Síndrome de Eagle

As manifestações clínicas da síndrome de Eagle costumam surgir mais frequentemente na terceira ou quarta década de vida. Embora a mineralização do processo estiloide não apresente predileção clara entre os sexos, os sintomas são mais comuns em mulheres. O quadro clínico pode variar desde desconforto leve até dor neurológica intensa.

Didaticamente, os sintomas podem ser divididos em duas formas principais: síndrome de Eagle clássica e síndrome de Eagle vascular (síndrome estilocarotídea).

Síndrome de Eagle clássica

A forma clássica ocorre geralmente após trauma faríngeo ou tonsilectomia e está relacionada ao estiramento ou compressão dos nervos cranianos V, VII, VIII, IX e X ou de suas terminações na fossa tonsilar durante o processo de cicatrização.

Características principais:

  • Dor faríngea constante e de caráter surdo;
  • Localizada na fossa tonsilar ipsilateral;
  • Pode irradiar para o ouvido;
  • Piora com rotação da cabeça.

Em alguns casos, podem ocorrer episódios de dor semelhantes à neuralgia do glossofaríngeo, embora a dor geralmente seja contínua.

Outros sintomas associados:

  • Sensação de corpo estranho na faringe (muito comum);
  • Disfagia;
  • Odinofagia;
  • Otalgia;
  • Cefaleia;
  • Dor facial;
  • Dor durante mastigação ou rotação cervical;
  • Zumbido (tinnitus);
  • Dor ao longo da distribuição das artérias carótidas;

Ao exame físico, pode-se palpar uma massa ou saliência na fossa tonsilar, o que pode reproduzir ou intensificar os sintomas. A apresentação costuma ser unilateral, embora raramente possa ser bilateral.

Síndrome de Eagle vascular (síndrome estilocarotídea)

Essa forma ocorre devido à compressão da artéria carótida interna ou externa e de suas fibras simpáticas perivasculares por um processo estiloide alongado ou desviado. Geralmente não há história de tonsilectomia.

Características principais:

  • Dor desencadeada ou agravada por movimentos da cabeça;
  • Dor ao longo da distribuição da artéria comprimida.

Possíveis manifestações:

  • Ataque isquêmico transitório (AIT);
  • Vertigem;
  • Síncope.

Irradiação da dor conforme a artéria envolvida:

  • Carótida interna: dor irradiada para a região supraorbital;
  • Carótida externa: dor irradiada para a região infraorbital.

Diagnóstico de Síndrome de Eagle

O diagnóstico da síndrome de Eagle baseia-se principalmente em história clínica detalhada, exame físico e confirmação por exames de imagem.

Avaliação clínica

Inicialmente, é fundamental realizar uma anamnese cuidadosa, pois a dor na garganta com irradiação para o pescoço, ouvido ou face é um sintoma inespecífico. Dessa forma, outras condições devem ser excluídas antes de considerar a síndrome de Eagle, como:

  • Neoplasias do trato aerodigestivo superior;
  • Neuralgias;
  • Disfunção da articulação temporomandibular.

O quadro típico inclui dor faríngea surda e pulsátil, associada a um processo estiloide alongado, que geralmente piora durante a deglutição.

Exame físico

O exame físico pode auxiliar significativamente no diagnóstico. O processo estiloide alongado pode ser palpado por via intraoral, colocando-se o dedo indicador na fossa tonsilar e aplicando pressão suave.

Achados sugestivos incluem:

  • Reprodução da dor à palpação da fossa tonsilar;
  • Dor que irradia para o ouvido, face ou cabeça.

Em indivíduos com processo estiloide de comprimento normal, essa estrutura geralmente não é palpável.

Um diagnóstico diferencial importante é a tendinite de inserção do ligamento estilo-hióideo, que pode produzir sintomas semelhantes, mas costuma causar sensibilidade dolorosa sobre o corno maior do osso hioide.

Exames de imagem

Após suspeita clínica, o diagnóstico deve ser confirmado por métodos de imagem.

O exame mais preciso é a tomografia computadorizada (TC), especialmente com reconstrução tridimensional (3D), que permite:

  • Medir com precisão o comprimento do processo estiloide;
  • Avaliar a ossificação do ligamento estilo-hióideo.

Em adultos, o processo estiloide normal mede cerca de 2,5 cm, sendo considerado alongado quando ultrapassa 3 cm. Estima-se que cerca de 4% da população apresente processo estiloide alongado, porém apenas 4–10% desses indivíduos desenvolvem sintomas.

Outros exames que podem ser utilizados incluem:

  • Ortopantomografia (OPG);
  • Tomografia computadorizada (TC).

Nos casos em que há suspeita de compressão vascular, especialmente quando o paciente apresenta sintomas isquêmicos, recomenda-se realizar angiografia por TC ou angiografia por cateter, preferencialmente com a cabeça posicionada de forma a reproduzir os sintomas, permitindo identificar possível estenose mecânica da artéria carótida.

Tratamento da Síndrome de Eagle

O tratamento da síndrome de Eagle pode ser realizado de forma conservadora ou cirúrgica, dependendo da intensidade dos sintomas e da resposta do paciente às terapias iniciais.

Tratamento conservador

O manejo inicial geralmente é não cirúrgico, com o objetivo de controlar a dor e os sintomas associados. As principais opções incluem:

  • Analgésicos
  • Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs)
  • Antidepressivos
  • Anticonvulsivantes
  • Diazepam
  • Aplicação de calor local
  • Injeções transfaríngeas de corticosteroides e lidocaína

Outra técnica descrita é a manipulação transfaríngea com fratura manual do processo estiloide alongado, porém esse método raramente proporciona alívio dos sintomas e apresenta risco de lesão das estruturas neurovasculares adjacentes, sendo pouco recomendado.

Tratamento cirúrgico

Pacientes que não respondem ao tratamento medicamentoso podem necessitar de intervenção cirúrgica. O tratamento mais eficaz é a ressecção ou encurtamento do processo estiloide (estiloidectomia), que costuma proporcionar melhores resultados a longo prazo.

A cirurgia pode ser realizada por duas abordagens principais:

Abordagem intraoral

Vantagens:

  • Técnica mais simples;
  • Menor tempo cirúrgico;
  • Pode ser realizada sob anestesia local;
  • Ausência de cicatriz externa visível.

Desvantagens:

  • Acesso limitado ao campo cirúrgico;
  • Maior dificuldade no controle de hemorragias;
  • Risco de infecção profunda do pescoço;
  • Visualização reduzida, especialmente em pacientes com abertura bucal limitada;
  • Possível lesão iatrogênica de estruturas neurovasculares;
  • Edema pós-operatório podendo causar alterações na fala e na deglutição.

Abordagem externa (cervical)

Vantagens:

  • Melhor exposição do processo estiloide e das estruturas adjacentes;
  • Facilita a remoção de ligamento estilo-hióideo parcialmente ossificado.

Desvantagens:

  • Maior tempo cirúrgico;
  • Risco de lesão do nervo facial e de seus ramos;
  • Cicatriz cervical visível;
  • Período de recuperação mais prolongado.

Na prática, a escolha da abordagem cirúrgica costuma depender da experiência e especialidade do cirurgião. Apesar da cirurgia ser considerada o tratamento mais eficaz, falhas terapêuticas podem ocorrer em até cerca de 20% dos casos.

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Referências

Bokhari MR, Graham C, Mohseni M. Eagle Syndrome. [Updated 2023 Jul 29]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK430789/

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