Resumo sobre Síndrome de Li-Fraumeni: definição, tratamento e mais!
Fonte: Magnific

Resumo sobre Síndrome de Li-Fraumeni: definição, tratamento e mais!

E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Síndrome de Li-Fraumeni, uma síndrome hereditária de predisposição ao câncer causada, na maioria dos casos, por mutações germinativas no gene TP53, levando a um risco significativamente aumentado de desenvolvimento de múltiplas neoplasias ao longo da vida, frequentemente em idades precoces.

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Vamos nessa!

Definição de Síndrome de Li-Fraumeni

Síndrome de Li-Fraumeni (SLF) é uma síndrome hereditária de predisposição ao câncer, de herança autossômica dominante, causada por variantes patogênicas germinativas no gene TP53. Esse gene codifica a proteína p53, um importante supressor tumoral responsável por regular o ciclo celular, promover o reparo de danos ao DNA e induzir apoptose quando as alterações genéticas são irreparáveis. Quando há perda de sua função, células com instabilidade genômica podem sobreviver e proliferar, favorecendo o desenvolvimento de neoplasias malignas.

A síndrome caracteriza-se por um risco marcadamente aumentado de câncer em idades precoces, muitas vezes durante a infância, adolescência ou início da vida adulta. Os indivíduos afetados podem desenvolver uma ampla variedade de tumores, frequentemente antes dos 45 anos de idade, destacando-se os sarcomas ósseos e de partes moles, o câncer de mama de início precoce, os tumores do sistema nervoso central, o carcinoma adrenocortical e as leucemias.

Além da ocorrência precoce de neoplasias, pacientes com síndrome de Li-Fraumeni apresentam elevado risco de desenvolver múltiplos tumores primários ao longo da vida. O risco cumulativo de câncer é extremamente elevado, aproximando-se de 100% nas mulheres e de cerca de 73% nos homens, tornando essa uma das mais importantes síndromes hereditárias de predisposição ao câncer.

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Fisiopatologia da Síndrome de Li-Fraumeni

A síndrome de Li-Fraumeni é causada por variantes patogênicas germinativas no gene TP53, localizado no cromossomo 17p13.1. Esse gene codifica a proteína p53, um dos principais supressores tumorais do organismo, desempenhando papel fundamental na manutenção da estabilidade genômica e na proteção contra a transformação maligna.

Os indivíduos afetados herdam uma cópia anormal do gene TP53 em todas as células do organismo. Durante o processo de carcinogênese, a segunda cópia funcional do gene pode sofrer mutação somática ou deleção, resultando na perda completa da atividade da proteína p53. Esse mecanismo corresponde ao modelo clássico de inativação de genes supressores tumorais.

Em condições normais, a p53 é ativada quando ocorre dano ao DNA celular. Sua atuação promove a interrupção temporária do ciclo celular, permitindo o reparo das lesões genéticas. Quando o dano é extenso e irreversível, a proteína induz apoptose, eliminando células potencialmente perigosas. Dessa forma, a p53 funciona como um importante mecanismo de vigilância contra o surgimento de neoplasias.

Na ausência de uma proteína p53 funcional, células com DNA danificado não são adequadamente interrompidas nem eliminadas. Essas células podem sobreviver, acumular novas alterações genéticas e proliferar de maneira descontrolada, favorecendo a instabilidade genômica e a transformação neoplásica. Esse processo explica a elevada predisposição ao desenvolvimento de múltiplos tipos de câncer observada na síndrome de Li-Fraumeni.

Mais de 300 variantes germinativas distintas de TP53 já foram descritas, sendo a maioria do tipo missense e localizada na região de ligação ao DNA da proteína. Essas alterações comprometem a capacidade da p53 de regular a expressão de genes envolvidos no controle do ciclo celular, reparo do DNA e apoptose, contribuindo para o amplo espectro tumoral característico da síndrome.

Manifestações clínicas da Síndrome de Li-Fraumeni

As manifestações clínicas da síndrome de Li-Fraumeni decorrem principalmente da elevada predisposição ao desenvolvimento de neoplasias malignas em idades precoces. O espectro clínico é amplo e inclui tumores que podem surgir desde a infância até a vida adulta, frequentemente antes dos 45 anos de idade. Aproximadamente 80% dos cânceres associados à síndrome ocorrem antes dessa faixa etária.

Uma das características mais marcantes da síndrome é a ocorrência de múltiplos tumores primários ao longo da vida. Pacientes portadores de variantes patogênicas em TP53 apresentam risco significativamente aumentado de desenvolver uma segunda, terceira ou até quarta neoplasia independente após o diagnóstico inicial de câncer.

Os tumores mais frequentemente associados à síndrome variam conforme a idade de apresentação.

Crianças

Na população pediátrica, os tumores mais comuns são:

  • Osteossarcoma;
  • Carcinoma adrenocortical;
  • Tumores do sistema nervoso central, especialmente gliomas, carcinoma do plexo coroide e meduloblastoma;
  • Sarcomas de partes moles, incluindo rabdomiossarcoma.

Os sarcomas representam uma das manifestações clássicas da síndrome. O osteossarcoma e o rabdomiossarcoma podem surgir em idades muito precoces, sendo particularmente frequentes em crianças menores de cinco anos.

Adultos

Nos adultos, o tumor mais característico é o câncer de mama de início precoce, especialmente em mulheres jovens. A idade mediana ao diagnóstico é de aproximadamente 33 anos, e cerca de um terço dos casos ocorre antes dos 30 anos.

Outras neoplasias frequentes incluem:

  • Sarcomas de partes moles;
  • Tumores cerebrais;
  • Carcinoma adrenocortical;
  • Leucemias;
  • Adenocarcinoma de pulmão;
  • Câncer de próstata de comportamento mais agressivo.

Além desses tumores, também foram descritos casos de melanoma, câncer gástrico, linfoma, tumor de Wilms e câncer colorretal, geralmente em idades mais precoces do que as observadas na população geral.

Outra característica importante é a maior suscetibilidade ao desenvolvimento de neoplasias associadas à exposição prévia à radioterapia, motivo pelo qual pacientes com síndrome de Li-Fraumeni requerem atenção especial durante o planejamento terapêutico de seus cânceres.

Diagnóstico da Síndrome de Li-Fraumeni

O diagnóstico da síndrome de Li-Fraumeni (SLF) baseia-se na identificação de uma variante patogênica germinativa no gene TP53, considerada o padrão-ouro para confirmação da doença. Entretanto, a suspeita clínica frequentemente surge a partir da história pessoal e familiar de cânceres característicos ocorrendo em idades precoces.

A suspeita deve ser considerada em indivíduos com:

  • Cânceres típicos da síndrome em idade jovem;
  • Múltiplos tumores primários no mesmo paciente;
  • História familiar de neoplasias associadas à SLF;
  • Presença de tumores fortemente relacionados a mutações germinativas de TP53, mesmo na ausência de história familiar.

Critérios clínicos clássicos

Os critérios clássicos de Li-Fraumeni incluem a presença de todos os seguintes elementos:

  • Sarcoma diagnosticado antes dos 45 anos em um indivíduo (caso índice);
  • Parente de primeiro grau com qualquer câncer antes dos 45 anos;
  • Parente de primeiro ou segundo grau com qualquer câncer antes dos 45 anos ou sarcoma em qualquer idade.

Embora esses critérios sejam altamente específicos, eles não identificam todos os portadores da síndrome.

Critérios de Chompret

Atualmente, os critérios de Chompret são amplamente utilizados para selecionar indivíduos candidatos à investigação molecular do gene TP53. A suspeita é levantada quando ocorre uma das seguintes situações:

Tumor do espectro da síndrome associado à história familiar

Paciente com tumor relacionado à SLF antes dos 46 anos e pelo menos um familiar de primeiro ou segundo grau com tumor do espectro da síndrome antes dos 56 anos ou com múltiplos tumores.

Múltiplos tumores primários

Paciente com múltiplas neoplasias primárias, sendo pelo menos duas pertencentes ao espectro tumoral da síndrome, com o primeiro câncer surgindo antes dos 46 anos.

Tumores altamente sugestivos

Presença de:

  • Carcinoma adrenocortical;
  • Tumor do plexo coroide;

independentemente da história familiar

Indicações para teste genético do TP53

Além dos indivíduos que preenchem critérios clínicos, recomenda-se investigação genética em pacientes com:

  • Carcinoma do plexo coroide;
  • Rabdomiossarcoma embrionário anaplásico;
  • Sarcomas da infância (exceto sarcomas associados a translocações);
  • Leucemia linfoblástica aguda hipodiploide na infância;
  • Meduloblastoma infantil associado à via sonic hedgehog;
  • História familiar conhecida de variante patogênica em TP53.

Confirmação diagnóstica

A confirmação definitiva da síndrome ocorre pela identificação de uma variante patogênica germinativa em TP53 por meio de testes moleculares. O resultado positivo permite estabelecer o diagnóstico, orientar o aconselhamento genético e identificar familiares em risco.

Diagnósticos diferenciais

Outras síndromes hereditárias de predisposição ao câncer podem apresentar manifestações semelhantes e devem ser consideradas na avaliação, incluindo:

  • Síndromes associadas aos genes BRCA1 e BRCA2;
  • Síndrome de Lynch;
  • Síndromes hereditárias associadas a sarcomas e tumores pediátricos;
  • Outras condições relacionadas a genes supressores tumorais.

Tratamento da Síndrome de Li-Fraumeni

Não existe tratamento específico capaz de corrigir a alteração genética subjacente da síndrome de Li-Fraumeni. Dessa forma, o manejo é direcionado ao tratamento das neoplasias que surgem ao longo da vida e à implementação de estratégias de vigilância para detecção precoce de novos tumores.

Tratamento das neoplasias

De modo geral, os cânceres diagnosticados em pacientes com síndrome de Li-Fraumeni são tratados segundo os mesmos princípios utilizados na população geral, considerando o tipo histológico, o estadiamento e as características individuais de cada tumor. O tratamento pode incluir cirurgia, quimioterapia, terapias-alvo e outras modalidades oncológicas conforme a neoplasia envolvida.

Cuidados com a radioterapia

Uma particularidade importante da síndrome é a maior suscetibilidade ao desenvolvimento de neoplasias secundárias induzidas pela radiação. Como consequência, a utilização de radioterapia deve ser cuidadosamente avaliada, buscando-se evitá-la sempre que existirem alternativas terapêuticas igualmente eficazes.

Em mulheres com câncer de mama associado à síndrome de Li-Fraumeni, recomenda-se, quando apropriado, a mastectomia em vez da cirurgia conservadora seguida de radioterapia, justamente para reduzir o risco de tumores secundários relacionados à exposição à radiação.

Vigilância oncológica

A vigilância intensiva constitui um dos pilares do manejo da síndrome de Li-Fraumeni, uma vez que possibilita a identificação precoce de neoplasias potencialmente curáveis. Os protocolos atuais recomendam acompanhamento sistemático ao longo de toda a vida.

As principais estratégias de rastreamento incluem:

Avaliação clínica

  • Exame clínico periódico;
  • Atenção especial a sinais e sintomas sugestivos de neoplasias;
  • Monitorização da pressão arterial e de sinais de virilização ou puberdade precoce em crianças.

Ressonância magnética de corpo inteiro

  • Realização anual desde o nascimento;
  • Método preferencial por não utilizar radiação ionizante;
  • Objetiva detectar tumores assintomáticos em estágios iniciais.

Vigilância do sistema nervoso central

  • Ressonância magnética cerebral anual;
  • Início na infância, devido ao risco elevado de tumores cerebrais.

Rastreamento do câncer de mama

  • Ressonância magnética mamária anual entre 20 e 65 anos;
  • Preferência por métodos sem exposição à radiação.

Vigilância do carcinoma adrenocortical na infância

  • Ultrassonografia abdominal semestral;
  • Dosagem periódica de esteroides urinários quando necessário.

Colonoscopia

  • Indicada a cada cinco anos em pacientes previamente submetidos à radioterapia abdominal ou com história familiar sugestiva de maior risco para câncer colorretal.

Aconselhamento genético

O aconselhamento genético é parte fundamental do manejo, pois a síndrome apresenta herança autossômica dominante. A identificação de uma variante patogênica em TP53 permite a avaliação de familiares em risco e a implementação precoce de programas de vigilância apropriados.

Prognóstico

O prognóstico está relacionado principalmente ao tipo de neoplasia desenvolvida e à possibilidade de detecção precoce. A adoção de protocolos estruturados de vigilância tem demonstrado aumento na identificação de tumores em estágios iniciais, contribuindo para melhores desfechos clínicos e maior sobrevida dos portadores da síndrome.

Referências

D Gareth Evans, MD, FRCP, Helen Hanson, MD. Li-Fraumeni syndrome. UpToDate, 2026. Disponível em: https://www.uptodate.com 

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