E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Síndrome de Rotor, uma condição hereditária rara caracterizada por hiperbilirrubinemia conjugada benigna, decorrente de defeitos no armazenamento e no transporte hepático da bilirrubina.
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Vamos nessa!
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Definição de Síndrome de Rotor
A Síndrome de Rotor é uma doença genética rara, de herança autossômica recessiva, caracterizada por hiperbilirrubinemia mista, com predomínio de bilirrubina conjugada, sem evidência de hemólise. O distúrbio ocorre devido à deficiência no armazenamento hepatocelular da bilirrubina conjugada, que acaba extravasando para o plasma, levando ao aumento crônico dos níveis séricos de bilirrubina.
Clinicamente, manifesta-se principalmente por icterícia não hemolítica, geralmente intermitente, podendo ser o único achado, como icterícia conjuntival. Trata-se de uma condição benigna e autolimitada, com fígado histologicamente normal e sem necessidade de tratamento, sendo frequentemente diagnosticada de forma incidental.
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Epidemiologia da Síndrome de Rotor
A Síndrome de Rotor é uma condição hereditária rara, de prevalência desconhecida, em grande parte porque a maioria dos pacientes é assintomática e o diagnóstico costuma ocorrer de forma incidental. Descrita pela primeira vez em 1948, nas Filipinas, apresenta distribuição mundial, com casos relatados em diversos países. É considerada a segunda causa hereditária rara de hiperbilirrubinemia, ficando atrás apenas da síndrome de Crigler-Najjar tipo 1, sem predileção por sexo. A manifestação clínica ocorre mais frequentemente na adolescência ou no início da vida adulta, embora haja relatos de apresentação logo após o nascimento ou durante a infância, reforçando seu caráter congênito.
Fisiopatologia da Síndrome de Rotor
A fisiopatologia da Síndrome de Rotor está relacionada a mutações em proteínas responsáveis pelo transporte hepático da bilirrubina e de outros ânions orgânicos do sangue para o fígado. Essas alterações não comprometem a conjugação da bilirrubina, que ocorre normalmente, mas afetam de forma significativa o armazenamento intracelular da bilirrubina conjugada nos hepatócitos, favorecendo seu extravasamento para a circulação sistêmica.
Além disso, pacientes com Síndrome de Rotor podem apresentar deficiência funcional da glutationa-S-transferase hepática, proteína que atua como carreadora intracelular de compostos orgânicos. Essa deficiência resulta em captação citosólica inadequada da bilirrubina e prejudica o processo de secreção dos conjugados bilirrubínicos para o lúmen canalicular, contribuindo para o retorno da bilirrubina conjugada ao plasma.
Como consequência do defeito no armazenamento e na excreção hepática, ocorre reabsorção da bilirrubina conjugada para a corrente sanguínea, com subsequente eliminação urinária. Esse mecanismo explica o aumento da coproporfirina I na urina, achado característico da síndrome. Estudos de colescintigrafia demonstram discreta redução da excreção biliar, associada a uma redução acentuada da capacidade de armazenamento hepatocelular.
Essas alterações levam ao desenvolvimento de hiperbilirrubinemia predominantemente conjugada, manifestada clinicamente por icterícia. Diferentemente da síndrome de Dubin-Johnson, não há pigmentação hepática, e o fígado apresenta histologia normal, reforçando o caráter benigno da Síndrome de Rotor.
Manifestações clínicas da Síndrome de Rotor
As manifestações clínicas da Síndrome de Rotor são geralmente leves e inespecíficas, e muitos pacientes permanecem assintomáticos ao longo da vida. Quando presentes, os sinais costumam surgir ao nascimento, na infância ou no início da vida, com evolução frequentemente intermitente.
A icterícia não pruriginosa é a principal manifestação clínica e pode variar de discreta a evidente. Em alguns casos, manifesta-se apenas como icterícia escleral, enquanto em outros pode ser generalizada. Associado a isso, alguns pacientes referem urina escura, fadiga e icterícia de longa duração, sem comprometimento significativo do estado geral.
Em uma minoria dos pacientes, aproximadamente 5% a 30%, podem ocorrer sintomas adicionais, como dor abdominal, alterações da mucosa gástrica e febre, geralmente de caráter leve e transitório.
Ao exame físico, os achados são, em geral, normais, exceto pela presença de icterícia leve. Diferentemente de outras condições colestáticas, não há prurido, nem hepatomegalia ou esplenomegalia, mesmo na presença de icterícia, o que constitui um dado clínico importante para o diagnóstico diferencial.
A síndrome pode ser diferenciada de outras causas hereditárias de hiperbilirrubinemia, como a síndrome de Dubin Johnson, pelo fato de o fígado apresentar aspecto e histologia normais, sem pigmentação escura, reforçando seu caráter benigno.
Diagnóstico da Síndrome de Rotor
O diagnóstico da Síndrome de Rotor é feito, em grande parte, por exclusão. A principal alteração laboratorial é a elevação da bilirrubina total, geralmente entre 2 e 5 mg/dL, podendo alcançar valores mais elevados, com predomínio da fração conjugada. As enzimas hepáticas, como ALT, AST, GGT e fosfatase alcalina, costumam estar dentro da normalidade, embora discreta elevação possa ser observada. Aumento significativo desses marcadores sugere a necessidade de investigação de outras doenças hepáticas ou biliares.
Exames de imagem
Os exames de imagem não confirmam o diagnóstico, mas são fundamentais para excluir outras causas de hiperbilirrubinemia, especialmente obstrução biliar extra hepática. A ultrassonografia do fígado e das vias biliares é o exame mais utilizado nesse contexto. Na colecistografia oral, a vesícula biliar é visualizada na Síndrome de Rotor, diferentemente da síndrome de Dubin Johnson, auxiliando no diagnóstico diferencial.
Excreção urinária de coproporfirinas
A análise da coproporfirina urinária é considerada o método mais específico para o diagnóstico. Na Síndrome de Rotor, observa-se um aumento de duas a cinco vezes da excreção total de coproporfirinas, com cerca de 65% correspondendo à coproporfirina I. Esse padrão permite a diferenciação em relação à síndrome de Dubin Johnson, na qual aproximadamente 90% da coproporfirina urinária é do tipo I.
Exames funcionais e histológicos
A depuração plasmática do bromossulfobromoftaleína encontra-se retardada, porém sem o pico secundário característico da síndrome de Dubin Johnson. Quando realizada, a biópsia hepática revela fígado de aspecto histológico normal, sem depósito pigmentar, reforçando o diagnóstico de Síndrome de Rotor e auxiliando na exclusão de outras hepatopatias hereditárias.
Tratamento da Síndrome de Rotor
O tratamento da Síndrome de Rotor não é necessário, uma vez que se trata de uma condição benigna, sem impacto na morbidade, mortalidade ou na expectativa de vida. A icterícia é um achado persistente ao longo da vida, porém não está associada a complicações clínicas relevantes.
A conduta adequada baseia-se principalmente no reconhecimento correto do diagnóstico, com o objetivo de diferenciá-la de outras causas mais graves de hiperbilirrubinemia, evitando investigações desnecessárias e intervenções inadequadas. Além disso, é fundamental a orientação e tranquilização do paciente e de seus familiares, esclarecendo o caráter benigno da síndrome e a ausência de necessidade de tratamento específico ou acompanhamento invasivo.
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Referências
Hashmi MF, Mehta D. Rotor Syndrome. [Updated 2023 Feb 19]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2025 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK532306/



