Resumo sobre Trombose de Veia Porta: definição, manifestações clínicas e mais!
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Resumo sobre Trombose de Veia Porta: definição, manifestações clínicas e mais!

E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Trombose de Veia Porta, uma condição caracterizada pela formação de trombo no sistema porta, podendo levar a hipertensão portal, dor abdominal e complicações potencialmente graves, especialmente em pacientes com cirrose, neoplasias ou estados de hipercoagulabilidade. 

O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.

Vamos nessa!

Definição de Trombose de Veia Porta

A trombose de veia porta (TVP) é caracterizada pelo estreitamento ou obstrução parcial ou total da veia porta por um trombo, podendo acometer o tronco principal, seus ramos intra-hepáticos e, em alguns casos, estender-se para as veias esplênica e mesentérica superior. 

Trata-se de uma condição relativamente frequente na prática clínica, associada principalmente à cirrose hepática, mas que também pode ocorrer na ausência de doença hepática, estando relacionada a neoplasias, sepse abdominal, pancreatite e estados de hipercoagulabilidade.

Do ponto de vista fisiopatológico, a trombose compromete o fluxo sanguíneo do sistema porta, responsável por drenar cerca de 75% do suprimento sanguíneo hepático proveniente do trato gastrointestinal, baço e pâncreas. 

A forma aguda caracteriza-se por oclusão súbita, sem desenvolvimento prévio de circulação colateral ou sinais estabelecidos de hipertensão portal. Já na forma crônica, observa-se frequentemente a formação de circulação colateral, como a transformação cavernomatosa da veia porta, além de manifestações relacionadas à hipertensão portal.

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Etiologias da Trombose de Veia Porta

A trombose de veia porta (TVP) possui etiologia multifatorial, sendo a cirrose hepática a causa mais frequente. Em pacientes não cirróticos, predomina a associação com estados pró-trombóticos hereditários ou adquiridos, especialmente as doenças mieloproliferativas, que representam a principal condição trombofílica identificada. 

Outras causas incluem síndrome antifosfolípide, hemoglobinúria paroxística noturna, hiper-homocisteinemia e deficiências de proteína C, proteína S e antitrombina III. Mutação do fator V de Leiden e mutação da protrombina também podem estar envolvidas.

As neoplasias, como carcinoma hepatocelular e câncer de pâncreas, são responsáveis por cerca de 25% dos casos. Processos inflamatórios intra-abdominais, como pancreatite, colangite, apendicite e abscessos hepáticos, podem desencadear TVP por lesão endotelial. 

Procedimentos cirúrgicos abdominais, incluindo esplenectomia, cirurgias bariátricas e pancreatectomia, além de intervenções como escleroterapia endoscópica e shunt portossistêmico intra-hepático transjugular, também estão associados.

Outras condições relacionadas incluem doenças do tecido conjuntivo, doença de Behçet, doença inflamatória intestinal, uso de contraceptivos orais, gestação, trauma abdominal e fibrose retroperitoneal. Em crianças, a obstrução extra-hepática da veia porta geralmente está associada a infecções neonatais, como onfalite e sepse, ou a manipulação da veia umbilical.

Epidemiologia da Trombose de Veia Porta

A trombose de veia porta (TVP) apresenta prevalência variável, sendo mais frequente em pacientes com cirrose hepática. Nessa população, a prevalência varia de 0,6% a 16%, podendo alcançar até 35% quando associada ao carcinoma hepatocelular. Entre pacientes em lista para transplante hepático, a ocorrência é ainda mais comum.

Na população geral, o risco ao longo da vida é estimado em aproximadamente 1%. Uma revisão sistemática com metanálise que avaliou mais de 8.500 estudos identificou prevalência média de 13,9% em pacientes cirróticos, com intervalo de confiança de 11,18% a 16,91%.

Entre os principais fatores associados ao maior risco de TVP em cirróticos destacam-se classificação Child-Pugh B ou C, níveis elevados de D-dímero, uso prévio de betabloqueadores não seletivos, presença de varizes esofágicas moderadas a graves e ascite.

Fisiopatologia da Trombose de Veia Porta

A fisiopatologia da trombose de veia porta (TVP) baseia-se nos três componentes da tríade de Virchow:

  • Redução do fluxo sanguíneo portal;
  • Estado de hipercoagulabilidade;
  • Lesão endotelial vascular.
  1. Alteração do fluxo portal

A veia porta é formada pela confluência das veias esplênica e mesentérica superior e conduz sangue do trato gastrointestinal e do baço ao fígado.

Na cirrose hepática, a fibrose e a distorção arquitetural do fígado reduzem a velocidade do fluxo portal, favorecendo estase sanguínea e formação de trombos.

Nas neoplasias hepáticas, como carcinoma hepatocelular ou colangiocarcinoma, a trombose pode ocorrer por invasão direta do vaso pelo tumor ou por compressão extrínseca da veia porta.

  1. Hipercoagulabilidade

Pode ser dividida em causas hereditárias e adquiridas.

Trombofilias hereditárias:

  • Mutação do fator V de Leiden;
  • Mutação da protrombina G20210A;
  • Deficiência de proteína C;
  • Deficiência de proteína S;
  • Deficiência de antitrombina;
  • Elevação do fator VIII;
  • Mutação do gene da metilenotetrahidrofolato redutase.

Essas alterações aumentam a tendência à formação de trombos.

Condições adquiridas associadas:

  • Cirrose;
  • Doenças mieloproliferativas;
  • Síndrome de Behçet;
  • Doenças do tecido conjuntivo;
  • Hemoglobinúria paroxística noturna;
  • Uso de contraceptivos orais;
  • Gestação;
  • Doença inflamatória intestinal;
  • Pancreatite aguda.
  1. Lesão endotelial

A injúria direta do endotélio portal pode ocorrer em:

  • Cirurgias abdominais;
  • Traumas;
  • Escleroterapia endoscópica;
  • Shunt portossistêmico intra-hepático transjugular.

Manifestações clínicas da Trombose de Veia Porta 

A trombose de veia porta pode ser assintomática na maioria dos pacientes, sendo muitas vezes diagnosticada incidentalmente em exames de imagem. Quando sintomática, a apresentação varia conforme o caráter agudo ou crônico e a presença de doença hepática associada.

Forma crônica

A obstrução prolongada do fluxo portal leva ao desenvolvimento de hipertensão portal. As principais manifestações incluem:

  • Sensação de plenitude no hipocôndrio esquerdo devido à esplenomegalia;
  • Hemorragia digestiva alta por varizes esofágicas ou gástricas;
  • Anemia e trombocitopenia secundárias ao hiperesplenismo.

Nos casos de obstrução extra-hepática da veia porta, os pacientes geralmente apresentam apenas complicações relacionadas à hipertensão portal, podendo inclusive ter sangramento digestivo alto bem tolerado.

Forma aguda em fígado não cirrótico e não maligno

A apresentação costuma ser mais sintomática. Os achados mais frequentes são:

  • Dor abdominal, presente na maioria dos casos;
  • Febre;
  • Ascite.

Quando há extensão do trombo para a veia mesentérica superior, podem ocorrer complicações graves, como:

  • Isquemia intestinal;
  • Infarto intestinal;
  • Íleo;
  • Hematoquezia;
  • Sepse.

Essas situações estão associadas a maior mortalidade.

Em pacientes com cirrose

O surgimento de nova trombose pode desencadear descompensação hepática, manifestando-se por:

  • Piora ou aparecimento de ascite;
  • Icterícia;
  • Sangramento por varizes.

Diagnóstico de Trombose de Veia Porta 

O diagnóstico baseia-se na associação entre achados clínicos, exames laboratoriais e métodos de imagem, sendo estes últimos fundamentais para confirmação e avaliação da extensão do trombo.

Exames laboratoriais

As provas de função hepática geralmente permanecem normais ou discretamente alteradas, exceto quando a trombose ocorre em pacientes com cirrose.

Na presença de hipertensão portal secundária à forma crônica, pode haver trombocitopenia, decorrente de esplenomegalia e hiperesplenismo.

Nos casos de biliopatia portal, pode ocorrer elevação de fosfatase alcalina e bilirrubina.

Ultrassonografia com Doppler

A ultrassonografia com Doppler é o exame de escolha inicial, apresentando sensibilidade e especificidade entre 80% e 100%, com elevada acurácia.

Os principais achados incluem:

  • Presença de material sólido isoecoico ou hipoecoico no interior da veia porta;
  • Preenchimento parcial ou total do lúmen;
  • Redução ou ausência de fluxo portal ao Doppler;
  • Esplenomegalia associada.

Na trombose crônica, pode-se observar cavernoma portal, caracterizado por múltiplos vasos tortuosos substituindo a veia porta.

A ultrassonografia com contraste e o ultrassom endoscópico podem ser úteis quando o fluxo portal é de difícil avaliação.

Tomografia computadorizada e ressonância magnética

A tomografia com contraste e a ressonância magnética fornecem informações adicionais importantes, como:

  • Extensão do trombo;
  • Presença de infarto intestinal;
  • Avaliação de órgãos adjacentes.

A tomografia também auxilia na diferenciação entre trombo benigno e trombo tumoral.

O trombo benigno geralmente aparece como defeito de preenchimento hipodenso e sem realce pelo contraste. Já o trombo tumoral apresenta realce após contraste, com distensão da parede vascular ou neovascularização intratrombo.

A ressonância magnética apresenta alta sensibilidade e especificidade para trombose do tronco principal da veia porta e é especialmente útil na avaliação de ressecabilidade tumoral e no seguimento pós-tratamento. A tomografia por emissão de pósitrons associada à tomografia também pode auxiliar na diferenciação entre obstrução benigna e maligna.

Endoscopia digestiva

A endoscopia é indicada para avaliar complicações da hipertensão portal. Pode evidenciar:

  • Gastropatia hipertensiva portal;
  • Varizes esofágicas, gástricas ou ectópicas.

Varizes volumosas são mais frequentes na trombose crônica.

Investigação de estados pró-trombóticos

Após a confirmação diagnóstica, recomenda-se investigação etiológica abrangente para identificar distúrbios trombofílicos, incluindo:

  • Síndrome antifosfolípide;
  • Dosagem de proteína C, proteína S e antitrombina III;
  • Pesquisa de mutação do fator V de Leiden;
  • Outros fatores pró-coagulantes.

Tratamento da Trombose de Veia Porta

O tratamento tem como objetivos principais limitar a progressão do trombo, promover recanalização do sistema portal e prevenir complicações como isquemia intestinal e hipertensão portal. A abordagem deve ser individualizada conforme o contexto clínico, presença de cirrose e fatores de risco trombóticos.

Anticoagulação

A anticoagulação é a base do tratamento, especialmente na trombose aguda.

Indicações

  • Trombose aguda não cirrótica;
  • Trombose com risco de isquemia intestinal;
  • Doença hepática compensada com diagnóstico recente de trombose;
  • Pacientes em lista para transplante hepático;
  • Oclusão mesentérica assintomática associada.

Pode não haver benefício claro em pacientes com cirrose avançada não candidatos a transplante ou na presença de cavernoma portal sem fatores pró-trombóticos ativos.

Esquema terapêutico

Anticoagulação inicial com heparina de baixo peso molecular:

  • Enoxaparina 1 mg/kg por via subcutânea a cada 12 horas

Após estabilização, pode-se realizar transição para:

  • Varfarina com ajuste para manter INR entre 2,0 e 3,0
    ou
  • Anticoagulantes orais diretos, como:
    • Rivaroxabana 15 mg duas vezes ao dia por 21 dias, seguida de 20 mg uma vez ao dia
    • Apixabana 10 mg duas vezes ao dia por 7 dias, seguida de 5 mg duas vezes ao dia

Observação: Em pacientes com cirrose, os dados sobre segurança e eficácia dos anticoagulantes orais diretos ainda são limitados, pois muitos são metabolizados no fígado.

Duração

  • Em geral, 3 a 6 meses;
  • Tratamento prolongado em casos de trombofilia hereditária;
  • Duração maior quando há extensão para veia mesentérica, devido ao risco de infarto intestinal.

Antes de iniciar anticoagulação em cirróticos, deve-se realizar endoscopia digestiva alta para rastrear varizes esofágicas.

Trombólise

Indicada principalmente em trombose aguda não cirrótica selecionada.

Pode ser realizada por:

  • Infusão intra-arterial indireta na artéria mesentérica superior com:
    • Alteplase;
    • Uroquinase;
    • Estreptoquinase.

ou

  • Acesso direto à veia porta por via trans-hepática ou transjugular

A via direta portal é preferível, pois exige menor dose de trombolítico e reduz complicações.

Trombectomia

Pode ser:

  • Cirúrgica;
  • Mecânica por via percutânea trans-hepática.

Está associada a risco de recorrência devido a trauma vascular. A tromboaspiração percutânea pode ser eficaz quando realizada precocemente, idealmente nas primeiras 72 horas.

Shunt portossistêmico intra-hepático transjugular

A colocação de shunt intra-hepático transjugular pode:

  • Restaurar o fluxo portal;
  • Promover recanalização mecânica;
  • Reduzir hipertensão portal.

O procedimento é tecnicamente desafiador, mas pode ser útil em casos selecionados.

Veja também!

Referências

Samant H, Asafo-Agyei KO, Kimyaghalam A, et al. Portal Vein Thrombosis. [Updated 2024 Apr 19]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2025 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK534157/

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