E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Escala de Rockall, um sistema de pontuação utilizado para estratificar o risco de ressangramento e mortalidade em pacientes com hemorragia digestiva alta (HDA).
O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.
Vamos nessa!
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Definição de Rockall
A Escala de Rockall é um sistema de pontuação clínica desenvolvido para estratificar o risco de ressangramento e mortalidade em pacientes com hemorragia digestiva alta (HDA).
Criada originalmente no Reino Unido, em 1996, a escala foi desenvolvida a partir de uma grande coorte de pacientes com HDA e posteriormente submetida a processos de validação em diferentes populações.
Atualmente, é uma das ferramentas prognósticas mais utilizadas nesse contexto, permitindo estimar a gravidade do quadro e o risco de desfechos adversos, especialmente ressangramento e óbito. A escala pode ser aplicada tanto antes quanto após a endoscopia, sendo útil na avaliação prognóstica e no planejamento do manejo clínico do paciente.
Escore Rockall pré-endoscopia × pós-endoscopia
O Escore de Rockall pré-endoscópico (clínico) e o Escore de Rockall pós-endoscópico (completo) diferem principalmente pela inclusão dos achados obtidos na endoscopia digestiva alta. Essa diferença determina o momento de aplicação e amplia a capacidade do escore completo de realizar a estratificação prognóstica dos pacientes com hemorragia digestiva alta.
O Rockall pré-endoscópico, também chamado de Rockall clínico (pRS), pode ser calculado já na admissão, sem necessidade de realização da endoscopia. Ele utiliza três variáveis: idade, presença de choque e comorbidades, podendo atingir de 0 a 7 pontos. Sua principal finalidade é permitir uma avaliação inicial e precoce do risco, especialmente antes que estejam disponíveis as informações endoscópicas.
Já o Rockall pós-endoscópico ou completo (CRS) incorpora, além das três variáveis clínicas, dois achados obtidos durante a endoscopia: o diagnóstico endoscópico e os estigmas de hemorragia recente. Dessa forma, apresenta uma pontuação de 0 a 11 pontos e fornece uma avaliação prognóstica mais completa após a realização do exame.
Em relação ao desempenho, os estudos demonstram resultados variáveis entre diferentes populações e desfechos. De modo geral, o Rockall apresenta maior utilidade para a predição de mortalidade, enquanto seu desempenho para prever ressangramento e necessidade de intervenção pode ser limitado.
| Variável | Momento | Critério | Pontos |
|---|---|---|---|
| Comorbidades | Pré/pós-endoscopia | Nenhuma | 0 |
| Qualquer comorbidade, exceto insuficiência renal, hepática e/ou malignidade disseminada | 2 | ||
| Insuficiência renal, hepática e/ou malignidade disseminada | 3 | ||
| Idade | Pré/pós-endoscopia | < 60 anos | 0 |
| 60–79 anos | 1 | ||
| ≥ 80 anos | 2 | ||
| Choque | Pré/pós-endoscopia | Sem choque: PAS ≥ 100 mmHg e FC < 100 bpm | 0 |
| Taquicardia: PAS ≥ 100 mmHg e FC ≥ 100 bpm | 1 | ||
| Hipotensão: PAS < 100 mmHg | 2 | ||
| Diagnóstico | Pós-endoscopia | Síndrome de Mallory-Weiss | 0 |
| Nenhuma lesão identificada e nenhum estigma de hemorragia recente | 0 | ||
| Todos os outros diagnósticos | 1 | ||
| Malignidade do trato gastrointestinal superior | 2 | ||
| Estigmas de hemorragia recente | Pós-endoscopia | Nenhum | 0 |
| Apenas mancha escura | 0 | ||
| Sangue no trato gastrointestinal superior | 2 | ||
| Coágulo aderente | 2 | ||
| Vaso visível ou sangramento ativo/jorrando | 2 |
Interpretação do Escore de Rockall
No Rockall completo (0-11 pontos), uma pontuação ≤2 indica baixo risco, estando associada a baixa probabilidade de ressangramento e óbito e podendo, em pacientes cuidadosamente selecionados e com avaliação clínica adequada, contribuir para decisões de alta precoce. Pontuações ≥3 indicam aumento progressivo do risco, sendo que valores ≥5 estão particularmente associados a maior risco de mortalidade.
No Rockall clínico ou pré-endoscópico (0-7 pontos), a estratificação pode variar conforme a população estudada. Em uma coorte de pacientes idosos, foram considerados ≤3 pontos como baixo risco, 3-4 como risco moderado e ≥4 como alto risco. Esses pontos de corte, entretanto, não são universalmente aplicáveis a todas as populações.
É importante lembrar que o Rockall não deve ser interpretado isoladamente. Seu desempenho varia conforme o desfecho avaliado e a população estudada, apresentando limitações principalmente na previsão de ressangramento e necessidade de intervenção. A pontuação deve ser integrada à avaliação clínica, aos achados endoscópicos e, quando apropriado, a outros escores, especialmente o Glasgow-Blatchford.
Limitações da Escala de Rockall
A principal limitação da Escala de Rockall é seu desempenho discriminativo limitado para alguns desfechos importantes, especialmente ressangramento e necessidade de intervenção. Em estudos comparativos, o Glasgow-Blatchford (GBS) apresentou desempenho superior ao Rockall para prever transfusão e necessidade de intervenção, embora ambos tenham limitações na previsão de ressangramento e mortalidade.
Outra limitação é a dependência da endoscopia na versão completa, que só pode ser calculada após o exame. Embora exista a versão pré-endoscópica, ela apresenta capacidade preditiva variável entre diferentes populações e desfechos.
Além disso, o desempenho do Rockall é heterogêneo entre diferentes grupos de pacientes. Em idosos, por exemplo, os escores pré-endoscópicos podem apresentar menor sensibilidade para identificar pacientes que necessitarão de transfusão, tratamento endoscópico ou que apresentarão ressangramento.
O escore foi desenvolvido originalmente em 1996, antes de importantes mudanças no tratamento da HDA, incluindo avanços nas técnicas endoscópicas e no manejo transfusional.
Por isso, sua aplicabilidade na prática contemporânea pode ser limitada. Dessa forma, o Rockall deve ser utilizado como ferramenta complementar, integrado à avaliação clínica e, quando apropriado, a outros escores, especialmente o Glasgow-Blatchford.
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Referências
OAKLAND, K. et al. Development, validation, and comparative assessment of an international scoring system to determine risk of upper gastrointestinal bleeding. Clinical Gastroenterology and Hepatology, v. 17, n. 6, p. 1121-1129.e2, 2019. DOI: 10.1016/j.cgh.2018.09.039.
STANLEY, A. J. et al. Comparison of risk scoring systems for patients presenting with upper gastrointestinal bleeding: international multicentre prospective study. BMJ, v. 356, p. i6432, 2017. DOI: 10.1136/bmj.i6432.
KOZAI, L. et al. Comparative diagnostic utility of Rockall and Glasgow-Blatchford scores in non-variceal upper gastrointestinal bleeding: a systematic review and meta-analysis. European Journal of Gastroenterology & Hepatology, v. 37, n. 2, p. 161-166, 2025. DOI: 10.1097/MEG.0000000000002867.



