E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é o questionário CAGE, um instrumento de triagem para identificar possível uso problemático ou transtorno por uso de álcool.
Ele é composto por quatro perguntas relacionadas à necessidade de reduzir o consumo, críticas de outras pessoas, sentimento de culpa e consumo de álcool pela manhã, sendo considerado sugestivo de problemas relacionados ao álcool quando há duas ou mais respostas positivas.
O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.
Vamos nessa!
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Definição de Questionário CAGE
O questionário CAGE é um instrumento breve de rastreamento do uso problemático de álcool, desenvolvido originalmente por John Ewing, com participação de outros pesquisadores em sua validação inicial.
O questionário é composto por quatro perguntas que investigam aspectos relacionados ao consumo de álcool: necessidade de reduzir o consumo, incômodo com críticas sobre o hábito de beber, culpa relacionada ao consumo e necessidade de beber pela manhã para aliviar sintomas ou iniciar o dia. Seu nome deriva das iniciais das palavras-chave em inglês (Cut down, Annoyed, Guilty, Eye-opener).
É um instrumento simples, rápido e de fácil aplicação, sendo utilizado principalmente para identificar indivíduos que podem apresentar uso problemático ou transtorno por uso de álcool.
A presença de duas ou mais respostas positivas é tradicionalmente considerada sugestiva de um possível problema relacionado ao álcool e indica a necessidade de avaliação clínica mais aprofundada.
O CAGE, entretanto, é um instrumento de rastreamento e não estabelece sozinho o diagnóstico. A ampla disseminação do questionário ocorreu após a publicação de Ewing na JAMA em 1984.
Perguntas do Questionário CAGE
As quatro perguntas do questionário CAGE são direcionadas à identificação de sinais de uso problemático de álcool. Cada resposta “sim” vale 1 ponto, totalizando de 0 a 4 pontos.
- C – Cut down (Diminuir): Você já sentiu que deveria diminuir a quantidade de bebida alcoólica que consome? Avalia a percepção do indivíduo de que seu consumo pode estar excessivo ou difícil de controlar.
- A – Annoyed (Aborrecido/Irritado): As pessoas já o(a) irritaram ou incomodaram ao criticar seu consumo de álcool? Investiga conflitos ou incômodo relacionados à percepção de outras pessoas sobre o consumo.
- G – Guilty (Culpado): Você já se sentiu mal ou culpado por beber? Avalia sentimentos negativos associados ao próprio comportamento de consumo de álcool.
- E – Eye-opener (Abre-olhos): Você já bebeu pela manhã, logo ao acordar, para acalmar os nervos ou aliviar sintomas de uma ressaca? É a pergunta mais diretamente relacionada a um padrão de consumo associado à dependência física do álcool.
A interpretação é feita pela soma das respostas positivas. Duas ou mais respostas positivas tradicionalmente indicam maior probabilidade de problemas relacionados ao álcool e justificam uma avaliação clínica mais detalhada. O CAGE é um instrumento de rastreamento, não um teste diagnóstico.
Aplicação clínica do Questionário CAGE
Na prática, pode-se introduzir o questionário explicando ao paciente que as perguntas fazem parte da avaliação habitual de saúde. Em seguida, são realizadas as quatro perguntas do CAGE, referentes à vontade de reduzir o consumo, críticas de outras pessoas, sentimentos de culpa e necessidade de beber pela manhã.
Diante de uma triagem positiva, o profissional deve utilizar o resultado como um ponto de partida para aprofundar a anamnese, investigando a quantidade, frequência e padrão de consumo, além de possíveis consequências físicas, psicológicas, familiares, sociais e profissionais relacionadas ao álcool. Também devem ser pesquisados sintomas de tolerância ou abstinência, comorbidades e outros fatores de risco.
O CAGE, portanto, não deve ser aplicado como uma avaliação isolada. Seu principal papel na prática clínica é identificar pacientes que podem se beneficiar de uma investigação mais detalhada.
A partir dessa avaliação, o profissional pode definir a necessidade de intervenção breve, acompanhamento clínico ou avaliação especializada, de acordo com as características e a gravidade do caso.
O que fazer diante de um CAGE positivo?
Em pacientes com consumo de risco, pode-se realizar intervenção breve, com abordagem estruturada e centrada no paciente. Quando houver suspeita de transtorno por uso de álcool, deve-se realizar avaliação diagnóstica formal e considerar tratamento adequado à gravidade do quadro.
Um ponto particularmente importante é que o CAGE não deve ser utilizado isoladamente para decidir tratamento farmacológico ou encaminhamento especializado. A decisão deve considerar o padrão de consumo, manifestações clínicas, complicações, comorbidades e critérios diagnósticos.
Diferenças entre o CAGE e o AUDIT
O CAGE apresenta boa especificidade, mas sua sensibilidade é mais variável. Uma meta-análise encontrou sensibilidade agrupada de aproximadamente 70% e especificidade de cerca de 90%, com grande variação entre os estudos.
Essa variação ocorre, em parte, porque o CAGE foi desenvolvido principalmente para identificar dependência alcoólica já estabelecida, sendo menos adequado para detectar padrões mais leves ou uso de risco.
O AUDIT, por outro lado, foi desenvolvido para identificar um espectro mais amplo de problemas relacionados ao álcool, incluindo uso de risco, uso nocivo e dependência. No ponto de corte tradicional de 8 pontos, apresenta desempenho adequado de sensibilidade e especificidade, embora os valores variem conforme a população e o ponto de corte utilizado.
Uma diferença importante está nas populações avaliadas. O CAGE tende a apresentar menor sensibilidade em mulheres, idosos, adolescentes e pessoas com consumo leve ou de risco, enquanto o AUDIT apresenta desempenho mais consistente nesses grupos.
O AUDIT-C, formado pelas três primeiras perguntas do AUDIT e focado principalmente no padrão e na quantidade de consumo, também apresenta boa acurácia para identificar consumo pesado. Segundo a revisão citada no material, sua acurácia global pode ser semelhante à do AUDIT completo.
| Instrumento | Principal característica | Limitação |
| CAGE | Muito breve, simples e com boa especificidade | Menor sensibilidade para uso leve ou de risco |
| AUDIT | Avalia quantidade, frequência, consequências e padrão de consumo | Mais longo, com 10 perguntas |
| AUDIT-C | Versão curta, focada no consumo de álcool | Avalia menos as consequências do consumo |
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Referências
O’BRIEN, C. P. The CAGE questionnaire for detection of alcoholism: a remarkably useful but simple tool. JAMA, v. 300, n. 17, p. 2054-2056, 2008. DOI: 10.1001/jama.2008.570.
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SUBSTANCE ABUSE AND MENTAL HEALTH SERVICES ADMINISTRATION (SAMHSA). TAP 32: Clinical Drug Testing in Primary Care. Rockville, MD: SAMHSA, 2012.
POORMAN, E.; MCQUADE, B. M.; MESSMER, S. Medications for Alcohol Use Disorder. American Family Physician, v. 109, n. 1, p. 71-78, 2024.



