E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Fórmula de Parkland, uma fórmula utilizada para estimar a reposição de fluidos nas primeiras 24 horas após uma queimadura, considerando a porcentagem da superfície corporal queimada, sendo especialmente importante na abordagem inicial de grandes queimados.
O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.
Vamos nessa!
Definição de Fórmula de Parkland
A Fórmula de Parkland é um protocolo utilizado para estimar a necessidade inicial de reposição volêmica em pacientes com queimaduras extensas, considerando a relação entre a gravidade da queimadura e as características do paciente.
Ela foi desenvolvida a partir do conhecimento de que grandes queimaduras provocam lesão tecidual e uma intensa resposta inflamatória, levando a alterações importantes na permeabilidade vascular e na distribuição dos fluidos corporais.
Atualmente, a fórmula utiliza solução de Ringer com lactato como principal cristaloide e serve como ponto de partida para a ressuscitação volêmica, não devendo ser considerada uma prescrição fixa. A reposição deve ser continuamente ajustada conforme a resposta clínica e os parâmetros de monitorização do paciente, uma vez que nenhuma fórmula consegue contemplar toda a complexidade fisiopatológica das queimaduras graves.
Fisiopatologia relacionada a fórmula de Parkland
Nas queimaduras graves, ocorre uma intensa resposta inflamatória, com liberação de mediadores que aumentam a permeabilidade dos capilares. Como consequência, líquidos, eletrólitos e proteínas plasmáticas deixam o espaço intravascular e passam para o interstício, provocando redução do volume circulante e formação de edema, tanto nos tecidos queimados quanto nos não queimados.
Essa perda significativa de volume intravascular, associada à redução do débito cardíaco e ao aumento da resistência vascular, pode levar ao chamado choque da queimadura (burn shock), que apresenta componentes distributivos, hipovolêmicos e cardiogênicos.
Nesse contexto, a Fórmula de Parkland foi desenvolvida como uma ferramenta para estimar a necessidade inicial de reposição de fluidos nas queimaduras graves. Seu objetivo é auxiliar na restauração do volume circulante, buscando manter a perfusão tecidual e prevenir a isquemia de órgãos durante as fases iniciais do choque da queimadura.
Indicações da Fórmula de Parkland
A Fórmula de Parkland é utilizada para orientar a ressuscitação volêmica inicial de pacientes com queimaduras extensas, especialmente na presença de queimaduras profundas de espessura parcial ou de espessura total.
De acordo com o texto, sua principal indicação ocorre quando a área queimada ultrapassa:
- Adultos: > 20% da superfície corporal total (SCQ).
- Crianças: > 10% da superfície corporal total (SCQ).
A fórmula foi inicialmente estudada por Baxter e Shires em grandes animais e, posteriormente, aplicada em estudos com seres humanos. A versão original estimava uma necessidade de cristaloide ligeiramente inferior à utilizada atualmente; posteriormente, esse valor foi arredondado para facilitar sua aplicação clínica.
Contraindicações e limitações
A fórmula não apresenta contraindicações absolutas. Entretanto, pacientes com condições que aumentam o risco de sobrecarga volêmica, como insuficiência cardíaca ou doença renal em estágio terminal, necessitam de monitorização cuidadosa durante a reposição.
Além disso, pacientes com queimaduras menores que conseguem manter ingestão adequada de líquidos e alimentos geralmente não necessitam de ressuscitação volêmica intravenosa baseada na Fórmula de Parkland.
O que mudou no ATLS 11?
A Fórmula de Parkland é uma das principais ferramentas utilizadas para orientar a reposição volêmica inicial do paciente com queimaduras extensas. Entretanto, a abordagem recomendada pelo ATLS 11ª edição trouxe uma mudança importante em relação ao modelo tradicionalmente ensinado nas edições anteriores.
Como era antes?
No modelo clássico, a reposição volêmica era calculada pela fórmula:
4 mL × peso (kg) × % de superfície corporal queimada (SCQ)
O volume calculado correspondia à necessidade estimada de fluidos para as primeiras 24 horas após a queimadura. A administração era dividida da seguinte maneira:
- 50% do volume nas primeiras 8 horas após a queimadura;
- 50% restantes nas 16 horas seguintes.
O cálculo deveria considerar o momento da queimadura, e não o momento da chegada do paciente ao serviço de saúde. Assim, se o paciente chegasse algumas horas após o acidente, o volume correspondente ao período já transcorrido deveria ser administrado dentro do tempo restante.
O Ringer lactato era o cristaloide de escolha para a reposição inicial.
E o que mudou no ATLS 11?
Na 11ª edição do ATLS, publicada em 2025, a estratégia de reposição volêmica foi modificada. Em vez de enfatizar o cálculo de um volume fixo para as primeiras 24 horas, a recomendação passou a utilizar uma taxa inicial de infusão, que deve ser continuamente ajustada de acordo com a resposta do paciente.
Para queimaduras térmicas ou químicas, o esquema inicial passou a considerar a idade:
- Pacientes ≥ 13 anos: 2 mL × kg × %SCQ, administrados ao longo das primeiras 16 horas;
- Pacientes < 13 anos: 3 mL × kg × %SCQ, administrados ao longo das primeiras 16 horas;
- Crianças ≤ 30 kg: além da reposição relacionada à queimadura, deve-se acrescentar fluido de manutenção com dextrose.
Portanto, a mudança não significa simplesmente trocar um número por outro. O principal conceito do ATLS 11 é que o cálculo fornece uma taxa inicial de reposição, que deve ser individualizada e ajustada conforme a resposta clínica.
O papel da diurese
A diurese horária continua sendo um dos principais parâmetros para avaliar a adequação da ressuscitação. Para adultos, busca-se uma diurese de aproximadamente 0,5 mL/kg/h, enquanto em crianças a meta é de aproximadamente 1 mL/kg/h.
A taxa de infusão deve ser ajustada de acordo com esses parâmetros. Dessa forma, o paciente não deve receber automaticamente todo o volume calculado: a reposição deve ser titulada hora a hora, evitando tanto a hipoperfusão quanto a administração excessiva de fluidos.
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Referências
American College of Surgeons. Advanced Trauma Life Support (ATLS®): Student Course Manual. 11th ed. Chicago: American College of Surgeons; 2025.
Mehta M, Tudor GJ. Parkland Formula. [Updated 2023 Jun 19]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK537190/



