Resumo de Fraqueza Adquirida na UTI: fatores de risco e mais!
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Resumo de Fraqueza Adquirida na UTI: fatores de risco e mais!

Olá, querido doutor e doutora! A fraqueza adquirida na unidade de terapia intensiva é uma complicação frequente em pacientes criticamente enfermos, associada a prolongamento da ventilação mecânica, limitação funcional e pior recuperação após a alta. 

Até metade dos pacientes pode apresentar fraqueza persistente meses após a alta da UTI, com repercussões significativas na funcionalidade e qualidade de vida.

O que é a Fraqueza adquirida na UTI 

A fraqueza adquirida na unidade de terapia intensiva (FAUTI) corresponde a uma fraqueza muscular difusa, simétrica, que se desenvolve durante ou após um episódio de doença crítica, sem identificação de outra etiologia que explique o quadro neuromuscular. 

O comprometimento envolve predominantemente os músculos dos membros, com maior acometimento proximal, além dos músculos respiratórios, enquanto os músculos faciais e oculomotores costumam permanecer preservados.

Classificação 

A fraqueza adquirida na unidade de terapia intensiva (FAUTI) é classificada com base em achados clínicos, eletrofisiológicos e histopatológicos, sendo tradicionalmente dividida em três subtipos principais:

Polineuropatia do paciente crítico

Caracteriza-se por fraqueza muscular simétrica dos membros e dos músculos respiratórios, associada a neuropatia axonal motora e sensitiva nos estudos eletrofisiológicos. A avaliação sensitiva pode ser limitada em pacientes criticamente enfermos, embora alterações estejam frequentemente presentes. Os níveis de creatinofosfoquinase costumam permanecer normais.

Miopatia do paciente crítico

Apresenta-se como fraqueza muscular difusa e simétrica, com predomínio em músculos proximais e respiratórios. Os exames complementares demonstram alterações miopáticas, incluindo redução da amplitude dos potenciais musculares, perda seletiva de miosina e atrofia muscular. Pode ocorrer elevação discreta da creatinofosfoquinase.

Neuromiopatia do paciente crítico

Corresponde à associação de polineuropatia e miopatia, com coexistência de alterações neuropáticas e miopáticas nos exames eletrofisiológicos e, quando realizados, nos estudos histopatológicos.

Epidemiologia e fatores de risco

Em pacientes submetidos à ventilação mecânica prolongada, a ocorrência pode variar entre 25% e 84%, sendo mais elevada em contextos de sepse, síndrome da resposta inflamatória sistêmica e falência de múltiplos órgãos

Em pacientes críticos com COVID-19, a prevalência relatada alcança cerca de 55%, refletindo a gravidade da doença e a necessidade de suporte intensivo prolongado.

Os fatores de risco associados ao desenvolvimento de FAUTI incluem:

  • Idade avançada;
  • Sexo feminino;
  • Maior gravidade da doença, com escores elevados como SOFA e APACHE II;
  • Sepse e falência de múltiplos órgãos;
  • Ventilação mecânica prolongada;
  • Imobilização no leito;
  • Hiperglicemia;
  • Uso de aminoglicosídeos;
  • Uso de bloqueadores neuromusculares;
  • Uso de corticosteroides;
  • Terapia de substituição renal;
  • Inflamação sistêmica persistente; e
  • Nutrição parenteral precoce.

Em pacientes com COVID-19, destacam-se ainda hipertensão arterial pré-existente, posição prona, necessidade de traqueostomia e terapia de substituição renal como fatores associados a maior risco.

Fisiopatologia

Inflamação sistêmica e estresse oxidativo

A resposta inflamatória intensa, particularmente em quadros de sepse, promove liberação sustentada de citocinas pró-inflamatórias e espécies reativas de oxigênio, ocasionando lesão direta das fibras musculares e dano axonal, com repercussão funcional progressiva.

Disfunção microvascular e bioenergética

Alterações da microcirculação, associadas à ativação endotelial e aumento da permeabilidade vascular, comprometem a perfusão neural e muscular. Esse processo favorece degeneração axonal, especialmente na polineuropatia do paciente crítico, além de disfunção mitocondrial, com redução da produção de energia nas fibras musculares.

Atrofia muscular e proteólise acelerada

O estado hipercatabólico da doença crítica, somado à imobilização prolongada, ativa vias de degradação proteica, como o sistema ubiquitina-proteassoma e as calpaínas, levando à perda de massa muscular. Na miopatia do paciente crítico, observa-se perda preferencial de filamentos grossos de miosina, alterações da excitabilidade da membrana muscular e distúrbios da homeostase do cálcio.

Fatores metabólicos e farmacológicos

A hiperglicemia, o uso de corticosteroides e de bloqueadores neuromusculares contribuem para a disfunção neuromuscular, intensificando os mecanismos de dano muscular e nervoso.

Imobilização e ventilação mecânica

A inatividade dos músculos respiratórios e periféricos, frequente em pacientes sob ventilação mecânica, acelera a atrofia e a perda de força, com alterações histopatológicas detectáveis precocemente, mesmo após curtos períodos de inatividade.

Avaliação clínica

Fraqueza muscular periférica

A fraqueza adquirida na unidade de terapia intensiva manifesta-se como fraqueza muscular difusa, simétrica, com predomínio em músculos proximais de membros superiores e inferiores. Os músculos faciais e oculares permanecem preservados, e não há envolvimento bulbar significativo. O tônus muscular encontra-se reduzido, com padrão flácido, e os reflexos tendinosos profundos costumam estar diminuídos ou ausentes.

Comprometimento dos músculos respiratórios

A fraqueza dos músculos respiratórios é frequente e tem impacto direto na evolução clínica, estando associada à dificuldade ou falha no desmame da ventilação mecânica. Esse comprometimento contribui para maior tempo de suporte ventilatório e prolongamento da permanência em UTI.

Sensibilidade e exame neurológico

A sensibilidade está geralmente preservada, embora sua avaliação possa ser limitada em pacientes críticos, sedados ou com rebaixamento do nível de consciência. Quando presente, o comprometimento sensitivo é mais compatível com formas neuropáticas, mas não é um achado dominante no exame clínico.

Diagnóstico 

Avaliação clínica

O diagnóstico da fraqueza adquirida na unidade de terapia intensiva (FAUTI) inicia-se pela identificação de fraqueza muscular difusa e simétrica em pacientes criticamente enfermos, sem outra causa neuromuscular evidente. A avaliação clínica é realizada preferencialmente pelo escore do Medical Research Council (MRC), aplicado em pacientes acordados e colaborativos. 

Um escore total inferior a 48 pontos em 60 é compatível com FAUTI. A fraqueza acomete predominantemente músculos proximais dos membros e músculos respiratórios, com preservação dos músculos faciais e oculares.

Exames laboratoriais

Os exames laboratoriais têm papel complementar. A creatina quinase (CK) geralmente permanece normal na polineuropatia do paciente crítico e pode apresentar elevação discreta nos quadros de miopatia, auxiliando na diferenciação entre os subtipos, embora não seja específica.

Estudos eletrofisiológicos

Os estudos de condução nervosa e a eletromiografia (EMG) são utilizados para confirmar o diagnóstico e diferenciar os subtipos de FAUTI, especialmente quando a evolução clínica é atípica ou prolongada.

Polineuropatia do paciente crítico (CIP)

Na CIP, os estudos de condução nervosa demonstram redução das amplitudes dos potenciais de ação motores e sensoriais (CMAP e SNAP), sem evidência de bloqueio de condução ou desmielinização significativa. A EMG evidencia sinais de denervação, como potenciais de fibrilação. Os níveis de CK costumam permanecer normais.

Miopatia do paciente crítico (CIM)

Na CIM, observa-se redução das amplitudes dos CMAP, com SNAP preservados. A EMG mostra potenciais de unidade motora de baixa amplitude e curta duração, com recrutamento precoce. Pode haver elevação discreta da CK. Quando realizada, a biópsia muscular evidencia perda seletiva de miosina e necrose de fibras musculares.

Avaliação em pacientes não colaborativos

Em pacientes não colaborativos, métodos simplificados como o peroneal nerve test (PENT) e a ultrassonografia muscular podem ser utilizados como ferramentas de rastreio. A biópsia muscular é reservada para situações de dúvida diagnóstica persistente, principalmente quando há necessidade de confirmação de miopatia.

Tratamento

Princípios gerais

O manejo da fraqueza adquirida na unidade de terapia intensiva (FAUTI) baseia-se predominantemente em intervenções não farmacológicas, uma vez que não existem terapias medicamentosas com eficácia comprovada para reversão da condição após seu estabelecimento. A abordagem deve ser precoce, contínua e multidisciplinar, com foco na recuperação funcional e na redução de complicações associadas à imobilidade prolongada.

Reabilitação física e mobilização precoce

A reabilitação física precoce constitui a principal estratégia terapêutica, incluindo mobilização passiva e ativa, fisioterapia motora e exercícios progressivos individualizados. A associação de exercício físico com estimulação elétrica neuromuscular mostra melhores resultados do que a mobilização isolada, com redução da incidência de FAUTI, melhora da força muscular, do desempenho físico e das atividades de vida diária

A mobilização deve ser iniciada o mais precocemente possível, inclusive em pacientes sob sedação, desde que haja monitorização clínica rigorosa e protocolos bem definidos.

Suporte nutricional

A otimização nutricional integra o cuidado global do paciente com FAUTI. Recomenda-se início precoce da nutrição enteral, com adequação progressiva das metas calóricas e proteicas nos primeiros dias de internação. Isoladamente, a nutrição não previne nem trata a FAUTI de forma efetiva, mas atua de maneira mais favorável quando associada à mobilização e à reabilitação física.

Reabilitação respiratória e funcional

A reabilitação respiratória é indicada para pacientes com envolvimento dos músculos respiratórios, auxiliando no desmame da ventilação mecânica. O treinamento de deglutição, quando necessário, e o suporte psicológico contribuem para a recuperação funcional global e para a redução do tempo de internação.

Terapias adjuvantes

Intervenções adjuvantes, como estimulação elétrica neuromuscular e outras modalidades físicas, podem favorecer ganhos de força e função em contextos específicos. No entanto, algumas estratégias ainda apresentam evidência limitada, não sendo indicadas de forma rotineira.

Tratamento farmacológico

Até o momento, não há evidência consistente que sustente o uso de corticosteroides, imunoglobulinas, antioxidantes ou outros fármacos no tratamento da FAUTI já estabelecida.

Complicações e prognóstico 

Complicações

  • Dificuldade ou falha no desmame da ventilação mecânica;
  • Prolongamento do tempo de internação na UTI e no hospital;
  • Incapacidade funcional significativa, com limitação da mobilidade;
  • Redução da autonomia para atividades de vida diária;
  • Necessidade de reabilitação prolongada;
  • Maior risco de institucionalização após a alta hospitalar;
  • Queda da qualidade de vida, com fraqueza residual e fadiga crônica;
  • Aumento das taxas de reinternação;
  • Maior impacto psicossocial sobre familiares e cuidadores.

Prognóstico

Muitos pacientes apresentam recuperação progressiva nas primeiras semanas ou meses após a alta, porém uma proporção significativa mantém déficits funcionais persistentes por até 1 a 2 anos, especialmente quando a fraqueza está presente na alta da UTI. 

Pacientes com polineuropatia do paciente crítico tendem a evoluir com recuperação mais lenta e incompleta. A FAUTI associa-se ainda a maior mortalidade durante a internação e no seguimento após a alta, sendo a persistência e a intensidade da fraqueza marcadores prognósticos desfavoráveis independentes.

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Referências bibliográficas 

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  1. HUANG, A.; SALAZAR, M.; WEBER, H. et al. ICU-acquired weakness: critical illness myopathy and polyneuropathy. Journal of Critical Care, Filadélfia, v. 79, p. 154–162, 2025.
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