Olá, querido doutor e doutora! A sinéquia de pequenos lábios é uma alteração anatômica relativamente frequente na infância, mas ainda pouco reconhecida na prática pediátrica. Apesar de sua natureza benigna, a condição pode gerar preocupação entre os cuidadores e dúvidas sobre o manejo adequado. Este texto aborda, de forma objetiva e atualizada, os principais aspectos clínicos, diagnósticos e terapêuticos dessa afecção.
Até 80% das sinéquias resolvem-se espontaneamente dentro de um ano, sem necessidade de intervenção.
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Conceito
A sinéquia de pequenos lábios é uma condição benigna caracterizada pela união parcial ou completa das bordas internas dos pequenos lábios, formando uma película fina que recobre total ou parcialmente a abertura vaginal. Essa fusão ocorre geralmente na linha média da vulva e pode deixar visível apenas um pequeno orifício para a passagem da urina. Apesar de sua aparência muitas vezes causar preocupação nos cuidadores, trata-se de uma alteração adquirida, frequente em meninas na fase pré-puberal, e que, na maioria dos casos, não provoca sintomas.
Fisiopatologia
A sinéquia de pequenos lábios surge, na maioria das vezes, em um contexto de baixa atividade estrogênica, típica da infância, especialmente entre 6 meses e 6 anos de idade. Nesse período, a mucosa genital é mais fina, frágil e suscetível a inflamações decorrentes de fatores como higiene inadequada, uso de roupas apertadas, infecções ou atrito constante.
Quando há lesão ou irritação da mucosa, a perda do epitélio superficial favorece a adesão entre os pequenos lábios durante o processo de cicatrização. A ausência de estímulo hormonal adequado impede a regeneração completa da mucosa, perpetuando o processo adesivo e favorecendo recidivas.
Epidemiologia e fatores de risco
Epidemiologia
A sinéquia de pequenos lábios é uma condição relativamente comum na faixa etária pediátrica, especialmente em meninas com menos de seis anos. A prevalência estimada varia de 0,6% a 5% nesse grupo, sendo mais frequente entre um e três anos de idade. É rara em recém-nascidas, devido à presença transitória de estrogênio materno, e também incomum após o início da puberdade, quando os níveis hormonais aumentam progressivamente. Por ser muitas vezes assintomática e pouco reconhecida por profissionais de saúde, acredita-se que haja subnotificação significativa dos casos.
Fatores de risco
- Baixa produção endógena de estrogênio (hipoestrogenismo fisiológico);
- Vulvovaginites de repetição;
- Má higiene da região genital;
- Uso prolongado de fraldas;
- Atraso na troca de fraldas ao longo do dia;
- Uso de roupas íntimas muito justas;
- Trauma local (por atrito, queda ou manipulação excessiva);
- Excesso de limpeza com produtos irritantes Infecções bacterianas, fúngicas ou parasitárias; e
- Presença de dermatites ou eczemas na região vulvar.
Quadro clínico
A sinéquia de pequenos lábios costuma ser silenciosa, sendo identificada frequentemente durante o banho ou nas consultas pediátricas de rotina. Nos casos em que há sintomas, as manifestações mais comuns envolvem alterações no padrão miccional, como jato urinário desviado, gotejamento após a micção, dificuldade para iniciar ou completar a eliminação da urina, além de irritação local.
Em situações mais avançadas, pode haver infecções urinárias recorrentes, vulvovaginites e, raramente, retenção urinária com consequências mais severas, como distensão vesical. Mesmo nos casos sintomáticos, a condição não afeta o desenvolvimento puberal nem compromete a fertilidade futura da paciente.
Diagnóstico
O diagnóstico da sinéquia de pequenos lábios é clínico e baseia-se em uma inspeção cuidadosa da genitália externa. A fusão dos pequenos lábios, geralmente em linha média, pode se apresentar como uma membrana esbranquiçada ou translúcida, cobrindo parcial ou totalmente o introito vaginal. Frequentemente, um pequeno orifício está visível, permitindo a passagem da urina. Essa observação é suficiente para identificar a condição, dispensando exames complementares na maioria dos casos.
Diagnósticos diferenciais
- Hímen imperfurado;
- Agenesia vaginal;
- Ambiguidade genital;
- Líquen escleroso vulvar;
- Introito vaginal parcialmente obliterado por cistos ou pseudomembranas;
- Prolapso uretral;
- Rabdomiossarcoma vaginal (em casos raros);
- Etiologias traumáticas (incluindo abuso sexual); e
- Etiologias congênitas com fusão labial atípica.
Tratamento
Conduta expectante
Nos casos assintomáticos, especialmente em meninas pequenas, a conduta inicial pode ser apenas observação clínica. A orientação aos cuidadores quanto à higiene íntima, uso de roupas confortáveis e prevenção de irritações locais é suficiente na maioria das situações. Estudos indicam que até 80% das sinéquias resolvem-se espontaneamente dentro de um ano, sem necessidade de intervenção.
Tratamento tópico hormonal
Quando há sintomas urinários, infecções recorrentes ou falha na abordagem conservadora, indica-se o uso de cremes com estrogênio tópico. Esses medicamentos estimulam a regeneração da mucosa vaginal, promovendo a separação gradual dos pequenos lábios. A aplicação é feita diretamente sobre a região aderida, geralmente duas vezes ao dia, por um período de duas a oito semanas. Após a resolução, recomenda-se continuar com a aplicação em dias alternados por mais duas semanas para reduzir o risco de recidiva. Apesar da eficácia, pode haver efeitos colaterais transitórios, como aumento da pigmentação local ou telarca.
Uso de corticosteroides tópicos
Outra alternativa é a betametasona 0,05%, especialmente quando há contraindicação ou baixa resposta ao estrogênio. Sua ação anti-inflamatória auxilia na regressão da aderência, com boa taxa de sucesso e menos efeitos adversos hormonais.
Abordagem cirúrgica
A separação manual ou cirúrgica dos pequenos lábios é indicada em situações de adesões completas, sintomas intensos ou falha do tratamento clínico. O procedimento deve ser realizado com anestesia para evitar dor e trauma psicológico. Após a separação, recomenda-se o uso de cremes estrogênicos e antibióticos tópicos, além de cuidados com a higiene local e banhos de assento para acelerar a cicatrização e evitar recidivas.
Evolução
A sinéquia de pequenos lábios tem evolução benigna e tende à resolução espontânea até a puberdade, mesmo nos casos não tratados. Quando diagnosticada e manejada adequadamente, o prognóstico é favorável, com baixa chance de repercussões a longo prazo. A maioria das pacientes recupera-se sem impacto no desenvolvimento sexual ou fertilidade futura, desde que intervenções desnecessárias sejam evitadas e a abordagem seja individualizada conforme os sintomas.
Complicações
- Infecções urinárias recorrentes;
- Vulvovaginites de repetição;
- Retenção urinária com risco de pielonefrite;
- Desconforto ao urinar;
- Ansiedade nos cuidadores por alteração anatômica;
- Trauma psicológico se o manejo for doloroso ou inadequado;
- Formação de cicatrizes ou fibrose em abordagens forçadas; e
- Recidiva da aderência.
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Referências Bibliográficas
- FERREIRA, Brennda Mesquita; ROSA, Vanuza Maria. Sinequia vulvar: uma condição ainda desconhecida. Brasília Médica, v. 59, 2023, p. 1-7.
- GONZÁLEZ, Dulce; ANAND, Sachit; MÉNDEZ, Magda D. Labial Adhesions. In: StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2025 Jan–. Atualizado em: 28 ago. 2023.