E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Flebite, uma condição caracterizada pela inflamação da parede de uma veia, geralmente associada a trauma local, uso de cateteres venosos, infecções ou trombose, podendo causar dor, eritema, edema e sensibilidade ao longo do trajeto venoso.
O Estratégia MED está aqui para descomplicar esse conceito e ajudar você a aprofundar seus conhecimentos, promovendo uma prática clínica cada vez mais eficaz e segura.
Vamos nessa!
Navegue pelo conteúdo
Definição de Flebite
A flebite é definida como um processo inflamatório que acomete a parede de uma veia, constituindo uma das complicações mais frequentes relacionadas à terapia intravenosa e ao uso de acessos venosos periféricos.
Trata-se de um evento de grande relevância na prática clínica, não apenas pela sua elevada incidência no ambiente hospitalar, mas também por representar um importante indicador de qualidade e segurança assistencial.
Embora, na maioria dos casos, apresente evolução favorável, a flebite requer reconhecimento e acompanhamento adequados, uma vez que pode estar associada ao desenvolvimento de complicações trombóticas e infecciosas, impactando a morbidade, o tempo de internação e os custos relacionados à assistência em saúde.
Etiologias da Flebite
A etiologia da flebite é multifatorial e, didaticamente, pode ser dividida em quatro categorias principais: mecânica, química, bacteriana e pós-infusional.
- Flebite mecânica: é causada por lesão física da parede venosa, geralmente relacionada à presença do cateter intravenoso. Fatores como o uso de cateteres de maior calibre, a movimentação excessiva do dispositivo e sua permanência prolongada no mesmo sítio de punção aumentam o risco de irritação endotelial.
- Flebite química: decorre da ação irritativa de substâncias infundidas na corrente sanguínea. Medicamentos ou soluções com pH muito ácido ou alcalino, elevada osmolaridade ou potencial irritante podem promover lesão do endotélio vascular e desencadear o processo inflamatório.
- Flebite bacteriana: resulta da contaminação do cateter ou do local de inserção por microrganismos. Nesses casos, a inflamação está associada a um processo infeccioso, que pode evoluir para complicações mais graves, como tromboflebite séptica e infecção sistêmica.
- Flebite pós-infusional: caracteriza-se pelo surgimento da inflamação após a retirada do cateter intravenoso. Esse quadro ocorre em decorrência da persistência da resposta inflamatória e das lesões endoteliais induzidas durante o período de utilização do acesso venoso.
Além dessas classificações, algumas condições clínicas favorecem o desenvolvimento da flebite ao promoverem lesão da parede vascular, estase venosa ou alterações da coagulação.
Entre elas, destacam-se a imobilização prolongada, a obesidade, os estados de hipercoagulabilidade, as neoplasias, as doenças inflamatórias e o antecedente de eventos tromboembólicos.
Fisiopatologia da Flebite
A fisiopatologia da flebite inicia-se com uma agressão ao endotélio venoso, geralmente desencadeada por trauma mecânico, irritação química ou contaminação bacteriana. A lesão da parede vascular leva à ativação das células endoteliais e à liberação de mediadores inflamatórios, promovendo vasodilatação, aumento da permeabilidade vascular e recrutamento de leucócitos para o local acometido.
Paralelamente, a lesão endotelial favorece a adesão e ativação plaquetária, com liberação de substâncias pró-inflamatórias e pró-trombóticas, como trombina e tromboxano A₂. Esse processo contribui para a formação de microtrombos na superfície do endotélio lesado.
Na presença de fatores adicionais, como estase venosa e estados de hipercoagulabilidade, esses microtrombos podem se propagar e originar trombos maiores, resultando no desenvolvimento de tromboflebite superficial.
Manifestações clínicas da Flebite
As manifestações clínicas da flebite decorrem do processo inflamatório da parede venosa e variam de acordo com a intensidade da inflamação e a presença de complicações associadas. Em geral, o quadro clínico é predominantemente local e caracteriza-se por sinais clássicos de inflamação ao longo do trajeto da veia acometida.
Os principais achados incluem:
- Dor e sensibilidade local: geralmente são os sintomas iniciais, manifestando-se no trajeto da veia inflamada e podendo variar de um desconforto leve a dor mais intensa à palpação.
- Eritema: ocorre hiperemia da pele sobre a veia acometida, resultando em vermelhidão localizada.
- Edema: o aumento da permeabilidade vascular induzido pela resposta inflamatória favorece o extravasamento de líquido para o interstício, causando edema local.
- Aumento da temperatura local: a vasodilatação e o incremento do fluxo sanguíneo na região acometida conferem calor à área inflamada.
- Endurecimento e cordão venoso palpável: a inflamação da parede vascular, associada à formação de trombos em alguns casos, pode tornar a veia espessada, endurecida e facilmente palpável ao exame físico.
- Exsudato ou secreção local: em situações mais graves, particularmente quando há comprometimento infeccioso, pode ocorrer drenagem de secreção pelo sítio de inserção do cateter.
Embora a apresentação clínica seja, na maioria das vezes, limitada ao local acometido, manifestações como edema importante de todo o membro, dor intensa ou sinais sistêmicos devem levantar a suspeita de complicações trombóticas ou infecciosas associadas, exigindo investigação complementar e manejo apropriado.
Diagnóstico de Flebite
O diagnóstico da flebite é predominantemente clínico e baseia-se na história do paciente e no exame físico. Em geral, a suspeita diagnóstica surge diante da presença de sinais inflamatórios ao longo do trajeto de uma veia, especialmente em pacientes submetidos à terapia intravenosa ou ao uso de cateteres venosos periféricos.
Exame Físico
A avaliação física permite identificar os principais sinais de inflamação venosa, incluindo dor e sensibilidade local, eritema, edema, aumento da temperatura cutânea e endurecimento da veia acometida, que pode se apresentar sob a forma de um cordão venoso palpável. Em alguns casos, também pode haver exsudato ou secreção no local afetado.
Exames complementares
Embora o diagnóstico seja, na maioria das vezes, estabelecido clinicamente, a avaliação isolada pode não determinar com precisão a extensão do acometimento venoso nem identificar complicações trombóticas associadas. Nesses casos, a ultrassonografia venosa com compressão (duplex scan) constitui o principal exame complementar, permitindo confirmar o diagnóstico, avaliar a extensão do processo e investigar a presença de trombose venosa profunda concomitante.
Investigação adicional
Os exames laboratoriais apresentam utilidade limitada no diagnóstico da flebite. Entretanto, em pacientes com episódios recorrentes, extensos, migratórios ou sem fator desencadeante evidente, pode ser necessária uma investigação complementar para a pesquisa de condições predisponentes, como estados de hipercoagulabilidade e neoplasias ocultas. Dessa forma, a abordagem diagnóstica deve ser individualizada, considerando a apresentação clínica e o risco de complicações associadas.
Tratamento da Flebite
O tratamento da flebite é determinado pela etiologia, pela extensão do acometimento venoso e pela presença de complicações trombóticas ou infecciosas associadas. De modo geral, os objetivos terapêuticos incluem o controle da resposta inflamatória, o alívio dos sintomas, a prevenção da progressão do trombo e a redução do risco de complicações sistêmicas.
Tratamento conservador
A maioria dos casos de flebite superficial apresenta evolução favorável com medidas conservadoras. Nas flebites associadas ao uso de cateteres intravenosos, a remoção do dispositivo constitui a primeira medida terapêutica. Adicionalmente, a elevação do membro acometido e a aplicação de compressas mornas podem ser empregadas como medidas adjuvantes, contribuindo para a redução do edema e do desconforto local.
Terapia anti-inflamatória
O controle sintomático é realizado, principalmente, por meio de analgésicos e anti-inflamatórios não esteroides (AINEs). Esses fármacos promovem redução da dor e da resposta inflamatória local, sendo suficientes para a resolução do quadro na maior parte dos pacientes com acometimento limitado e sem evidências de complicações.
Anticoagulação
A terapia anticoagulante está indicada em situações específicas, particularmente nos casos de acometimento venoso extenso, trombos próximos ao sistema venoso profundo ou na presença de fatores de risco para tromboembolismo venoso. Nessas circunstâncias, a anticoagulação tem como finalidade impedir a propagação do trombo e reduzir o risco de trombose venosa profunda e embolia pulmonar.
Tratamento das complicações infecciosas
Quando a flebite está associada à infecção, especialmente nos casos de tromboflebite séptica, torna-se necessária a instituição de antibioticoterapia apropriada, além da remoção de eventuais dispositivos intravasculares envolvidos. Pacientes com sinais de infecção sistêmica ou evolução desfavorável podem demandar monitorização mais intensiva e avaliação especializada.
Seguimento clínico
A evolução clínica deve ser acompanhada de forma individualizada, considerando a resolução dos sinais inflamatórios e a possibilidade de progressão trombótica. Casos recorrentes, extensos ou associados a fatores predisponentes relevantes podem requerer investigação adicional e acompanhamento mais prolongado, visando identificar condições subjacentes e prevenir novos episódios.
Referências
CZYSZ, Augusta; HIGBEE, Sheetal. Superficial Thrombophlebitis. In: STATPEARLS [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing, 2025. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/.
Urbanetto JS, Freitas APC, Oliveira APR, Santos JCR, Muniz FOM, Silva RM, et al. Fatores
de risco para o desenvolvimento da flebite: revisão integrativa da literatura. Rev Gaúcha. Enferm. 2017;38(4):e57489. doi: http://dx.doi.org/10.1590/1983- 1447.2017.04.57489.



