Resumo sobre Hepatite C: definição, fisiopatologia e mais!

Resumo sobre Hepatite C: definição, fisiopatologia e mais!

E aí, doc! Vamos explorar mais um tema essencial? Hoje o foco é a Hepatite C, uma infecção viral causada pelo vírus da hepatite C (HCV), que acomete o fígado e pode evoluir de forma silenciosa para doença hepática crônica, cirrose e carcinoma hepatocelular se não for diagnosticada e tratada precocemente.

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Vamos nessa!

Definição de Hepatite C 

A hepatite C é uma infecção viral causada pelo vírus da hepatite C (HCV), reconhecida como um importante problema de saúde pública global, acometendo milhões de pessoas em todo o mundo. Trata-se de uma doença transmissível principalmente por via sanguínea, sendo considerada uma das principais causas de morbidade e mortalidade relacionadas a doenças hepáticas.

Após a infecção aguda, a maioria dos indivíduos (cerca de 80% a 85%) não consegue eliminar espontaneamente o vírus, evoluindo para a forma crônica da doença. A infecção crônica pode levar a complicações progressivas e graves, como fibrose hepática, cirrose, hipertensão portal, descompensação hepática com encefalopatia e carcinoma hepatocelular.

Nos últimos anos, o manejo da hepatite C passou por grande avanço com a introdução dos antivirais de ação direta (DAAs), que têm como principais objetivos a erradicação viral, a redução da progressão da doença hepática, a prevenção de complicações e a melhoria da qualidade de vida dos pacientes.

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Etiologia da Hepatite C

A hepatite C é causada pelo vírus da hepatite C (HCV), um vírus RNA de fita simples positiva, envelopado, pertencente à família Flaviviridae e ao gênero Hepacivirus. Seu genoma, com cerca de 9,6 kb, codifica uma poliproteína que é processada em pelo menos 10 proteínas.

Essas proteínas incluem componentes estruturais (core [C] e glicoproteínas de envelope E1 e E2), proteínas envolvidas na montagem viral (p7 e NS2) e proteínas não estruturais (NS3, NS4A, NS4B, NS5A e NS5B), essenciais para a replicação do vírus.

Uma característica central do HCV é sua alta variabilidade genética, decorrente da ação da RNA polimerase NS5B, que não possui mecanismo de correção de erros. Isso leva à formação de múltiplas variantes virais (“quasispécies”), favorecendo a persistência da infecção e dificultando a resposta imune do hospedeiro.

Epidemiologia da Hepatite C

A hepatite C é uma infecção de grande impacto global, com mais de 58 milhões de pessoas infectadas. Em países desenvolvidos, sua prevalência varia entre 1% e 2%, sendo a principal causa de mortalidade entre as hepatites virais.

A transmissão ocorre principalmente por contato com sangue contaminado, especialmente pelo uso de drogas intravenosas e por práticas médicas inadequadas. A transmissão sexual é rara, e a transmissão perinatal apresenta baixa frequência (0% a 4%). Embora o vírus possa ser detectado em diversos fluidos corporais, a via sanguínea é a mais relevante.

O HCV apresenta alta variabilidade genética, sendo classificado em sete genótipos com distribuição geográfica específica. O genótipo 1 é o mais comum no mundo; o genótipo 2 predomina na África; o genótipo 3 está associado ao uso de drogas ilícitas; o genótipo 4 é frequente no norte da África e Oriente Médio; o genótipo 5 na África do Sul; o genótipo 6 no sudeste asiático; e o genótipo 7 na África central. Essa diversidade influencia o manejo e o tratamento da doença.

Fisiopatologia da Hepatite C

A fisiopatologia da hepatite C inicia-se com a entrada do vírus da hepatite C (HCV) nos hepatócitos por meio de endocitose mediada por múltiplos co-receptores. Após a internalização, o RNA viral de fita positiva é liberado no citoplasma e traduzido em uma poliproteína, que é clivada por proteases do hospedeiro e por proteases virais (como a NS3/4A), originando proteínas estruturais e não estruturais.

Essas proteínas se organizam no retículo endoplasmático, formando o complexo de replicação viral, no qual a enzima NS5B (RNA polimerase RNA-dependente) desempenha papel central ao sintetizar uma fita intermediária negativa, que serve de molde para a produção de novas cópias de RNA viral. Os novos vírions são então montados e liberados por exocitose. Importante destacar que o HCV não se integra ao genoma do hospedeiro.

Após a infecção, o vírus pode ser detectado no plasma em poucos dias, com pico de viremia entre 8 e 12 semanas. Em grande parte dos pacientes (50% a 85%), a infecção persiste, principalmente devido a uma resposta imune ineficaz, com atividade insuficiente de linfócitos T CD4+ e CD8+.

O dano hepático na hepatite C não ocorre por efeito citopático direto do vírus, mas sim pela resposta inflamatória crônica do hospedeiro, que leva à fibrogênese progressiva. Fatores como consumo de álcool, coinfecção por HIV ou hepatite B, resistência à insulina, obesidade, doença hepática gordurosa não alcoólica e infecção pelo genótipo 3 estão associados à progressão mais rápida da fibrose e evolução para cirrose.

Com o avanço da fibrose, aumenta significativamente o risco de carcinoma hepatocelular, devido ao acúmulo de alterações genéticas e estímulo à proliferação celular desordenada.

Manifestações clínicas da Hepatite C

Fase aguda

A maioria dos pacientes é assintomática. Quando há sintomas, estes surgem geralmente entre 2 e 26 semanas após a exposição (média de 7 a 8 semanas) e duram de 2 a 12 semanas.

Nos casos sintomáticos, o quadro é semelhante ao de outras hepatites virais e pode incluir icterícia, colúria (urina escura), acolia fecal, náuseas e dor no hipocôndrio direito. Outros sintomas possíveis são fadiga, febre baixa, calafrios, anorexia, prurido, mialgias, artralgias, dispepsia, alterações de humor e, mais raramente, confusão mental. A insuficiência hepática fulminante é rara.

Fase crônica

A maioria dos indivíduos permanece assintomática por longos períodos. Quando presentes, os sintomas são inespecíficos, como fadiga, mal-estar, dor abdominal intermitente (principalmente em hipocôndrio direito) e artralgias, com possível impacto na qualidade de vida.

Doença hepática avançada (cirrose e descompensação)

Entre 10% e 20% dos pacientes com cirrose evoluem para descompensação em até 5 anos. As principais complicações incluem hipertensão portal, varizes esofágicas, ascite, coagulopatia, encefalopatia hepática e carcinoma hepatocelular.

Os sinais clínicos incluem estigmas de hepatopatia crônica, como aranhas vasculares, eritema palmar, caput medusae, asterixis, ascite, edema periférico e hepatoesplenomegalia.

Manifestações extra-hepáticas

Podem ocorrer manifestações sistêmicas associadas, como crioglobulinemia mista, glomerulonefrite membranoproliferativa, porfiria cutânea tarda, líquen plano, alterações neurocognitivas, resistência à insulina e doenças linfoproliferativas de células B.

Achados de doença hepática terminal

Nos estágios avançados, o exame físico pode revelar sinais de insuficiência hepática, como icterícia, atrofia muscular (especialmente temporal), aumento de parótidas, ginecomastia, testículos pequenos, fetor hepático, edema de membros inferiores, petéquias, rarefação de pelos, além de hérnia umbilical, caput medusae e esplenomegalia.

Achados laboratoriais (fase aguda)

Caracteristicamente, há elevação importante das aminotransferases (frequentemente >10 a 20 vezes o limite superior), com valores flutuantes. A bilirrubina também pode estar elevada, especialmente nos pacientes sintomáticos. É importante destacar que a normalização das enzimas hepáticas não exclui infecção persistente.

Diagnóstico de Hepatite C

O Ministério da Saúde recomenda que a investigação diagnóstica seja baseada em um fluxo de duas etapas:

1. Teste de triagem (Anti-HCV): A investigação sempre começa com a pesquisa de anticorpos contra o vírus, que pode ser feita por meio de testes sorológicos (como o ELISA) ou testes rápidos (imunocromatografia de fluxo).

  • O anti-HCV reagente (positivo) indica apenas que o paciente teve contato prévio com o vírus em algum momento da vida, não sendo possível usar esse teste isoladamente para diferenciar se a infecção está ativa ou se o corpo já eliminou o vírus.
  • Se o teste rápido resultar positivo, não é necessário fazer um teste sorológico (ELISA) para confirmar esse contato.
  • Uma ressalva importante é que alguns grupos, como pacientes imunossuprimidos e dialíticos, podem não positivar o exame anti-HCV mesmo estando infectados.

2. Teste confirmatório (Teste Molecular / HCV-RNA): Caso o teste anti-HCV seja positivo, a investigação deve prosseguir com um teste molecular quantitativo para detectar a presença do material genético do vírus (a dosagem de HCV-RNA, ou “carga viral”).

  • Se o HCV-RNA for detectável, o diagnóstico de infecção ativa está confirmado e o paciente deve ser encaminhado para tratamento.
  • Se o HCV-RNA for indetectável, conclui-se que o paciente teve contato com o vírus, mas não possui a infecção no momento.
  • Adicionalmente, antes de iniciar o tratamento, é importante realizar a genotipagem para identificar qual a variante específica do vírus.

Diferenciação entre fase aguda e crônica:

  • Infecção Aguda: É diagnosticada pela soroconversão recente (em menos de 6 meses). Isso significa que o paciente tinha um anti-HCV negativo no momento da exposição ou do início dos sintomas e passou a ter um exame positivo 90 dias depois; ou tinha um anti-HCV negativo, mas apresentou o vírus detectável (HCV-RNA) no sangue em até 90 dias após a exposição ou sintomas.
  • Infecção Crônica: É diagnosticada quando tanto o anticorpo (anti-HCV) quanto o próprio vírus (HCV-RNA) continuam presentes nos exames por um período superior a 6 meses.

Avaliação complementar

Após a confirmação, realiza-se a genotipagem do HCV, importante para orientar o tratamento e prever resposta terapêutica. Além disso, deve-se investigar coinfecções (HIV e hepatite B) e avaliar imunidade para hepatites A e B.

Também é necessário excluir outras causas de doença hepática, como doenças autoimunes, hemocromatose e doença de Wilson.

Estadiamento da doença

A avaliação da gravidade da doença hepática é etapa fundamental e pode ser feita por:

  • Biópsia hepática (padrão-ouro, porém não rotineira);
  • Métodos de imagem e marcadores não invasivos.

Pacientes devem ainda ser submetidos a rastreamento de varizes esofágicas e carcinoma hepatocelular.

Exames laboratoriais adicionais

Incluem:

  • Provas de função hepática;
  • Hemograma completo;
  • INR e tempo de protrombina;
  • Função renal (TFG);
  • Sorologias para outras hepatites;
  • Função tireoidiana.

Também é importante avaliar uso de álcool e drogas, além do estado de saúde mental.

Indicações de biópsia hepática

Embora não seja de rotina, pode ser indicada em casos de:

  • Diagnóstico incerto;
  • Suspeita de doença hepática associada;
  • Pacientes imunossuprimidos.

Tratamento da Hepatite C

O tratamento da hepatite C é feito com medicamentos antivirais de ação direta, administrados por via oral, que possuem poucos efeitos colaterais e altas taxas de cura. O objetivo principal é atingir a Resposta Virológica Sustentada (RVS), que significa ter o vírus (HCV-RNA) indetectável na 12ª ou 24ª semana após o término da medicação. É importante ressaltar que a cura não confere imunidade, existindo risco de reinfecção caso haja nova exposição ao vírus.

Hepatite C Aguda: A infecção na fase aguda pode se resolver de forma espontânea, sem a necessidade de intervenção. A recomendação é monitorar a carga viral (HCV-RNA) do paciente por um período de 8 a 12 semanas para verificar se ocorre esse clareamento natural do vírus. Se o organismo não o eliminar sozinho nesse intervalo, o tratamento medicamentoso está indicado.

Hepatite C Crônica: Na fase crônica, o tratamento está sempre indicado para todos os pacientes, independentemente do grau de fibrose hepática ou estadiamento da doença.

Antes de iniciar os medicamentos, o médico avalia o grau de fibrose (através de exames como APRI, FIB4, elastografia ou biópsia hepática) e o grau de descompensação do fígado (pelo escore de Child-Pugh) para definir a melhor estratégia. Atualmente, a maioria dos tratamentos é pan-genotípica (servem para qualquer genótipo do vírus), o que simplifica muito a prescrição. As bases do tratamento envolvem combinações como Sofosbuvir + Daclatasvir, Sofosbuvir + Velpatasvir (+ Voxilaprevir) ou Glecaprevir + Pibrentasvir.

Segundo as recomendações simplificadas mais recentes (2025), a duração da terapia varia de 8 a 24 semanas, dependendo do perfil do paciente:

  • Pacientes sem cirrose (APRI < 1) e sem tratamento prévio: Recomenda-se o uso de Sofosbuvir + Daclatasvir por 12 semanas ou Glecaprevir + Pibrentasvir por 8 semanas.
  • Pacientes com cirrose compensada (Child A / APRI $\ge$ 1) e sem tratamento prévio: O esquema indicado é Sofosbuvir + Velpatasvir por 12 semanas ou Glecaprevir + Pibrentasvir por 8 a 12 semanas.
  • Pacientes com cirrose descompensada (Child B ou C / APRI $\ge$ 1) e sem tratamento prévio: Deve-se utilizar Sofosbuvir + Velpatasvir por um tempo mais prolongado, de 24 semanas.
  • Pacientes que já realizaram tratamento prévio que falhou: Para os sem cirrose ou com cirrose compensada (Child A), utiliza-se Sofosbuvir + Velpatasvir + Voxilaprevir por 12 semanas; já para os com cirrose descompensada (Child B/C), indica-se Sofosbuvir + Velpatasvir por 24 semanas.

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Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Hepatite C e Coinfecções. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.

FELD, Jordan J. Clinical manifestations, diagnosis, and treatment of acute hepatitis C virus infection in adults. Editado por Adrian M. Di Bisceglie e Allyson Bloom. UpToDate, 17 fev. 2026

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