Olá, querido doutor e doutora! A Doxi-PEP representa uma estratégia de profilaxia pós-exposição voltada à redução de infecções sexualmente transmissíveis bacterianas em populações selecionadas. A incorporação dessa abordagem demanda também atenção ao risco de resistência e à necessidade de seguimento periódico.
A administração deve ser realizada idealmente até 24 horas após a exposição, podendo ser utilizada em até 72 horas.
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Visão geral
O termo doxi-PEP refere-se especificamente à profilaxia pós-exposição com doxiciclina, caracterizada pela administração do antibiótico após o evento de risco. Essa estratégia se diferencia da profilaxia pré-exposição, que é realizada antes do contato sexual, com finalidade preventiva contínua.
Indicações e dosagem
A Doxi-PEP está indicada principalmente para homens cisgênero que fazem sexo com homens (HSH) e mulheres transgênero com histórico recente de infecção sexualmente transmissível bacteriana. A estratégia baseia-se no uso de doxiciclina após exposições sexuais de risco, com o objetivo de reduzir a incidência de sífilis, clamídia e gonorreia.
Indicações
População primária com recomendação forte
- Indivíduos HSH e mulheres transgênero com diagnóstico de IST bacteriana nos últimos 12 meses;
- Aplicável tanto para pessoas vivendo com HIV quanto para aquelas em uso de profilaxia pré-exposição ao HIV
População expandida com decisão compartilhada
- HSH e mulheres transgênero sem IST recente, mas com práticas sexuais associadas a maior risco;
- Indivíduos que antecipam aumento da exposição sexual com possibilidade de aquisição de IST
Populações com evidência limitada
- Mulheres cisgênero;
- Homens heterossexuais cisgênero;
- Homens transgênero;
- Pessoas de gênero diverso designadas femininas ao nascimento.
Nesses grupos, os dados disponíveis são insuficientes para recomendação rotineira, sendo possível considerar o uso de forma individualizada com decisão compartilhada, especialmente diante de risco elevado.
Dosagem e Administração
Posologia
- Dose única de 200 mg de doxiciclina, independentemente da formulação;
- Administração o mais precocemente possível após a relação sexual, preferencialmente em até 24 horas, com limite máximo de 72 horas
Limite de dose
- Máximo de 200 mg a cada 24 horas, mesmo em casos de múltiplas exposições no mesmo período.
Frequência de uso
- Pode ser utilizada de forma repetida conforme necessidade, respeitando o limite diário.
Situações de uso
- Indicada após sexo oral, vaginal ou anal sem preservativo.
Prescrição e seguimento
- Prescrição geralmente baseada na frequência de atividade sexual prevista, com fornecimento de doses suficientes até a próxima avaliação;
- A necessidade de manutenção da estratégia deve ser reavaliada periodicamente, em intervalos de 3 a 6 meses.
Contraindicações
As contraindicações da Doxi-PEP seguem aquelas estabelecidas para a doxiciclina, devendo ser cuidadosamente avaliadas antes da prescrição.
Contraindicação absoluta
- Hipersensibilidade às tetraciclinas ou a qualquer componente da formulação.
Contraindicações relativas e precauções
Gravidez e desenvolvimento dentário
- Uso durante a gestação, especialmente na segunda metade, e em crianças até 8 anos pode causar descoloração dentária permanente e hipoplasia do esmalte;
- Pode ocorrer inibição reversível do crescimento ósseo.
Hipertensão intracraniana
- Associada ao uso de tetraciclinas, com manifestações como cefaleia, diplopia e alterações visuais;
- Maior risco em mulheres em idade fértil com sobrepeso ou histórico prévio;
- Evitar associação com isotretinoína;
- Pode haver risco de perda visual permanente, mesmo após suspensão.
Reações cutâneas graves
- Incluem síndrome de Stevens-Johnson, necrólise epidérmica tóxica e DRESS;
- Podem ocorrer erupções medicamentosas fixas, com agravamento em reexposições;
- Requer suspensão imediata diante de sinais sugestivos.
Fotossensibilidade
- Pode ocorrer reação cutânea exacerbada à luz solar;
- Recomenda-se redução da exposição solar e medidas de fotoproteção.
Diarreia associada a Clostridioides difficile
- Pode variar de diarreia leve a colite grave;
- Deve ser considerada em pacientes com diarreia após uso do antibiótico;
- Pode exigir suspensão da medicação.
Insuficiência renal
- Pode haver necessidade de ajuste de dose para evitar acúmulo e toxicidade.
Síndromes autoimunes
- Relacionadas ao uso de tetraciclinas;
- Diante de manifestações compatíveis, está indicada interrupção imediata da doxiciclina.
Farmacocinética e Farmacodinâmica
A doxiciclina apresenta perfil farmacocinético favorável para uso em profilaxia pós-exposição, com absorção elevada, ampla distribuição e meia-vida prolongada.
Absorção
- Absorção quase completa por via oral, com início rápido de detecção plasmática em 15 a 30 minutos;
- Após dose de 200 mg:
- Cmax: 2,6 a 3,61 μg/mL
- Tmax: 2,0 a 2,6 horas
- Concentração em 24 horas: 0,95 a 1,45 μg/mL
- Meia-vida: 15 a 25 horas
Efeito dos alimentos
- A absorção não sofre grande interferência alimentar, porém laticínios podem reduzir a exposição sistêmica;
- Recomenda-se evitar ingestão concomitante com leite ou manter intervalo de 2 a 3 horas.
Distribuição
- Alta lipossolubilidade, com ampla penetração tecidual;
- Ligação proteica superior a 90%;
- Presença em fígado, medula óssea e baço;
- Atravessa a placenta e é detectada no leite materno;
- Pode formar depósitos em ossos e dentes em desenvolvimento.
Metabolismo
- Metabólitos não bem definidos;
- Fármacos indutores enzimáticos podem reduzir a meia-vida.
Eliminação
- Predominantemente pelo trato gastrointestinal, com menor excreção renal;
- Cerca de 40% excretado na urina em 72 horas em função renal normal;
- Em insuficiência renal grave, excreção renal reduzida sem alteração relevante da meia-vida;
- Hemodiálise não altera significativamente a depuração;
- Parte da droga é eliminada pelas fezes após secreção biliar.
Mecanismo de ação
- Inibição da síntese proteica bacteriana por ligação à subunidade ribossomal 30S;
- Ação predominantemente bacteriostática.
Espectro antimicrobiano relevante
- Atividade contra:
- Treponema pallidum;
- Chlamydia trachomatis;
- Neisseria gonorrhoeae, com limitação devido à resistência.
Resistência bacteriana
- Pode ocorrer resistência cruzada com outras tetraciclinas;
- A resistência da Neisseria gonorrhoeae é variável e representa limitação clínica relevante.
Advertências e precauções da Doxi-PEP
A utilização da Doxi-PEP exige avaliação criteriosa, especialmente devido a implicações relacionadas à resistência antimicrobiana, eficácia variável e necessidade de monitoramento clínico contínuo.
Resistência antimicrobiana
- Principal preocupação associada ao uso da estratégia;
- Impacto potencial sobre Neisseria gonorrhoeae e também sobre o microbioma, incluindo microrganismos como Staphylococcus;
- Necessidade de uso direcionado e criterioso;
- Recomendado monitoramento contínuo de padrões de resistência em nível individual e populacional.
Eficácia variável para gonorreia
- Atividade contra N. gonorrhoeae é inconsistente;
- Influenciada por níveis regionais de resistência à tetraciclina;
- Redução de eficácia quando comparada a outros patógenos alvo, como sífilis e clamídia.
Populações com evidência limitada
- Ausência de recomendações formais para:
- Mulheres cisgênero
- Homens heterossexuais cisgênero
- Homens transgênero
- Pessoas de gênero diverso designadas femininas ao nascimento.
- Uso deve ser individualizado, com decisão compartilhada, considerando risco de exposição
Infecções de sífilis de escape
- Possibilidade de infecções com apresentação clínica atenuada;
- Potencial alteração em testes sorológicos, como RPR, com respostas menos evidentes;
- Dados ainda limitados sobre relevância clínica desse fenômeno.
Necessidade de rastreamento contínuo
- Indivíduos em uso de Doxi-PEP devem realizar rastreamento regular para ISTs;
- Intervalos recomendados de 3 a 6 meses, ajustados conforme comportamento sexual;
- Inclui testagem de sítios anatômicos expostos e sorologia para sífilis;
- Abordagem sistemática permite detecção precoce e manejo adequado de infecções incidentes.
Interações medicamentosas
| Tipo de Interação | Medicamentos | Efeito | Manejo |
| Diminuição da absorção | Antiácidos (Al, Ca, Mg), ferro, bismuto | ↓ Absorção de doxiciclina | Separar por 2 a 3 horas |
| Diminuição da meia-vida | Barbitúricos, carbamazepina, fenitoína, rifampicina | ↓ Concentração de doxiciclina | Considerar ajuste de dose |
| Efeito anticoagulante | Varfarina, outros anticoagulantes | ↑ Efeito anticoagulante | Monitorar INR e ajustar dose |
| Antagonismo antibiótico | Penicilinas | Interferência na ação bactericida | Evitar uso concomitante |
| Contraceptivos | Contraceptivos orais | Possível ↓ eficácia | Considerar método adicional |
| Toxicidade renal | Metoxiflurano | Risco de nefrotoxicidade grave | Uso contraindicado |
| Hipertensão intracraniana | Isotretinoína | ↑ Risco de pseudotumor cerebral | Evitar uso concomitante |
| Antirretrovirais | IPs, NNRTIs, INSTIs | Nenhuma interação conhecida | Nenhum ajuste necessário |
Superdosagem ou intoxicação
A superdosagem de doxiciclina no contexto da Doxi-PEP não possui antídoto específico, sendo o manejo baseado em tratamento sintomático e medidas de suporte clínico.
Manejo da superdosagem
Conduta inicial
- Suspensão imediata da medicação;
- Instituição de tratamento sintomático;
- Adoção de medidas de suporte conforme o quadro clínico.
Diálise
- A diálise não é eficaz na remoção da doxiciclina;
- Isso se deve à alta ligação às proteínas plasmáticas e ao predomínio de eliminação pelo trato gastrointestinal.
Manifestações clínicas esperadas
Embora não haja descrição específica para superdosagem na bula, os achados são extrapolados a partir dos efeitos adversos conhecidos das tetraciclinas.
Sintomas gastrointestinais
- Náuseas e vômitos;
- Diarreia;
- Dor epigástrica;
- Anorexia;
- Disfagia.
Alterações renais
- Elevação de ureia (BUN), possivelmente relacionada à dose.
Hepatotoxicidade
- Pode ocorrer, especialmente em pacientes com comprometimento renal associado.
O acompanhamento clínico deve ser direcionado à identificação precoce de complicações e à manutenção da estabilidade hemodinâmica e metabólica.
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Referências Bibliográficas
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- HORBERG, M.; THOMPSON, M.; AGWU, A.; et al. Primary care guidance for providers of care for persons with human immunodeficiency virus: 2024 update by the HIV Medicine Association of the Infectious Diseases Society of America. Clinical Infectious Diseases, 2024.
- PETERS, R. P. H.; GRINSZTEJN, B.; CELUM, C.; et al. Innovations in the biomedical prevention, diagnosis, and service delivery of HIV and other sexually transmitted infections. Lancet, 2025.



